sexta-feira, 27 de abril de 2012

A Bíblia na recuperação de dependentes químicos


Cada vez mais, a leitura e o estudo do Livro Sagrado têm sido reconhecidos como práticas eficazes no tratamento do dependente químico. A Palavra de Deus, cada vez mais, têm sido utilizada e reconhecida como ferramenta fundamental no tratamento da dependência. “A grande preocupação daqueles que atendem a dependentes químicos é devolver a essas pessoas a autoestima, semeando a esperança da recuperação. No dia a dia das comunidades terapêuticas, a mensagem bíblica tem se mostrado uma importante aliada nesta tarefa tão desafiadora”, destaca o secretário de Comunicação e Ação Social da SBB, Erní Seibert, observando que a fé sadia, associada à boa aplicação dos princípios bíblicos, promove a recuperação do indivíduo.

Quem faz eco a essa afirmação é Everton Jesus Facundo (foto de abertura), que aplicou em sua vida essa teoria de forma bem-sucedida. “A recuperação e libertação do vício só vêm através da Palavra de Deus”, sentencia. A os 20 anos, o jovem recebeu apoio e orientação da Associação Grupo de Apoio a Dependentes de Drogas e Familiares (Agadef), que utiliza a Bíblia Sagrada na recuperação de dependentes químicos. No caso de Facundo, além de terapêutica, a leitura e estudo bíblicos fizeram desabrochar um potencial que antes estava represado: o da pregação. “Agora, auxilio nos cultos e louvores e sou muito feliz”, testemunha.

Ele não é o único a experimentar os resultados positivos dessa prática. “Ganhei a Bíblia na rua, há seis anos, quando estava bêbado”, recorda Edmilson dos Santos. “Ao ler a mensagem de D eus me fortaleci para nunca mais beber. Hoje, aos 39 anos, Santos é conhecido como Pastor Edy e é coordenador do projeto Restituição, em Barueri (SP), que atende a 15 pessoas. “Atualmente uso a Bíblia como instrumento fundamental na recuperação de muita gente”, ressalta.

Experiência semelhante teve José Carlos da Silva. Ex-usuário de drogas, há cinco anos dirige a comunidade terapêutica Missão Jesus e Luz, de Ubatuba (SP). “Para se libertar do vício é preciso lutar muito. Por meio da Palavra, o dependente se inclui novamente na sociedade. Eu não tinha mais jeito, mas como para Deus nada é impossível, hoje sou um homem livre”, comemora agradecido.

De família de classe média alta, André Luís Forster Geromel relata sua experiência com a força de quem quer que ela sirva de exemplo àqueles que acham não ter mais saída. “A vida me deu todas as oportunidades. Mas mesmo assim entrei no mundo das drogas. Tentei de tudo para sair dessa. Eu estava na sarjeta, quando, em 2004, um pastor me ofereceu ajuda e encaminhamento ao centro terapêutico”, relembra. Durante o ano e meio que passou na comunidade, a Bíblia Sagrada foi sua fiel companheira. “Todo o vazio que sentia foi preenchido”, garante ele que, aos 48 anos, está trabalhando para resgatar os laços com seus familiares.

É alimentada por essa esperança que Márcia de Cássia Baptista vem conseguindo enfrentar seu dia a dia. Mãe de um jovem de 26 anos, viciado em crack, ela frequenta o grupo de apoio da Igreja do Evangelho Quadrangular, na capital paulista. “A doença do meu filho me deixou codependente. Tem hora que só Deus para ajudar. Se não fossem os aconselhamentos espirituais eu já teria enlouquecido”, revela. Seu filho, que já foi internado em clínicas, frequenta por vezes o grupo e vem demonstrando evolução na libertação do vício. “Quando ele fica agitado, para confortá-lo, a gente ora e lê a Bíblia juntos”, ensina.

E ela está certa. De acordo com o secretário de Comunicação e Ação Social da SBB, Erní Seibert o uso adequado da Bíblia na recuperação se dá por sua leitura regular, de preferência com alguém ou em grupo. “Um ajuda o outro”, recomenda Seibert que é doutor em Ciências da Religião e trabalhou por muitos anos na área de aconselhamento.

Princípios cristãos

Seibert pondera que a fé na recuperação faz parte da essência do cristianismo. “Todas as pessoas têm dificuldades, todas merecem uma oportunidade e podem ser recuperadas”, esclarece. No entanto, ele alerta para a necessidade de se fazer um uso saudável e apropriado do texto bíblico. “Não se pode usá-lo de forma autoritária, apenas como lei. O texto bíblico é orientador, disciplinador e repleto de valores que promovem a liberdade espiritual do indivíduo”, enumera.

