segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O EVANGELHO E A CULTURA DIGITAL



Entrevista de Al Erisman à Tim Stafford para Cristianismo Hoje

A tecnologia está mudando nossas vidas em alta velocidade e de forma imprevisível. Em apenas uma década, por exemplo, o telefone móvel tem transformado a vida diária de praticamente todos os líderes de igreja no mundo. A tecnologia também muda a maneira como o evangelho é comunicado, quer seja por meio de slides no PowerPoint, websites ou em telas multi-site de algumas igrejas. Procuramos um homem que tem décadas de experiência prática com a tecnologia nas empresas – bem como ampla e profunda reflexão sobre o seu significado.

Al Erisman passou 32 anos na Boeing e, durante os seus últimos 11 anos lá, foi diretor de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Ele agora leciona na faculdade de administração de empresas da University Pacific Seattlee e é co-fundador e diretor da revista Ethix realiza consultoria e palestras sobre fé e desenvolvimento econômico na Repúbica da África Central e Nepal. Ele falou recentemente com o editor da Global Conversation (Conversa Global) e editor sênior, Tim Stafford.

O que a tecnologia tem a ver com o evangelho?

Muito. Estreitando nossa abordagem somente à tecnologia da informação, reconhecemos tudo em relação à informação e à comunicação como elemento fundamental de proclamação do evangelho. É também sobre que tipo de pessoas nos tornamos e como nos comunicamos com as pessoas que fazem parte da era digital. Poderíamos ainda olhar para o impacto mais amplo de outras tecnologias, como os automóveis, a energia nuclear, ou a biotecnologia – tudo o que venha de um processo passo a passo ou do uso de ferramentas. Mas temos as mãos cheias ao falarmos sobre tecnologia da informação.

Concebo a tecnologia da informação em cinco camadas. A camada inferior é a base da tecnologia – o microchip, por exemplo. Gordon Moore, co-fundador da Intel, previu o que hoje é chamada de Lei de Moore: o microchip será reduzido pela metade a cada 18 meses. Isso se traduz em um chip com desempenho cada vez mais rápido e mais barato, a uma taxa surpreendente – um a cada dez fatores no custo e no desempenho é aperfeiçoado a cada cinco anos. O que possibilita uma fundamental e interminável renovação.

A segunda camada é a dos produtos que a tecnologia de base torna possíveis. Aqui somos mais diretamente influenciados. No caso do microchip, nossos computadores regularmente se tornam mais rápidos e baratos. Esta parte é bastante previsível, mas também vemos o aparecimento imprevisível de produtos e recursos. Temos a Internet, o Google, as redes sociais, o Twitter, as câmeras digitais, o iPhone, e assim por diante. Ás vezes, usamos esses aparelhos simplesmente para fazer o que fazíamos antes, só que de forma mais rápida. Mas algumas vezes novos produtos introduzem toda uma nova maneira de pensar e trabalhar.

O terceiro nível é onde os produtos são empregados juntos, feitos para o trabalho, trazendo segurança, e todas as coisas que se referem à infra-estrutura. Sobre esta camada, geralmente os usuários só precisam saber que existem pessoas talentosas que mantêm tudo funcionando.

A quarta camada é onde a vida dos líderes da igreja pode ser transformada – onde a tecnologia permite redesenhar os fundamentos do que fazemos. Por exemplo, um pastor pode facilmente acessar muito mais fontes e incorporar vídeos em uma apresentação. Pode postar sermões online e, assim, atingir muito mais pessoas. Grupos de discussão podem se encontrar através de uma comunidade, mesmo de um lado a outro do mundo. Mais de um autor sugeriu que esta é “a morte da distância”. Se você tiver acabado de voltar de outra parte do mundo, pode manter a comunicação com as pessoas de lá de forma extraordinária.

Não há riscos também?

Certamente que sim. Toda tecnologia tem um efeito colateral. Ela nos permite fazer algo novo e bom, mas algo que é diferente. Em Atos 2, os discípulos estavam proclamando as “maravilhas de Deus” quando alguns os acusaram de estarem embriagados. Pedro imediatamente dirigiu-se ao ponto, levando sua apresentação para outra direção.

Como isto pode acontecer quando estamos assistindo a um vídeo ou baixando um sermão pela internet?

Na década de 1980, críticos rejeitaram os sermões de televangelistas porque os ouvintes isolados não podiam experimentar a vida congregacional. Eles também se queixaram de que o meio impunha uma ostentação que competia com o evangelho. Hoje o vídeo é usado para ampliar o alcance de um pregador a várias congregações.

A verdadeira pregação exige a presença real?

