quarta-feira, 30 de março de 2011

Sincretismo e Igreja Evangélica



Multiplicação de religiões e credos marca o início do Terceiro Milênio e sincretismo atinge até a Igreja Evangélica

No mês passado, as atenções do mundo voltaram-se para Nova Orleans, nos Estados Unidos, o maior país evangélico do mundo. A cidade, celebrizada internacionalmente por sua musicalidade, foi tragicamente destruída pela passagem do furacão Katrina.

Em meio à dor daqueles que perderam tudo e a perplexidade pelos milhares de mortos – ainda não se sabe nem o número exato –, iniciativas de ajuda e socorro surgiram de todos os lados. Uma delas mereceu especial atenção da mídia. O ator John Travolta, protagonista de sucessos do cinema como Os embalos de sábado à noite e Pulp fiction, chegou ao local devastado pilotando seu próprio avião. Junto com a mulher Kelly Preston, Travolta foi levar ajuda às vítimas da tragédia. Além de cinco toneladas de alimentos, o casal também se esforçou para oferecer consolo aos sobreviventes.

A atitude do artista chamou a atenção porque, mais do que um simples gesto de caridade, foi motivada por suas convicções espirituais. Travolta é adepto da Cientologia, religião surgida em 1954 e que ensina, entre outras coisas, a reencarnação, a mudança de mentalidade como forma de combater as doenças e a prática da caridade e do amor para o aperfeiçoamento da alma.

Crenças como a de John Travolta são comuns nesta época pós-moderna. Ao mesmo tempo em que as religiões tradicionais parecem desgastadas pelos próprios paradoxos e sua aparente falta de respostas ante a realidade, outras consideradas mais modernas vão ganhando espaço, mentes e corações. O interesse das pessoas pela religiosidade, como forma de responder aos desafios que enfrentam no cotidiano e, assim, viver melhor, cresce na mesma proporção que o número de novos credos. Essa eferverscência religiosa é tão diversificada e tem uma presença tão forte na sociedade, que recebeu até um nome dos estudiosos: Nova Era. Trata-se de um movimento que foi muito combatido nas igrejas evangélicas nos anos 1980 e 90. Naquele tempo não era nada difícil encontrar gente defendendo que a humanidade estava às portas da Era de Aquário – referência à cosmologia astrológica, segundo a qual, a partir do ano 2000, o mundo entraria na fase deste signo do Zodíaco. Seria um tempo de profundas transformações religiosas, que trariam fim à hegemonia do Cristianismo no Ocidente e levariam a uma nova espiritualidade. Uma conseqüência imediata seria o fim das guerras e o entendimento entre os povos.

Porém, em vez do equilíbrio simbolizado pelo yin yang – um círculo em que tudo se mistura, metáfora do fim das diferenças como o Bem e o Mal –, o que a humanidade presencia é um tempo hostil, marcado por violência, intolerância e catástrofes naturais. Mesmo assim, a religiosidade da Nova Era continua em alta e o que se observa é que cada um tenta salvar-se como pode, aderindo aos mais diversos sistemas religiosos, do misticismo puro e simples a códigos intrincados de fé. Seja de uma maneira mais sutil, como as filosofias orientais, ou através de terapias, técnicas de regressão e programação neurolingüística, passando pela yoga e pela ayurvédica, que conjugam espiritualidade e medicina; ou de forma mais institucional, com uma gama de novas religiões organizadas. Entre aquelas que estão em maior evidência neste começo de século, especialmente por causa de sua exposição e uso da mídia, figuram, além da Cientologia, as orientais como a Seicho-No-Ie e aquelas que envolvem a natureza e cultos antigos oriundos do paganismo, como a Wicca (sobre algumas destas religiões, ver quadros ao longo desta reportagem). Há espaço inclusive para religiões bizarras, como a dos Adoradores de Jedi – isso mesmo, os heróis do seriado Guerra nas Estrelas. Acredite: no último censo religioso realizado no Reino Unido, 400 mil pessoas se declararam adeptas da seita.

Até dentro de crenças milenares brotam novas formas de religiosidade que ganham uma força capaz de renovar a antiga religião. Exemplo disso é a Cabala. Tradição mística oriunda do judaísmo, teve seus princípios difundidos no decorrer da Idade Média. Porém, durante muito tempo seus ensinamentos ficaram restritos, devido à perseguição religiosa, a pequenos círculos. Nos últimos anos isso vem mudando. A filosofia extrapolou os limites de sua religião. Enquanto poucos judeus praticantes se identificam com a Cabala, celebridades como a popstar Madonna tornaram-se ruidosas seguidoras – e tal fenômeno de conversão, na maioria dos casos, não representa mudança de religião, apenas a adoção de novos princípios de vida. E se existem religiões para todos os gostos, também há opções para quem tem pouca ou nenhuma fé.

