segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Número de casais sem filho está crescendo

Em 20 anos, dobrou o porcentual de brasileiros casados sem filhos. No país, eles representam 13,7% dos domicílios; no Paraná, 14,5%.

Aquela emblemática cena de família em que pais e filhos se reúnem em torno da mesa está ficando cada vez mais rara. Nos últimos 20 anos, os lares brasileiros vêm ganhando uma nova feição. As grandes e numerosas famílias estão saindo de cena e dando lugar aos chamados “ninhos vazios”, domicílios onde residem apenas casais sem filhos, e que hoje são 13,7% dos domicílios brasileiros e 14,5% dos paranaenses.

O fenômeno resulta da combinação de mudanças na maternidade (muitos casais esperam mais tempo para ter filhos, ou excluem a gestação de seus planos) e na evolução da educação e da renda, que permitem a muitos jovens sairem de casa para estudar e trabalhar.

Os números do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a quantidade de casais sem filhos vem crescendo em um ritmo maior do que a formação de novos lares. Entre 1991 e 2010, o porcentual de casais que passaram a viver sem filhos aumentou 92,4% em todo o Brasil, enquanto o total de domicílios foi incrementado em pouco mais da metade desse porcentual, 52,8%. No Paraná o crescimento foi menor, mas nem por isso menos representativo. O estado ganhou mais de 200 mil casais sem filhos, um incremento de 82,6%.

Modelo familiar

Demógrafo e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves observa que, por terem menos filhos e uma expectativa de vida maior, os pais de hoje se veem morando sozinhos mais cedo. O que chama mais a atenção, contudo, é a quantidade de casais que optam por não ter filhos. “Antes o homem trabalhava e a mulher ficava em casa. Hoje há um novo modelo familiar, em que os dois estão no mercado de trabalho. Muitos preferem priorizar a carreira, viajar e acabam não tendo filhos.”

Esse novo modelo passa por uma revisão nos valores da família, conforme aponta a psicanalista Rosa Maria Mariotto, professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “O lugar da mulher se modificou muito. Hoje ela não se realiza apenas com o sonho de ser mãe, mas pela via do trabalho e da carreira profissional. Esse novo lugar faz com que a maternidade seja adiada ou até mesmo excluída da vida conjugal.”

Tendência é de envelhecimento da população

Com o aumento no número de casais sem filhos, o Brasil caminha para o envelhecimento de sua população ao longo dos anos. Essa tendência já havia sido observada entre 1991 e 2010, quando as pessoas com 65 anos ou mais passaram de 4,8% para 7,4% da população total. Com os casais tendo menos filhos, esse processo tende a se acentuar ainda mais.

A avaliação é do pesquisador do IBGE José Eustáquio Diniz Alves, que atenta para a queda na taxa de fecundidade verificada no país. “Se há uma queda na fecundidade, reduz-se a base da pirâmide. Com isso, alarga-se o topo, que é onde está a população mais velha”, explica. O município de Santa Lúcia, que tem o maior porcentual de casais sem filhos no Paraná, é um exemplo dessa tendência.

Entre 2000 e 2010, a cidade viu reduzir em 17% a faixa de habitantes abaixo dos 34 anos, ao mesmo tempo que cresceu em 27,5% a dos que têm mais de 55 anos. O índice de idosos também está acima da média estadual. Para cada 100 habitantes com menos de 15 anos, existem na cidade 47 acima dos 65 anos.

Casais com crianças perdem espaço

Apesar de o Brasil ter ganho 9 milhões de domicílios entre 2000 e 2010, a quantidade de casais com filhos sofreu redução de 1,6%, de 23,9 milhões para 23,5 milhões. No Paraná essa diminuição foi de 3,2%. Eram 1,48 milhão e hoje são 1,43 milhão.

Para a psicanalista Rosa Ma­­riotto, a preocupação dos novos casais não se limita apenas ao aspecto financeiro, mas também ao processo de criação. “Ao mesmo tempo que há um ganho, também existe um investimento grande para se ter um filho. É preciso renunciar a muitas coisas. E as pessoas estão vivendo o hoje, para elas o importante é aproveitar ao máximo o aqui e o agora.”

Em Santa Lúcia, a empresária Michelle Aparecido Pretto é casada há quatro anos com Almir Riffatti. Ter um filho segue nos planos do casal, mas para isso será preciso superar alguns empecilhos à maternidade. “Meu marido viaja muito a trabalho e passa a semana longe de casa. Estamos esperando que ele consiga passar mais tempo comigo, para acompanhar a gravidez e poder ficar perto do filho depois.”

Fonte: Jornal Gazeta do Povo (O projeto Retratos Paraná, iniciado em 26 de setembro, traz reportagens sobre aspectos sociais e econômicos de diversas cidades do estado. Confira todo o conteúdo e um banco de dados on-line em www.gazetadopovo.com.br/retratosparana)

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