A televisão não pode fornecer a mesma atmosfera de adoração que a trazida pela presença física. Mas se pensarmos sobre avanços tecnológicos anteriores, no texto escrito de um sermão também faltaria esse ingrediente. No entanto, temos visto Deus abençoar folhetos evangelísticos. Recentemente conversei com um pastor do Nepal que veio a Cristo através de um folheto que encontrou na rua. O que é adquirido pelo texto (em comparação com as duas pregações, ao vivo e pela televisão) é a possibilidade de voltar a ele e estudá-lo. O que é adquirido pela televisão (comparado com a imagem) é alguma nuance (uma careta, um sorriso, uma pausa).

À medida que avançamos para o e-mail ou para a WebEx conferência, vemos vantagens e desvantagens semelhantes. Assim será quando passarmos a utilizar imagens holográficas para oferecer a ilusão de que estamos na mesma sala com outra pessoa.
Não devemos pensar estas tecnologias como forma de substituir outros meios existentes. Devemos pensar nelas como camadas para formar um padrão de comunicação eficaz. Televisão, Web conferência e e-mail não devem substituir a comunicação face a face, mas sim complementá-la.

Um pequeno grupo ao vivo é maravilhoso e esse foi o método primário do discipulado do Nosso Senhor. Mas Ele também falou a grandes multidões. Caso Ele tivesse chegado ao século 21, acredito que também teria usado essas novas ferramentas, mas não para substituir a intimidade ou as discussões em grandes grupos.

Isto nos leva à quinta camada, onde consideramos o que a tecnologia tem feito às pessoas. Vemos hoje que as pessoas têm a duração da atenção diminuída, leem menos, tentam fazer duas coisas ao mesmo tempo e se distraem. As igrejas veem toda a semana ambos os aspectos, positivos e negativos, da tecnologia. É muito bom lidar com pessoas que podem responder às nossas necessidades de imediato, uma vez que estão sempre conectadas. Por outro lado, é um desafio lidar com uma congregação que está na igreja enviando mensagens de texto ou se distrai quando o sermão dura mais de vinte minutos.

Precisamos pensar o desafio da comunicação como um desafio transcultural. Um missionário não iria para o Brasil, sem procurar entender a língua e a cultura do povo local. Então é importante, tanto para os líderes da igreja quanto para os missionários, entender a cultura da geração digital.

Dissolvendo as distâncias, as tecnologias da comunicação podem prejudicar a comunhão congregacional? Quais aspectos da vida Cristã podemos estender à tecnologia? O que pode minar isto?

Alguém sugeriu que seus computadores poderiam ser programados para organizar uma lista de orações todas as manhãs, e assim descansar. “Será que isso conta?”, eles perguntaram. Acho que não. Mas se você colocar o seu melhor em um artigo e as pessoas o lerem um tempo depois, será que isso conta como comunicação? Sabemos que não, mas é um tipo diferente de comunicação do que ter uma conversa.

O ex-vice presidente da Intel, Pat Gelsinger, disse, “Se eu enviar e receber e-mails de alguém mais de quatro ou cinco vezes sobre o mesmo assunto, paro. Vamos ao telefone e nos encontramos face a face”. Você pode fazer algumas coisas em uma conversa presencial (construir confiança, conhecer uns aos outros como pessoas, estabelecer contexto para observações, esclarecimentos) que seria muito difícil de concretizar com o vai e vem dos e-mails. Ainda assim, quando eu voltar de uma visita a Singapura, desejo manter um relacionamento através do e-mail, que constitui uma contribuição muito valiosa para a construção da comunidade.

No mundo dos negócios, onde trabalhamos com equipes virtuais a nível mundial, descobrimos que, quando uma equipe começa a operar, é preciso definir seus objetivos e certificar-se de que seus membros os compreenderam. Além disso, todos precisam aprender a confiar uns nos outros. Isto pode ser feito melhor cara a cara. O contato pessoal é fundamental.

Quando você começa definindo o trabalho e distribuindo-o, isso pode ser feito de forma sincronizada através do telefone ou de uma vídeo conferência. E na fase de implementação e avaliação, você não tem que estar junto em tempo real. É possível usar o e-mail para atualizar o outro. Diferentes formas de comunicação são melhores em diferentes contextos.

Esta entrevista faz parte da Global Conversation (Conversa Global) – um diálogo virtual através da Internet com líderes de todo o mundo. Compare isso com o imenso debate adaptado para a Cape Town em outubro.

O fórum virtual é maravilhoso, mas cometemos um erro se pensarmos que a nova tecnologia substitui a antiga. O valor de estar presente com outra pessoa se dá durante o café ou o jantar, através de conversas paralelas com pessoas que encontramos inesperadamente. Não encontramos uma maneira de fazer isso acontecer no mundo virtual.

