sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

QUEM DÁ ORDEM AOS ANJOS



Esta pergunta foi feita na Escola Bíblica de Obreiros em Paranaguá/PR.

Primeiro é importante entender o caráter dos anjos. Caráter é um conjunto de qualidades que distinguem, ou seja, que diferenciam. Trata-se da formação moral, da índole. É importante notar que os anjos são dotados de personalidade, e, isso fica evidenciado, por exemplo, em Lc 15.10 quando suas emoções são manifestadas: “Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.”

Este caráter, esta índole é verificada nos anjos da seguinte maneira: na sua obediência, na sua reverência, na sua santidade e na sua mansidão. Em relação à obediência destes seres, entende-se o verbo “obedecer” com origem no latim “oboedire” com o significado de “ouvir alguém”, “dar crédito”, “crer”. Na obediência há submissão à vontade de alguém. Os anjos obedecem em quem eles crêem, ou seja, o próprio Deus. Não se trata de servidão, mas de crédito à palavra e vontade divina.

Eles obedecem ordens divinas e não as questionam. 1Pe 3.20: “O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências.”

O salmo 103.20 expressa à obediência destes seres: “Bendizei ao SENHOR, todos os seus anjos, vós que excedeis em força, que guardais os seus mandamentos, obedecendo à voz da sua palavra.”

Gaby, Eliel. Anjos Bons e Anjos Maus - O que a Bíblia diz sobre eles.

Nenhum personagem bíblico exerceu autoridade e domínio sobre os anjos, ou deu alguma ordem, nem mesmo Jesus (como homem), conforme Mt 26.53,54.
Pela escritura somente Deus tem autoridade sobre os seu anjos e não a estende para mais ninguém, conforme Sl 91.11 e Hb 1.14.
Só temos autoridade, pelo nome de Jesus, sobre demônios ou anjos maus.
O homem não saberia como dar ordem aos anjos, por isso não lhe foi dada essa capacidade. Não temos autoridade para afrontar demônios. A Palavra nos diz para resistí-los e eles fugirão.


Fonte: Paul Gardner. Quem é quem na Bíblia. Editora Vida

Deus ordena aos anjos vigiarem cuidadosamente a vida e o interesse dos fiéis.
(1) Eles observam especialmente todos que buscam continuamente habitar na presença de Deus, e protegem o corpo, alma e espírito desses crentes.
(2) Sua proteção inclui todas as situações da vida. Não há limite aí, enquanto andarmos à sombra do Onipotente. Os anjos nos sustêm em meio as nossas aflições (Sl 91.12) e nos amparam quando enfrentamos os inimigos espirituais.


Fonte: Bíblia de Estudo Pentecostal

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

PASTORES EM PERIGO - ENTREVISTA COM JAIME KEMP



Entre os diversos livros de sua autoria, estão “Pastores em Perigo” e “Pastores ainda em perigo”. O que o senhor define como os maiores “perigos” a que os pastores estão sujeitos?

Jaime Kemp - Gostaria de destacar entre outros, três perigos específicos que rondam a vida e ministério dos pastores: 1 - a facilitação ao desenvolvimento de casos extra-conjugais; 2 - o orgulho que ataca o coração dos pastores principalmente quando suas igrejas são bem sucedidas e crescem em membros. É muito fácil, então, eles se sentirem no direito de dominar seu rebanho em vez de servi-lo; 3 - a incapacidade de equilibrar o tempo entre o ministério e a família. Os pastores têm a tendência de casar com o ministério. É aí, então , que cometem adultério, pois já possuem uma esposa.

Há várias pesquisas e estudos que demonstram pastores que trabalham excessivamente, vivendo nos limites do esgotamento. O que o senhor pensa sobre isso?

Jaime Kemp - O maior problema que eu vejo em um pastor trabalhar excessivamente é a ameaça que isso causa à sua auto-estima. Intimamente, ele acha que precisa "mostrar serviço", isto é, o seu sucesso ministerial está visceralmente ligado ao seu desempenho. À medida que as exigências se acumulam e ele não consegue mais cumpri-los, este pastor começa a sentir que não está correspondendo como deveria, e isso prejudica sua auto-estima. Contudo, sua identidade não está atrelada àquilo que ele consegue fazer ou não, mas a Cristo.