Compartilhando do mesmo pensamento, Marcelo Dias, coordenador terapêutico do Centro de Recuperação Leão de Judá, em Palmeiras das Missões (RS), revela que para muitos especialistas o vício é uma doença degenerativa, crônica e incurável: “Quando Jesus veio ao mundo e ministrou diversos milagres, mostrou que a vida é curável por inteiro. Eu mesmo sou um recuperado que, agora, multiplica os valores bíblicos”.

“A Bíblia é o nosso principal instrumento. É dela que vêm as palavras de cura e libertação nas quais cremos”, diz Clodoaldo Rocha, coordenador do Aconselhamento em Dependência Química da Igreja do Evangelho Quadrangular, na cidade de São Paulo.

Localizada em Ananindeua (PA), a comunidade terapêutica Sítio Boa Morada tem um índice de recuperação de 90%. Com 10 anos de atuação, a entidade atende a 20 dependentes, que participam de três sessões diárias de leitura bíblica. “A Bíblia transforma as pessoas. Sem ela, não há recuperação”, avalia Sinval Barroso Negreiros, coordenador da instituição.

Também adepta do uso da Bíblia como ferramenta primordial na recuperação, Maria Lúcia Souza Pinto, diretora do Centro de Recuperação Salomão, em Brasília (DF) e ex-dependente química, ressalta que a experiência com a Bíblia é maravilhosa e fortalece o trabalho espiritual. “Todos aqui leem a Palavra de Deus e a colocam em prática”, conta.

Estatísticas crescentes

De acordo com o último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 25 de agosto de 2009, o Brasil apresentou, em 2006, aumento no consumo de cocaína e maconha. Mas essa não é uma prerrogativa brasileira. N o mundo, de acordo com o mesmo relatório, há cerca de 200 milhões de usuários de drogas ilícitas, dos quais mais da metade consomem uma vez por mês e 25 milhões são dependentes químicos.

Atenta a essa questão, a SBB mantém o projeto Despertar, integrante do programa Ação Social pela Paz. Seu objetivo é contribuir para a recuperação do dependente químico e prevenir o uso de drogas. O projeto é desenvolvido em parceria com organizações especializadas no tratamento terapêutico desse público. Em conjunto com essas organizações, a SBB criou a COMTER (Comunidades Terapêuticas em Rede), a fim de estimular a troca de experiência e utilização da Bíblia Sagrada no processo de recuperação.

Em 2008, por meio do projeto, a SBB atendeu a 45 comunidades terapêuticas com material bíblico. A principal ferramenta oferecida pela organização é a Bíblia de Estudo Despertar. Apenas no ano de 2008, mais de seis mil exemplares da publicação foram doados a instituições que atuam nessa área.

Além da distribuição de literatura bíblica adequada a esse público, o projeto caracteriza-se pela promoção de eventos que colocam em discussão o tema e buscam encontrar saídas para minimizar o problema no País. Entre eles, destaca-se o Seminário de Dependência Química. Sua segunda edição foi realizada em 25 de junho, no Museu da Bíblia, em Barueri (SP), por ocasião do Dia Mundial de Combate às Drogas. Sob o tema “A Fé: um ato de coragem na recuperação”, reuniu mais de 400 pessoas e colocou o foco em uma velha conhecida de todos que trabalham nessa área: a questão da prevenção.

Um dos palestrantes convidados, Luiz Carlos Magno acredita que a questão da droga deve ser vista de forma multifatorial. “Deve-se levar em conta o ambiente do usuário e a dinâmica social em que ele vive”, ressaltou Magno, que é professor de Medicina Legal. Ex-delegado do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), Magno fala com a propriedade de quem tem conhecimento acumulado por quase 20 anos à frente da instituição. “Hoje a visão policial é bastante coerente com a escola de atendimento. Ou seja, vemos o dependente como um paciente, alguém que precisa de ajuda”, disse. Para ele, é muito importante desenvolver um forte trabalho no âmbito da prevenção. “A família e a escola também devem atuar de forma preventiva”, disse o professor, ressaltando que é a partir dos 12 anos de idade que, em geral, o jovem faz sua primeira incursão no mundo das drogas.

Partidário da mesma opinião o deputado estadual Waldir Agnello acredita que além de combater o uso de drogas, é preciso tratar o dependente. “O combate às drogas está diretamente ligado a políticas públicas em todas as esferas de governo”, recomendou o político que também é membro da Diretoria da SBB.

“O seminário promovido pela SBB foi muito importante, pois reuniu pessoas com o mesmo propósito: usar a Bíblia em benefício da recuperação e também para estreitar laços e promover a troca de experiências entre as comunidades terapêuticas”, observou o Pastor Rui Nevel do Nascimento, diretor da organização Desafio Jovem Sopro Divino, de Americana (SP). “Não vemos outra saída que não seja pelas mãos de Deus. Muitos dos que se recuperam aqui se tornam pastores”, observou Nascimento revelando que ele mesmo é um exemplo desse trabalho.