A sobrecarga de informação ameaça cortar a comunicação. Muitos de nós apagamos mensagens sem lê-las. Como as congregações podem ter certeza de que suas tentativas de contato não se tornarão parte do barulho de fundo?

Quando vivemos em uma cidade grande, temos a mesma tendência de cortar a comunicação com os nossos vizinhos, porque há muitos deles. A tecnologia simplesmente aumenta o número dessas conexões. Nosso Senhor lidou com isso deixando as multidões e saindo com um pequeno grupo de cada vez aos finais de semana. Não somos mais capazes do que ele para continuar as relações em profundidade com todos. “O servo não é maior do que o seu mestre”.

Como os líderes da igreja podem aprender sobre novas as possibilidades e os desafios da tecnologia?

Embora eu tenha lido e me informado amplamente sobre esses assuntos, não vi um olhar sistemático para eles no contexto do evangelho – apenas fragmentos de um todo. Muito tem sido escrito na imprensa secular relacionado aos negócios e à sociedade. Alguns destes conteúdos poderiam ser cuidadosamente adaptados às necessidades da igreja. Ler discriminadamente (por exemplo, Grown Up Digital, de Don Tapscott, ou The future of Success, de Robert Reich) é um bom começo. Criar grupos de estudo Cristãos em torno deste material é ainda melhor.

A inovação tecnológica é parte do mundo de Deus, construída por pessoas criativas feitas à sua imagem. Mas alguns veem apenas a Torre de Babel.
Em Gênesis 1 e 2, vemos Adão e Eva continuando o trabalho de Deus no mundo. Nos dois primeiros capítulos, isso é feito sob a autoridade de Deus. O problema surgiu quando as pessoas pensaram que podiam fazer isso de forma autônoma. Agora temos um mundo em que algumas pessoas usam sua criatividade sob a autoridade de Deus, e outras a usam autonomamente.

É a tecnologia como a Torre de Babel? Sim. É também como o Éden sob a autoridade de Deus? Absolutamente. Mas, pela graça de Deus, mesmo pessoas que não são Cristãs desenvolvem uma tecnologia maravilhosa porque são feitas à Sua imagem.

Por que tantas pessoas, Cristãs ou não, veem a tecnologia de forma pessimista?

As tecnologias costumavam ser usadas para influenciar nossos negócios. Agora, elas nos afetam pessoalmente. Afetam as maneiras como nos comunicamos com nossos vizinhos e cônjuges. Passamos a depender de dispositivos que temos de seguir, e outros dependem de nós em função deles. Se você não atender ao telefone móvel, as pessoas dizem: “O que há de errado com você?” A tecnologia tem sido introduzida de uma maneira muito particular. E isso tem feito que muitos olhem para ela de forma pessimista.

Além disso, as pessoas acreditam que a tecnologia é a razão de terem perdido seus empregos por meio da terceirização. A usina de algodão do século 19 eliminou postos de trabalho para as pessoas que teciam em suas casas. Mas a tecnologia da informação afeta a todos – em sua vida pessoal, bem como em sua vida empresarial. É perturbadora e persistente.

Algumas pessoas sentem-se alienadas digitais e sozinhas com sua tecnologia. Existem relatos bem documentados sobre o suicídio entre os jovens Japoneses que passaram longos períodos de tempo utilizando a tecnologia e isolados dos outros. Eles perderam os elementos do que é ser humano. Suponho que isso é semelhante a outros vícios e deve ser reconhecido como tal. Assim como Paulo falou para aqueles no Areópago sobre os ídolos em sua cultura, podemos oferecer algo àqueles que estão presos pelos ídolos da cultura digital.

Em recente artigo da Ethix, o ex-designer de software Rosie Perera observou que “o filósofo Alemão Martin Heidegger escreve que os seres humanos estão tão imersos na tecnologia, que raramente temos a consciência de que mantemos com ela uma relação que nos afeta… Passando um tempo distante da tecnologia de forma regular é possível transformar a maneira como nos relacionamos com ela e isso pode trazer a vida novamente em foco”.

Não esperamos que essas mudanças desacelerem logo. Nosso desafio será desvendar a cultura em mudança, se comunicando efetivamente com as ferramentas que são dadas e com a geração que encontramos. Anos atrás, Francis Schaeffer advertia-nos para não fugirmos da nossa cultura emergente, mas para abraçá-la e pensarmos sobre isso. Não devemos ter medo.

Fonte: Cristianismo Hoje

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