Na sua opinião, por que sentimentos como fracasso e solidão prevalecem na vida de tantos pastores chegando a ponto de terem seus ministérios destruídos?

Jaime Kemp - Quando a solidão e o sentimento de fracasso pesam no coração de um pastor, colocando em risco seu ministério, é muito comum descobrir que ele não tem amigos, colegas de sua própria denominação evangélica com quem possa desabafar, compartilhar, chorar, prestar contas e ouvir palavras de encorajamento para sua vida e ministério. Além disso, sua solidão pode se transformar em armadilha que, às vezes, o fará cair em adultério.

Existe uma expectativa, muitas vezes irreal, a respeito da conduta não só dos pastores mas também de suas famílias, como se não pudessem ter problemas ou defeitos. É possível desmistificar isso na igreja? Seriam os pastores os próprios responsáveis por esta visão equivocada?

Jaime Kemp - As expectativas congregacionais colocam uma pressão injusta sobre o pastor e sua família. Há uma forte exigência para que eles sejam modelos em tudo. O problema de o rebanho encarar o pastor e sua família como gigantes espirituais é por só escutarem deles experiências de vitórias e nunca um compartilhamento sobre um fracasso ou franqueza. O triunfalismo da vida dos líderes.

Através do Ministério Lar Cristão o senhor ministra um curso visando o equilíbrio entre a vida familiar e a ministerial intitulado “Corda Bamba”. Por que este nome?

Jaime Kemp - Porque o pastor precisa equilibrar sua vida entre o ministério, sua esposa e filhos. Muitos deles não sabem como fazê-lo, a preço de verem seu relacionamento familiar praticamente destruído ao abrirem esta brecha ao diabo.

Que estratégias as igrejas podem adotar para ajudarem os líderes e pastores a encontrarem esse equilíbrio?

Jaime Kemp - As igrejas podem encorajar seus líderes e pastores a:
- freqüentarem cursos como o curso "Pastores na corda bamba";
- respeitarem o "dia do pastor". Isto quer dizer que o dia é reservado a ele e à família. Não devem atender telefone, dar plantão na igreja, receber ou fazer visitas e assim por diante;
- separarem duas noites por semana para ficar sua família;
- a igreja deve estimular o pastor a reciclar-se, freqüentando congressos, simpósios, seminários, etc.;
- a igreja precisa respeitar a privacidade do pastor e da sua família, lembrando que a casa pastoral não é um hotel ou restaurante.

Com a exposição de tantos escândalos envolvendo a vida de pastores, nacional e internacionalmente, o senhor acredita que a figura do pastor já não é um referencial tão respeitado?

Jaime Kemp - A figura do pastor tem sido maculada. Muitos consideram que vários pastores estão no ministério por motivos financeiros. Outros acham que eles estão lá porque não encontram outro trabalho mais interessante. Há uma ausência de integridade e seriedade para com o chamado de Deus.

FONTE: http://www.institutojetro.com.br

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Escândalo do Comportamento Evangélico



O Escândalo do Comportamento Evangélico - Por que os evangélicos estão vivendo exatamente como o resto do mundo?

Um livro interessante de ler publicado pela editora ultimato, por um valor acessível.

Sinopse do livro:

Quem nós somos e quem Deus nos chama a ser?

Os evangélicos afirmam crer nos valores bíblicos e no poder de Deus de transformar vidas. Contudo, pesquisas demonstram que muitos não vivem de modo diferente do resto do mundo. De dinheiro a sexo, de racismo a realização pessoal, um escandaloso número de cristãos não vivem o que pregam. O Escândalo do Comportamento Evangélico revela a profundidade do problema e contrasta-o com o ensino bíblico.


