domingo, 12 de fevereiro de 2012

No mundo todo, nunca se viu tanta gente optar por viver sem companhia



“Seres humanos são animais sociais”, cunhou o imperador romano Marco Aurélio no século dois depois de Cristo. De fato, tudo leva a crer que somos mesmo feitos para a vida em grupo. Nossos ancestrais aprenderam desde cedo a buscar nos outros proteção contra predadores, ajuda na hora da caça e parceiros para se reproduzir.

Das cavernas aos kibutz, em família, em grupos, em bandos, as sociedades humanas se organizaram em torno da ideia de que a vida faz sentido se vivemos juntos. Mas será que isso continua válido hoje?

“Nenhuma sociedade na história da humanidade teve uma porcentagem tão grande de pessoas vivendo sozinhas”, explica o sociólogo norte-americano Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York.

Nos Estados Unidos, esse movimento pôde ser percebido já na década de 1950. Desde então, o número de pessoas que moram sozinhas vem crescendo exponencialmente. Em 1950eram 4 milhões, o equivalente a 9% da população adulta. Em 2012 são 31 milhões, o que eleva a porcentagem a 28%.

Longe de se restringir aos EUA, o fenômeno parece ter escala planetária. No Japão, 30% das moradias abrigam pessoas vivendo sem companhia Na Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, o número chega a 45%.

O Brasil não fica de fora. Por aqui, o número de pessoas que optam pela vida solo triplicou nos últimos 20 anos, passando de 2,4 milhões para 6,9 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Entender as razões desse fenômeno e o impacto que ele provoca nas várias áreas da nossa vida, é o objetivo de Eric Klinenberg no livro “Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone” (algo como “Sem companhia: o avanço extraordinário e o surpreendente fascínio de viver sozinho”, em tradução livre), lançado em janeiro deste ano.

De acordo com o sociólogo, a primeira conclusão é que esse movimento nunca seria possível sem desenvolvimento econômico.

“Viver sozinho custa caro. Esse é um dos motivos que explica porque os países que têm apresentado aumento mais significativo no número de pessoas vivendo sozinhas são China, Índia e Brasil”, diz o sociólogo.

Outros fatores como o culto do individualismo, a emancipação e a independência financeira das mulheres, o crescimento das cidades, o ‘boom’ da indústria de entretenimento, a sofisticação e a democratização dos meios de comunicação, também não podem ser ignorados.

“Viver sozinho acaba sendo visto como uma forma de usufruir de um leque imenso e sempre renovável de oportunidades criadas pela vida moderna”, diz o sociólogo no seu livro.

A artista plástica Carolina Paz, 36, mora sozinha há quase 18 anos. Para ela, além de poder trabalhar de casa sem dispersões, conta a favor o sentimento de liberdade que a experiência propicia. “Acho incrível (morar sozinha)! Uma das minhas prioridades na vida é ser uma pessoa autônoma”, relata.

Entre os mais de 300 entrevistados pelo sociólogo norte-americano para compor o livro, o argumento em prol da soberania no próprio lar foi um dos mais recorrentes. Ao lado da garantia de liberdade, alinhavaram-se a flexibilidade e a possibilidade de viver as próprias escolhas.

“Viver sozinho permite que você tenha seus próprios horários e isso propicia uma sensação enorme de liberdade”, diz, Klinenberg antes de acrescentar: “você pode acordar quando quer, dormir quando quer... Esse tipo de liberdade pode proporcionar muito prazer quando se vive em uma cidade grande e vivemos guiados por horários e compromissos”.

Vida social é tudo

Para os que acham que morar sozinho é sinônimo de solidão, Klinenberg deixa claro que essa opção por viver sozinho não inclui, necessariamente, o isolamento, muito pelo contrário.

“Uma das descobertas da pesquisa foi que a maior parte dos norte-americanos que vivem sozinhos passa mais tempo com amigos e vizinhos do que pessoas casadas, por exemplo”, garante. “Pessoas que dividem a casa com outras tendem a viver em círculos mais restritos, passam muito tempo com a própria família. Não saem tanto”.

A possibilidade de manter uma vida social ativa é um aspecto primordial dessa experiência de viver só e, nesse sentido, hoje é bem difícil alguém ficar realmente sozinho numa cidade grande, com acesso a internet, banda larga, wifi, Skype, e todo tipo de facilidades para se comunicar instantaneamente com qualquer um em qualquer lugar do planeta, amigos ou desconhecidos.

“A tecnologia nos permite ficar sozinhos em casa e socializar ao mesmo tempo, mantendo-nos conectados de diferentes formas, via Skype, programas de mensagem instantânea, e-mail...”, diz Klinenberg.

Carolina parece concordar. “Sou extremamente sociável. Eu não vivo bem sozinha, preciso muito estar cercada de pessoas”, confessa. Por isso, a rotina da artista plástica é sempre agitada: ela frequenta exposições, trabalha em um ateliê junto com outros artistas e coordena um grupo de estudos em artes visuais.

