terça-feira, 7 de abril de 2009

DE OLHOS BEM ABERTOS - Texto de autoria de Neir Moreira - Coordenador do Curso de Teologia Ministerial ENSINAI



O espaço geográfico do sagrado e a sua ocupação e disposição hierárquica da maioria dos templos evangélicos têm permitido uma observação mais fria quanto ao comportamento daqueles que tecnicamente conduzem o momento litúrgico de nossos cultos. Tanto do púlpito em relação à nave da igreja, quanto o inverso tem-se constituído uma via preferencial para tal observação.

Dentre os diversos elementos constitutivos do culto cristão, notadamente o pentecostal, a oração certamente pode ser definida como aquele imprescindível em qualquer tipo ou natureza cultual. Dispensa comentários bíblicos, hermenêuticos e exegetas acerca da importância desta prática religiosa.

Embora o texto sagrado em nenhum momento assegure a necessidade de se fechar os olhos para buscar a face de Deus, cultural e socialmente este comportamento já foi historicamente associado pela comunidade cristã. É óbvio que o cerramento dos olhos facilita a concentração, inibe a distração, além de trazer no seu bojo institucional um tom de cerimonialismo. Talvez nada mais, além disso. Eu me refiro explicitamente ao comportamento tipicamente humano.

Ora, se o momento de clamor coletivo a Deus é fundamental no culto cristão, porque a grande maioria das pessoas (obreiros e membros) não ora?

Para além de uma postura crítica e julgadora, meu posicionamento refere-se a um comprometimento litúrgico por todos aqueles que compartilham o mesmo espaço físico, sagrado e espiritual. A unidade foi deixada no alpendre do templo, se é que ela adentrou ao pátio. Permita-me citar a religião muçulmana: no momento da oração, todos, indistintamente, prostram-se com a fronte ao chão, a um só momento e comungam entre si.

Lamentavelmente, a estrutura litúrgica da maioria dos cultos evangélicos exige uma comunicação intensa entre o dirigente do culto e os prováveis co-participantes. A título de organização, o diálogo corre solto sob e a partir do altar. Irrequieto, intentei realizar um teste pessoal. Tive muita dificuldade, mas o fiz umas três vezes durante a minha trajetória ministerial. Mantive-me com os olhos bem abertos para reparar o que acontecia no mundo visível durante a oração. Incrível, o mercado paralelo simplesmente ignora o momento sagrado da oração. Ele vai desde a entrada dos atrasados, a saída dos “apertados”, o fechamento que não foi possível antes do culto, uma olhadela na gatinha do banco de trás, uma verificada se a roupa continua alinhada, uma olhadela no sermão, a última pigarreada para não desafinar... Até que a oração sustentada pelos bravos resistentes chega ao fim.

É bem verdade que a pós-modernidade alterou a dinâmica da vida, tornando-a mais agitada e inconstante. Porém, o momento mais íntimo entre o adorador e seu Deus deve ser preservado. Boa parte dos cristãos, infelizmente, não se envolve com o ministério da pregação, do louvor e com o próprio culto, assumindo passivamente a sua posição litúrgica. Todavia, a oração constitui-se num oásis neste deserto. Independentemente, cada um pode conduzir sua oração na congregação dos justos.

Eu reconheço que pessoalmente não disponho de tempo para participar de todos os cultos que minha igreja oferece semanalmente. Entretanto, tenho um lema que sigo fielmente: os poucos cultos os quais participo, eu faço questão de evitar todo e qualquer comportamento paralelo que concorra com a minha atenção. Os cerca de 120 minutos de adoração que geralmente dura um culto assembleiano eu os vivo intensamente. Faço da qualidade a minha aliada contra a quantidade.

As conversas, torpedos, paqueras, negócios, distrações e tráfego na nave e no púlpito são os obstáculos que o Espírito Santo encontra nos cultos atuais. Os cambistas atuais em nada são diferentes daqueles que Jesus se deparou no templo. Seu barulho e movimentação ainda continuam roubando a cena no santuário. Jesus não vai lançar mão de novo do azorrague, afinal, ele delegou aos seus ministros a autoridade cabal para impor limite em sua casa.

Lembro-me de minha saudosa mãe que se recusava a entrar na igreja enquanto o povo estava orando, e quando finalmente a oração encerrava, lenta e sonelemente ela adentrava com sua fronte reclinada. Irmã Pereira fez escola. Pelo menos nesta aula eu não faltei.

Cleopas e seu companheiro andaram mais de 10km na companhia de Jesus e ainda assim foi preciso que o Mestre por excelência abrisse os seus olhos. Após a oração, é claro. Mesmo hoje, tem muita gente que precisa passar pela experiência em Emaús.

Talvez esteja na hora de abrirmos os nossos olhos. Os olhos do temor e da reverência a Deus. Afinal quanto mais estes olhos estiverem abertos, menos tempo passaremos distraídos no momento de devoção e entrega ao nosso Deus. O momento da oração.

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