“De vez em quando, alguém precisa ‘pisar no calo’ da igreja. A leitura deste livro pode fazer com que a dor fique estampada em seu rosto, mas essa dor do auto-exame vale a pena. Faça-o chegar às mãos de seu pastor, de seu grupo de estudo bíblico, de seu professor de escola dominical. Incentive-os a encarar esses sérios desafios e a despertar a igreja para as demandas do discipulado.”
David Neff, editor e vice-presidente da revista Christianity Today

“Nos últimos trinta anos, desde que Ronald Sider colocou o dedo na ferida da consciência dos evangélicos com a publicação de Cristãos Ricos em Tempo de Fome, o evangelicalismo perdeu o status de ser uma contracultura. O Escândalo do Comportamento Evangélico nos convoca, mais uma vez, a levarmos a sério o evangelho. Para o bem da sociedade — e de nossa própria alma.”
Randall Balmer

“Quando o comportamento de membros de um grupo religioso é um pouco melhor — ou às vezes pior — que o de seus vizinhos, líderes e membros desse grupo devem ficar atentos. Devem fazer algumas perguntas profundas, não apenas sobre seu comportamento, mas também sobre os sistemas que o produzem e sustentam. O Escândalo do Comportamento Evangélico me estimula a fazer esse tipo de pergunta.”
Brian McLaren

“Se você já se perguntou por que os evangélicos de hoje não exercem a influência social que seus números deveriam sugerir, Sider oferece uma resposta em O Escândalo do Comportamento Evangélico.”
Duane Littin, presidente do Wheaton College

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DECEPCIONADOS COM A IGREJA - Cristianismo Hoje



A Igreja Evangélica brasileira está cansada. E é um cansaço que vem provocando mudanças fortes de paradigmas com relação aos modelos eclesiásticos tradicionais. Ele afeta milhões de pessoas que se cansaram de promessas que não se cumprem, práticas bizarras impostas de cima para baixo, estruturas hierárquicas que julgam imperfeitas ou do mau exemplo e do desamor de líderes ou outros membros de suas congregações. Dessa exaustão brotou um movimento que a cada dia se torna maior e mais visível: o de cristãos que abandonam o convívio das igrejas locais e decidem exercer sua religiosidade em modelos alternativos – ou, então, simplesmente rejeitam qualquer estrutura congregacional e passam a viver um relacionamento solitário com Deus. O termo ainda não existe no vernáculo, mas eles bem que poderiam ser chamados de desigrejados.

No cerne desse fenômeno está um sentimento-chave: decepção. Em geral, aqueles que abandonam os formatos tradicionais ou que se exilam da convivência eclesiástica tomam tal decisão movidos por um sentimento de decepção com algo ou alguém. Muitos se protegem atrás da segurança dos computadores, em relacionamentos virtuais com sacerdotes, conselheiros ou simples irmãos na fé que se tornam companheiros de jornada. Há ainda os que se decepcionam com o modelo institucional e o abandonam não por razões pessoais, mas ideológicas. Outros fogem de estruturas hierárquicas que promovam a submissão a autoridades e buscam relações descentralizadas, realizando cultos em casa ou em espaços alternativos.

A percepção de que as decepções estão no coração do problema levou o professor e pastor Paulo Romeiro a escrever Decepcionados com a graça (Mundo Cristão), livro onde avalia algumas causas desse êxodo. Embora tenha usado como objeto de estudo uma denominação específica – a Igreja Internacional da Graça de Deus –, a avaliação abrange um momento delicado de todo o segmento evangélico. Para ele, o epicentro está na forma de agir das igrejas, sobretudo as neopentecostais. “A linguagem dessas igrejas é dirigida pelo marketing, que sabe que cliente satisfeito volta. Por isso, muitas estão regendo suas práticas pelo mercado e buscam satisfazer o cliente”. Romeiro, que é docente de pós-graduação no Programa de Ciências da Religião da Universidade Mackenzie e pastor da Igreja Cristã da Trindade, em São Paulo, observa que essas igrejas não apresentam projetos de longo prazo. “Não se trata da morte, não se fala em escatologia; o negócio é aqui e agora, é o imediatismo”. Segundo o estudioso, a membresia dessas comunidades é, em grande parte, formada por gente desesperada, que busca ajuda rápida para situações urgentes – uma doença, o desemprego, o filho drogado. “O problema é que essa busca gera uma multidão de desiludidos, pessoas que fizeram o sacrifício proposto pela igreja mas viram que nada do prometido lhes aconteceu.”