É o caso dos movimentos de céticos, agnósticos e ateus. Uma pesquisa recente promovida pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mostrou que o universo de brasileiros que não tem religião pulou de 4,7% em 2000 para 7,8% atualmente. Trocando em miúdos, são mais de 14 milhões de pessoas.

Diversidade – “Tanto aqui, como em todos os outros países ocidentais, as novas religiões têm um campo fértil para se desenvolverem, devido às liberdades de crença”, avalia o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Na sua avaliação, a grande oferta de religiões nos dias de hoje favorece a diversidade. “As pessoas têm uma infinidade de opções de escolha. É como num restaurante – o cliente vai lá para comer e depara-se com diversos pratos e combinações. Da mesma forma é no campo religioso. Cada um escolhe a fé que mais lhe convém.” Para Pierucci, esse aumento na variedade faz crescer a competição entre as religiões, seguindo uma lógica comercial.

Pierucci diz que as igrejas mais tradicionais, como a Católica, não conseguem mais controlar seus fiéis porque eles estão mais informados. “À medida que as pessoas têm mais informação, vão formando a sua própria religiosidade. Muitas mantêm sua religião nominal, mas praticam outros rituais sem nenhum problema”. Por outro lado, observa, há uma tendência de que as pessoas sintam-se cada vez mais autônomas e independentes da religião, ou seja, sem um pertencimento formal. Segundo o Instituto para o Estudo da Religião Americana, a cada ano surgem de 3 a 4 mil novas religiões em todo o mundo. Dessas, de mil a 2 mil não resistem nem um ano. Mesmo assim, estima-se que existam, hoje, algo entre 40 mil e 60 mil religiões, sendo que mais da metade delas são variações do Cristianismo.

Esse número é ainda mais impressionante quando se analisa que no mundo todo existem apenas cerca de 20 religiões que podem ser consideradas globais, incluindo nesse grupo o próprio Cristianismo, além do Islamismo, Judaísmo, Budismo e Hinduísmo. Já as novas religiões acabam refletindo a época em que surgiram. Caso típico é a década de 1950, quando as tentativas de se descobrir vida em outros planetas ganhou força e gerou entusiasmo. Como resultado disso, houve um boom de crenças que acreditam que deuses e anjos são extraterrestres. A Cientologia, por exemplo, prega que a raça humana surgiu a partir da encarnação de seres imortais e divinos que vieram para a Terra, os tetãs. Não menos estranha é a seita Revolução Raeliana, que vai na mesma linha. Para eles, a humanidade teria sido criada por ETs que visitaram o planeta 25 mil anos atrás. Fundada pelo jornalista francês Claude Vorilhon, ou Raël, ela estaria, segundo suas próprias estimativas, presente em 90 países, inclusive o Brasil.

Uma característica básica de todos os novos credos é uma espécie de pragmatismo no que se refere ao pertencimento. A tônica é: creia do jeito que quiser, e deixe os outrosa fazerem o mesmo. Adepta da bruxaria, a contadora Tânia Gori, de 35 anos, diz que ela pode ser praticada por adeptos de todas as religiões, sem quaisquer prejuízos. “O queremos é que pessoas de qualquer crença possam ao menos conhecer o nosso trabalho”. Quem procurou e encontrou respostas para seus anseios na nova religiosidade foi José Carlos Marcello, 21 anos. Ele é um exemplo de como a espiritualidade tem estado cada vez mais em alta, mesmo entre a juventude, até pouco tempo considerada arredia à religião. Durante a adolescência, ele era “um católico praticante”. Mas não conseguia se identificar com uma fé com poucos efeitos na vida cotidiana. “O Cristianismo não me parecia atrativo e eu não encontrava estímulo para estudar e pensar. Ao ver tanta miséria e injustiça, não conseguia enxergar a verdade que eles diziam ter”, conta o rapaz.

A saída foi procurar crenças alternativas. “Entrei para o rastafarianismo, ligado à Igreja Ortodoxa Etíope”, lembra. Outra decepção. “Nada daquilo respondia minhas dúvidas.” Até o dia em que conheceu o movimento Hare Krishna, seita que mistura elementos de religiões orientais como o Hinduísmo com princípios de meditação transcendental e mantras. Em pouco tempo, consumiu muita literatura do grupo e mudou seus hábitos e objetivos de vida – tornou-se vegetariano, começou a freqüentar retiros espirituais e tornou-se monge.