Nem todo mundo, no entanto, consegue lidar bem com a questão do isolamento no dia a dia. Denise Diniz, psicóloga coordenadora do setor de Gerenciamento de Stress e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo, não só concorda que manter uma vida social ativa é essencial para o bem-estar e não pode ser negligenciada, sobretudo por aqueles que vivem sós, como recomenda um cuidado adicional:

“Você pode ser proativo em relação ao seu estilo de vida. Se perceber que está ficando deprimido deve ampliar suas redes sociais ou buscar um parceiro afetivo. Morando sozinho ou acompanhado, o homem é um ser social”, diz a psicóloga.

“O mundo não vem a você enquanto você espera sentado em seu apartamento”, corrobora Klinenberg.

E nessa hora, as mulheres aparentemente levam alguma vantagem em relação aos homens. O sociólogo percebeu durante a pesquisa que as mulheres tendem a viver melhor por conta própria do que os homens, justamente por serem seres mais sociáveis.

“Homens têm maior probabilidade de se afastar de amigos e família. Muitos, sobretudo os mais velhos, estão em relacionamentos nos quais as mulheres assumem a maior parte da vida social do casal”, constata.

Tem que ter autoestima

Para Denise, no entanto, é importante que a pessoa olhe para si mesmo antes de tomar a decisão de abandonar os colegas de quarto. “Só você pode determinar se naquele momento está precisando morar sozinho ou viver sob o mesmo teto que outra pessoa”, diz.

Para que dê certo, autoestima é fundamental. “More sozinho ou more com alguém, você tem que se relacionar muito bem com você mesmo”, explica.

Se não estivesse bem consigo mesma, Carolina não conseguiria usufruir da liberdade, “desfrutar da própria companhia”, como diz, e curtir bons momentos em seu universo particular. “Às vezes preciso de 24 horas só minhas. Pego um sábado ou um domingo para ficar trancada em casa fazendo uma maratona de alguma série de TV e comendo brigadeiro de panela”, conta.

Fonte: Rafael Bergamaschi, iG São Paulo | 10/02/2012.

2 comentários:

  1. Olá meu amigo, eu sou um desse milhões que moram sozinho e vou te confessar, não tem nada melhor viu kkkkkkk. Abraços!!! Ahhhh,e, detalhe, não sou anti-social, vc sabe, e, nem solitário.

    ResponderExcluir
  2. Caro Pastor Eliel Gaby.

    Parabéns pelos textos. É muito bom encontrar conteúdo inteligente na Blogosfera Cristã.

    Entendo que nenhum cristão deve abaixar a cabeça e resignado aceitar os males desse mundo. Pois, conhece a comparação que Jesus fez sobre aquele que quer segui-lo. Sal e luz. Dois elementos agentes.

    O cristão recebeu como missão o comportamento que opta por amar. O amor se consiste em ações positivas. Experimentamos o bem da presença do Senhor em nossas vidas. Uma das formas de amar é fazer com que outras pessoas também conheçam o bem que conhecemos.

    É muito importante transmitir o bem que é a presença do Criador na vida humana. O cristão é chamado para a sua geração com o objetivo de mostrar o sabor do Pão do Céu e a luz da Palavra de Deus a todos da sua época.

    Ao ler o artigo, veio em minha mente os seguintes textos bíblicos:

    Gênesis 2.18: “Não é bom que o homem viva só...”.

    Eclesiastes 4.8-10: “Há um que é só, e não tem ninguém, nem tampouco filho nem irmão; e contudo não cessa do seu trabalho, e também seus olhos não se satisfazem com riqueza; nem diz: Para quem trabalho eu, privando a minha alma do bem? Também isto é vaidade e enfadonha ocupação. Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante”.

    Provérbios 18.1: “Aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se contra a verdadeira sabedoria”.

    2 Timóteo 3.3: “...sem afeição natural...”.

    Nem todos que estão sozinhos vivem assim por opção pessoal, alguns casos têm a ver com opção dos outros. É difícil declarar-se um ser rejeitado e comentar sobre os motivos da rejeição.

    Creio que a motivação das pessoas que preferem isolar-se seja algum trauma. Eles buscam na solidão a paz e a liberdade, que em minha opinião é apenas aparente em quase todos os casos.

    Dormir quando quer e acordar quando quer, é uma condição que também pode ocorrer acompanhado. Basta haver respeito no lar. Conquistei isso, moro em família, não tenho o relógio me pressionando, não tenho sono interrompido pelas pessoas que convivem comigo e nem interrompo o sono alheio.

    Realmente, nestes tempos modernos é possível socializar-se virtualmente. Mas tais relacionamentos não substituem a vida presencial.

    O Orkut, o Facebook, o Skype, não são as mesmas coisas que o olhar nos olhos, sentir a latência do perfume, ter os contatos de abraço e do aperto de mãos dentro da rotina debaixo de um teto em comum.

    Passo seguir o seu blog via Google Friend Connect.

    Deus abençoe você.

    E.A.G., do blog Belverede.

    ResponderExcluir