Se a mentalidade de clientela provocou um efeito colateral severo, a ética de mercado faz com que os fiéis passem a rejeitar vínculos fortes com uma única igreja local, como aponta tese acadêmica elaborada por Ricardo Bitun. Pastor da Igreja Manaim e doutor em sociologia, ele usa um termo para designar esse tipo de religioso: é o mochileiro da fé. “Percebemos pelas nossas pesquisas que muitas igrejas possuem um corpo de fiéis flutuantes. Eles estão sempre de passagem; são errantes, andam de um lugar para outro em busca das melhores opções”, explica. Essa multiplicação das ofertas religiosas teria provocado um esvaziamento do senso de pertencimento, com a formação de laços cada vez mais temporários e frágeis – ao contrário do que normalmente ocorria até um passado recente, quando era comum que as famílias permanecessem ligadas a uma instituição religiosa por gerações.

Para Bitun, a origem desse comportamento é a falta de um compromisso mútuo, tanto do fiel para com a denominação e seus credos quanto dessa denominação para com o fiel. O descompromisso nas relações, um traço de nosso tempo, impede que raízes de compromisso – não só com a igreja, mas também em relação a Deus – sejam firmadas. “Enquanto está numa determinada igreja, o indivíduo atua intensamente; porém, não tendo mais nada que lhes interesse ali, rapidamente se desloca para outra, sem qualquer constrangimento, em busca de uma nova aventura da fé”, constata.



Modelo desgastado – O desprestígio do modelo tradicional de igreja, aquele onde há uma liderança com legitimidade espiritual perante os membros, numa relação hierárquica, já não satisfaz uma parcela cada vez maior de crentes. “As decepções ocorrem tanto por causa de líderes quanto de outros crentes”, aponta o pastor Valdemar Figueiredo Filho, da Igreja Batista Central em Niterói (RJ). Para ele, um fator-chave que provoca a multiplicação dos desigrejados é a frustração em relação a práticas e doutrinas. “Nesses casos, geralmentequem se decepciona é quem se envolve muito, quem participa ativamente da vida em igreja”. Com formação sociológica, o religioso diz que o fenômeno não se restringe à esfera religiosa, já que todo tipo de tradição tem sido questionada pela sociedade. “Há uma tendência ampla de se confrontar as instituições de modo geral”, diz Valdemar, que é autor do livro Liturgia da espiritualidade popular evangélica (Publit).

O jovem Pércio Faria Rios, de 18 anos, parece sintetizar esse tipo de sentimento em sua fala. Criado numa igreja tradicional – ele é descendente de uma linhagem de crentes batistas –, Pércio hoje só freqüenta cultos esporadicamente. “Sinto-me muito melhor do lado de fora”, admite. “Estou cansado da igreja e da religião”. A exemplo da maioria das pessoas que pensam como ele, o rapaz não abriu mão da fé em Jesus – apenas não quer estar ligado ao que chama de “igreja com i minúsculo”, a institucional, que considera morta. “Reconheço o senhorio de Cristo sobre a minha vida e sou dependente da sua graça”, afirma. E qual seria a Igreja com i maiúsculo, em sua opinião? “O Corpo de Cristo, que continua viva, e bem viva, no coração de cada cristão.”

Boa parte dos desigrejados encontra no território livre da internet o espaço ideal para exposição de seus pontos de vista. É o caso de uma mulher de 42 anos que vive em Cotia (SP) e assina suas mensagens e posts com o inusitado pseudônimo de Loba Muito Cruel. À reportagem de CRISTIANISMO HOJE, ela garante que é uma ovelha de Jesus, mas conta que durante muito tempo foi incompreendida e rejeitada pela igreja. “Desde os nove anos, estive dentro de uma denominação cheia de dogmas e regras rígidas, acusadora e extremamente castradora”. Na juventude, afastou-se do Evangelho, mas o pior, diz ela, veio depois. “Retornei ao convívio dos irmãos tatuada e cheia de vícios, e ao invés de ser acolhida, não senti receptividade alguma por parte da igreja, o que acabou me afastando mais ainda dela. Percebi o quanto os crentes discriminam as pessoas”, queixa-se.