“Encontrei a paz, a tranqüilidade, a paciência e compreendi o sentido da vida”, garante. Vendendo livros, revistas e varinhas de incenso nas ruas de São Paulo, com a roupa típica dos seguidores da crença, ele não pretende parar. Quer estudar sânscrito e mergulhar nos chamados conhecimentos védicos. Marcello entusiasma-se com a fé que abraçou: “Cada vez mais gente está aderindo. Acho que chegou o momento do mundo passar por um despertamento espiritual”.

Fusão de elementos – Mesmo entre os novos credos, contudo, dificilmente se encontrará algum que tenha começado exclusivamente do zero. A maioria pega o que gosta da velha religião e muda aquilo com o que não está de acordo. Outro grupo que ganha corpo é composto por aquelas que fundem as mais variadas crenças ou combinam religiosidade institucionalizada com os mais inusitados tipos de fé. “Observamos o surgimento de uma nova espiritualidade, mais alternativa. Quem faz parte desse grupo pode se inspirar nas idéias de Jesus, combinadas com princípios taoístas e até mesmo com a importância espiritual de golfinhos e discos-voadores”, analisa Christopher Partridge, pesquisador da Universidade Chester, no Reino Unido, e editor do Dicionário de religiões contemporâneas no Mundo Ocidental.

Outro estudioso que enfatiza a individualização como característica das crenças modernas é o historiador Leonardo Arantes Marques, pesquisador de religião e autor do livro História das religiões e a dialética do sagrado (Editora Madras). Ele acredita que esses pensamentos filosóficos, como prefere chamar as novas religiões, têm vantagens sobre as crenças institucionalizadas – como por exemplo, a informalidade e a individualidade. “O Cristianismo e outros pensamentos abafaram essa busca individual”, destaca. De fato, o grande “guarda-chuva” que se convencionou chamar de Nova Era parece ser bem amplo. Debaixo dele cabe qualquer coisa, da crença nos duendes a cerimônias xamânicas, da devoção aos anjos a rituais de bruxaria celta, de terapias inspiradas na medicina oriental a técnicas de meditação. “Antes visto como coisas distintas, hoje há fusão desses elementos. Nessa religião pós-moderna, as revelações são dadas individualmente, pois em cada pessoa existiria uma ‘centelha divina’ e os objetos de culto são escolhidos e combinados de acordo com a criatividade e inspiração de cada grupo”, afirma o professor de antropologia da USP José Guilherme Magnani em seu livro O Brasil da Nova Era (Jorge Zahar Editor).

Ao estudar o fenômeno na cidade de São Paulo, ele identificou mais de mil espaços oferecendo produtos e terapias rotulados como místicos, esotéricos ou alternativos. A maior parte deles, com caráter estritamente comercial e localizados em bairros de classe média e média alta da metrópole, o que dá uma boa idéia do tipo de público que procura esses serviços.

É justamente esse sentimento de religiosodade difuso que tem causado tanta preocupação em diversos estudiosos evangélicos. “Há um florescimento das mais variadas formas de espiritualidade, que alteram o comportamento das pessoas e as influenciam tremendamente”, diz Joaquim de Andrade, pastor da Igreja Batista Ágape e pesquisador do Centro Religioso de Estudos e Informações Apologéticas (Creia). “É só abrir a página dos classificados do jornal para ver a grande quantidade de ofertas de consultas por meio do tarô, runas e astrologia. Nas livrarias, as prateleiras dedicadas aos livros esotéricos, místicos e de auto-ajuda são as mais procuradas. Isso sem contar com os programas de televisão dedicados a divulgar terapias alternativas e soluções para se viver com mais qualidade”, frisa.

Para Joaquim, até mesmo os evangélicos têm sido influenciados pela profusão de ensinos religiosos que surgem não se sabe onde e ganham cada vez mais força. “Ultimamente, o movimento da Nova Era tem utilizado um discurso mais sutil do que aquele de dez, 20 anos atrás. Com isso, não se vê mais os crentes falando nada contra ela”, avalia o pastor. Outro dado curioso para o qual Joaquim chama a atenção é o papel de brasileiros, até evangélicos, na divulgação de novas crenças, principalmente no exterior. “O Brasil não é apenas um grande importador de religiões. Tornou-se um dos mais fortes exportadores”, acredita. “Infelizmente, já não existe mais a preocupação em separar a verdade do erro, mesmo entre os crentes em Jesus”, alerta o pastor Paulo Romeiro, da Agência de Informações Religiosas (Agir).