Loba conta que, a partir dali, começou uma peregrinação por várias igrejas. Não sentiu-se bem em nenhuma. “Percebi que nenhum dos líderes vivia o que pregava. Isso foi um balde de água fria na minha fé”, relata. Hoje, ela prefere uma expressão de fé mais informal, e considera possível tanto a vida cristã como o engajamento no Reino de Deus fora da igreja – “Desde que haja comunhão com outros irmãos de fé, que se reúnam em oração e para compartilhar a Palavra, evangelizar e atuar na comunidade”, enumera.

Igreja virtual – Gente como Pércio e Loba compartilham algo em comum, além da busca por uma espiritualidade em moldes heterodoxos: são ativos no ambiente virtual, seja por meio de blogs ou através de ferramentas como o twitter e outras redes sociais. É cada vez maior a afluência de pessoas das mais diversas origens denominacionais à internet, em busca de comunhão, instrução e edificação. O pastor Leonardo Gonçalves lidera a Iglesia Bautista Misionera em Piura, no Peru. Mestre em teologia, edita o blog Púlpito cristão. “Quando comecei esse trabalho, passei a conhecer muitas pessoas que estavam insatisfeitas com os rumos que o evangelicalismo brasileiro estava tomando”, revela. “Neste processo, alguns começaram a ver o blog como uma alternativa à Igreja, ou até mesmo como uma igreja virtual”. Leonardo lida com esse tipo de público diariamente no blog. “Geralmente, são pessoas extremamente ressentidas. Consideram-se vítimas de líderes abusivos e autoritários e relatam que tiveram sua autonomia violada e a identidade quase banida em nome de uma mentalidade de rebanho que não refletia os ideais de Cristo.”

Outro que considera natural essa migração em busca de uma comunhão cristã que prescinde da igreja tradicional é o marqueteiro e teólogo presbiteriano Danilo Fernandes, editor do blog e da newsletter Genizah Virtual. Voltado à apologética, seu trabalho tem causado polêmicas e enfrentado resistências, inclusive de líderes eclesiásticos. “Pessoas cansadas de suas igrejas estão buscando pregadores com boas palavras, o que as leva à internet”. Para ele, buscar comunhão virtual em chats e outras mídias sociais é uma tendência. “A massa está desconfiada por traumas do passado; é gente machucada, marcada, ferida, gente que viu seus ídolos caírem”, conclui. Ele mesmo tem atendido diversas pessoas que o procuram para desabafar ou pedir conselhos.

Um resultado dessa busca por comunhão no ambiente virtual é o surgimento de grupos como o Clube das Mulheres Autênticas (CMA). Nascido de uma brincadeira entre mulheres cristãs que se conhecem apenas virtualmente, o grupo tem como lema “Liberdade de ser quem realmente se é”. A bacharel em direito Roberta Oliveira Lima, de 31 anos, é uma das integrantes. Ex-membro da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), ela afastou-se de muitas das práticas ensinadas no modelo congregacional e se diz em busca de uma igreja “sem excessos”. Ela se define como “uma pessoa desigrejada, mas não desviada dos princípios do Evangelho”. Segundo Roberta, o CMA supre carências que a igreja local já não preenchia mais. “Nosso espaço tem sido um local de refúgio, acolhimento e alegrias”, relata.

Ela garante que, até o momento, o grupo não sentiu falta de uma figura sacerdotal. “Aquilo que nos propomos a buscar não requer tal figura”, alega. “Pelo contrário, temos entre nós alguns feridos da religião e abusados por figuras sacerdotais clássicas. O nosso objetivo maior é compartilhar a vida e o Evangelho que permeia todos os centímetros de nossa existência”, descreve, ressaltando que, para isso, não é necessário adotar uma postura proselitista. “Mas nosso objetivo jamais será o de substituir a igreja local”, enfatiza.



“Galho seco” – “Falta de acolhimento pela comunidade, o desgaste provocado pelo estilo centralizador e carismático de liderança e frustração com as ênfases doutrinárias contribuem para esse fenômeno”, concorda o pastor Alderi Matos, professor de teologia histórica no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo. Mas ele destaca outro fator que empurra as pessoas pela porta de saída dos templos: “É quando uma igreja e seus líderes se envolvem em escândalos morais e outros”.

A paraibana C., de 37 anos, é um exemplo de gente que fez esse penoso percurso. Ela relata uma história de abusos e falta de princípios bíblicos na congregação presbiteriana de que foi membro por mais de quinze anos, culminando com um caso de violência doméstica de que foi vítima – sendo que o agressor, seu marido, era pastor. “Havia perdido completamente a alegria de viver, ao me deparar com uma realidade bem distante daquela que o Evangelho propõe como projeto para a vida”. C. fala que conviveu em um ambiente religioso adoecido pela ausência do amor de Cristo entre as pessoas: “Contendas sem fim, maledicência impiedosa e muitos litígios entre pessoas que se diziam irmãs”.

Este ano, C. pediu o divórcio do marido e tem frequentado um grupo alternativo de cristãos. “Rompi com a religião. Hoje, liberta disso, tudo o que eu desejo é Jesus, é viver em leveza e simplicidade a alegria das boas novas do Evangelho”. Ela explica que, nesse grupo, encontrou pessoas que vivenciaram experiências igualmente traumáticas com a religião e chegaram com muitas dores de alma, precisando ser acolhidas e amadas. “Temos nos ajudado e temos sido restaurados pouco a pouco. No âmbito do grupo, um ambiente de confiança foi formado, de modo que compartilhar é algo que acontece naturalmente e com segurança.”

“As pessoas anseiam por ver integridade na liderança. Quando o discurso não casa com a prática, o indivíduo reconhece a hipocrisia e se afasta”, avalia o bispo primaz da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida (ICNV), Walter McAlister. Para ele, se os modelos falidos de igrejas que não buscam o senso de comunhão e discipulado – como os que denuncia em seu livro O fim de uma era (Anno Domini) – não mudarem, o êxodo dos decepcionados vai aumentar. Apesar de compreender os motivos que levam as pessoas a abandonarem a experiência congregacional, o bispo é enfático: “Nossa identidade cristã depende da coletividade e, portanto, de um compromisso com uma família de fé. Sem isso, a pessoa não cresce nas virtudes cristãs e deixa de viver verdadeiramente a sua fé. Como um galho solto, seca e morre”.

“O fenômeno dos desigrejados é péssimo. Somos um corpo, nunca vi orelhas andando sozinhas por ai”, diz Paulo Romeiro. O pastor Alderi, que também é historiador, recorre à tradição cristã para defender a importância da igreja na vida cristã. “Da maneira como a fé cristã é descrita no Novo Testamento, ela apresenta uma feição essencialmente coletiva, comunitária. A lealdade denominacional é importante para os indivíduos e para as igrejas. Quem não tem laços firmes com um grupo de irmãos provavelmente também terá a mesma dificuldade em relação a Deus”, sentencia.



Sinais do Reino – Dentro dessa linha de pensamento, é possível até mesmo encontrar quem fez uma jornada às avessas, ou seja, da informalidade religiosa para o pertencimento denominacional. Responsável pelo blog Lion of Zion, Marco Antonio da Silva, de 31 anos, é membro da Comunidade da Aliança, ligada à Igreja Presbiteriana do Brasil, em Recife (PE). Ele afirma que redescobriu sua fé na igreja institucional. “Para alguns militantes virtuais mais radicais, isso seria uma heresia, mas tenho uma família com necessidades que uma igreja local pode suprir – e a congregação da qual faço parte supre essa lacuna muito bem”, afirma.

“Existe desgaste, autoritarismo e inoperância em todos os lugares onde o homem está”, reconhece o pastor e missionário Nelson Bomilcar. Ele prepara um livro sobre o tema, baseado nas próprias observações do segmento evangélico a partir de suas andanças pelo país. “Podemos ficar cansados e desencorajados, mas temos que perseverar e continuar amando e servindo a Igreja pela qual Jesus morreu e ressuscitou”. Como músico e integrante do Instituto Ser Adorador, Bomilcar constantemente percorre congregações das mais variadas confissões denominacionais – além de ser ligado a seis igrejas locais, ele congrega na Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo. “Continuo acreditando na Igreja do Senhor. Estou na Igreja porque fui colocado nela pelo Espírito Santo. É possível viver o Evangelho na comunidade, apesar de todas as suas ambiguidades, para balizarmos aqui e ali sinais do Reino de Deus. Tenho sido testemunha disso”.

Fonte: http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=30&id_conteudo=596