Dirigente da Igreja Cristã da Trindade e uma das referências quando o assunto é apologética, Romeiro afirma que os ensinamentos mais variados estão entrando nas igrejas por causa do conhecimento bíblico superficial dos crentes. “Enfatizamos muito o louvor e pouco o estudo da Palavra. Assim, nos tornamos presas fáceis. O único enfrentamento que damos é proibir os membros da igreja de manter diálogo ou o de serem agressivos com os membros de outras religiões”, comenta, preocupado.
A fusão de elementos de religiões distintas em denominações cristãs é algo comum atualmente. Um exemplo citado por Romeiro é o da Igreja da Unificação, comandada pelo sul-coreano Sun Myung Moon, que funde o Cristianismo com religiões orientais. Porém, não é preciso ir tão longe para se identificar o surgimento das mais estranhas religiões a partir de igrejas antes cristãs. No Brasil, tornou-se comum encontrar cultos com os costumes mais estranhos e inusitados. Em São Paulo, por exemplo, funciona um dos mais espantosos frutos desse sincretismo. Fundada nos anos 1960 como uma ativa denominação pentecostal, a Igreja Apostólica ingressou por um caminho que mistura espiritismo com tradições católicas e evangélicas. A igreja acredita – e prega – que uma profetisa chamada Rosa, já falecida, seria o divino consolador prometido por Cristo. O primaz da igreja, Aldo Bertoni, diz até que consegue se comunicar com a Santa Vó Rosa, com uma convicção que faria inveja até a Allan Kardec, fundador do Espiritismo. Seria ela que lhe daria orientações sobre a direção do movimento e até detalhes, como a escolha de quem deve ser excluído ou disciplinado. Loucura? Não para as mais de 25 mil pessoas que são ativas nos 300 templos que a igreja mantém em todo país.

Sincretismo – Quem também reclama desse sincretismo do século 21 é Daniel Woods. Rabino messiânico, ele toma conta da sinagoga cristã Bet Sar Shalom (expressão hebraica que significa “Casa do Princípe da Paz”), em São Paulo. Com um trabalho focado no evangelismo de judeus, ele diz que seu testemunho tem sido duramente prejudicado por algumas igrejas evangélicas que se apropriam de festas judaicas extraídas do Antigo Testamento, praticando-as completamente fora de seu contexto bíblico e cultural. “Fico triste quando vejo um símbolo de Israel, como a estrela de Davi, sendo tratado como um distintivo espiritual de certas igrejas, ou quando festas como a das Primícias se transformam em cultos de prosperidade. Até o shofar é tocado para expulsar demônios”, conta ele, um crítico ferrenho de práticas místicas do judaísmo como a Cabala. “Ainda que possamos identificar algum elemento verdadeiro nas combinações de letras das Escrituras, é um perigo substituir as verdades reveladas por Deus por conhecimentos secretos. Quem foi por esse caminho, hoje crê na reencaranação e até no espiritismo”.

Um exemplo acabado do que pode acontecer quando se mistura fé evangélica e princípios esotéricos é a Igreja do Senhor Jesus Cristo em Amor e Graça. Comandada por Renato Suhett, que foi um dos primeiros bispos-cantores da Igreja Universal do Reino de Deus até tornar-se dissidente, em 1995, ela mistura a pregação neopentecostal com diversos conceitos místicos, ostentando um complexo sistema doutrinário que inclui a crença na reencarnação, nos mestres ascencionados e nas tais “sete chamas” – atualmente, o mundo viveria a época da chama violeta e os homens estariam sendo ajudados por Saint Germain. Entendeu alguma coisa? Pois ainda há muito mais. Segundo a pregação da denominação, o diabo seria fruto da imaginação humana ou mesmo da má-interpretação das Escrituras. Na verdade, a grande luta, incluindo aí o sacrifício de Cristo, seria para transformar o homem em um ser melhor até que esse atingisse um estado perfeito, dispensando as reencarnações. Tudo a ver com o nirvana dos budistas.

“Busquei iluminação e encontrei a verdade”, apregoa Suhett, “como os essênios, que ensinaram Jesus, juntamente com os mestres egípcios e indianos”. A salada espiritual é completa quando se sabe que o próprio bispo Renato Suhett é membro da Sociedade Teosófica, da Grande Fraternidade Branca e da Fraternidade Rosa Cruz, todas místicas, e que considera as demais denominações evangélicas como componentes de um mentiroso e corrompido sistema religioso que formaria o Império do Anticristo. Quando questionado sobre contradições entre seus ensinos e os preceitos bíblicos, Suhett tem a resposta preparada: “E quem disse que a Bíblia é a Palavra de Deus? Ela apenas contém partes da Palavra de Deus”. O século 21, realmente, promete ser um caldo de culturas e religiões. Salve-se quem quiser!

Fonte: Claiton Cesar e Marcos Stefano - Revista Eclésia

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