Fonte: Revista A Bíblia no Brasil - Número 225 - Outubro a Dezembro de 2009 - Ano 61 - Sociedade Bíblica do Brasil.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Até onde vai o perdão a líderes religiosos corruptos e que corrompem seus fiéis?



Reinhold Nielbuht, em seu livro Uma interpretação da ética cristã, fornece uma definição magistral sobre o perdão: “Amor que perdoa é uma possibilidade apenas para aqueles que sabem que não são bons, que se percebem necessitados da misericórdia divina, que vivem numa dimensão mais profunda e mais elevada do que aquela do idealismo moral; como seus semelhantes, são também convencidos do pecado por um Deus santo e sabem que as diferenças entre o bom e o mau homem são insignificantes a seus olhos”. Dá vontade de acreditar em cada uma dessas palavras. Contudo, o mais comum é desejar que certos tipos de pecadores – como pastores corruptos que violam flagrantemente seu chamado e nunca se arrependem – sejam relegados ao oitavo e nono círculo do Inferno de Dante.

Uma variada coleção de autores consagrados já escreveram sobre o assunto. Caso de Desmond Tutu, em Nenhum futuro sem perdão; de Dietrich Bonhoeffer, em Ética; ou L.Gregory Jones, em Encarnando o perdão. Todos eles oferecem uma ajuda honesta àqueles que possuem um coração com tendência a não perdoar, sobretudo, traições espirituais. Esses escritores lidam com o chamado para o perdão em face do mal real. Eles entendem que psicologia pop e teologia barata não dão conta disso. Mas as sociedades assassinas debaixo das quais a maioria deles sofreu – como a Alemanha nazista que levou Bonhoeffer à morte ou África do Sul racista que oprimiu Tutu – encontram seu correspondente cristão em igrejas que, por exemplo, permitem ou ignoram o abuso sexual de crianças e punem aqueles que chamam os abusadores à responsabilidade.

Certamente, não sou a única pessoa a ter uma longa história relacionada ao desvio de conduta por parte do clero. Talvez, eu traga a distinção de ter caminhado com um sobrevivente de abuso sexual e com a sua família na busca por justiça numa famosa megaigreja onde os mesmos foram vilipendiados pelos líderes por causa da sua decisão de processá-los – e por ter enfrentado um tratamento semelhante ao denunciar um suspeito de pedofilia naquela congregação. Dois anos depois de meu marido ter renunciado à posição pastoral nessa igreja, devido à corrupção sistêmica, nosso primeiro filho cometeu suicídio. Eu responsabilizo certos líderes da igreja por uma multiplicidade de pecados, começando com propaganda enganosa e terminando por levar muitos pequeninos – inclusive o meu – a tropeçar.

Não dá para acreditar que a diferença entre os pecados dos que consideramos “homem bons” e “homens maus” são insignificantes aos olhos de Deus. É só ler a parábola do filho pródigo para perceber que o Senhor sabe, sim, a diferença. Quando o obediente irmão mais velho questiona seu pai sobre o porquê de ele nunca haver matado “nem mesmo um cabrito” (Lucas 15.29) em sua honra, ouve como explicação que aquele seu irmão mais novo estava morto, mas havia revivido; estava perdido, mas fora achado. Essa é uma demarcação significante – a que descreve não apenas o amor do pai, mas também o arrependimento do pecador.

Em Mateus 18:1-10, Jesus ensina uma lição familiar que contrasta ambição desenfreada com fé imaculada. E inclui uma lista de consequências terríveis para aqueles que prejudicam o imaculado. “Quem recebe uma destas crianças em meu nome está me recebendo”, ele diz. “Mas, se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar”. Ao mesmo tempo, o Mestre enfatiza a possibilidade do perdão: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: 'Arrependo-me'; perdoa-lhe.” A isso, os discípulos de Jesus compreensivelmente retrucaram: “Aumenta a nossa fé”. Então, o Senhor promete que, se eles tivessem uma fé tão pequena como a minúscula semente de mostarda, ela seria mais do que suficiente.

Absorver a injúria

Aqui reside o problema: arrependimento é tão difícil de ser medido quanto encontrado – e, na sua ausência, nós temos muito pouca capacidade para perdoar. Contudo, tenho visto líderes sendo repreendidos não apenas uma vez, mas muito mais que setenta vezes sete, e nenhum deles arrependeu-se abertamente ou foi reconciliado com as comunidades destruídas pelas suas ações. A jovem mulher que mencionei queria duas coisas: mudança numa igreja que teimosamente resistia a isso e um pedido de desculpas pela punição que ela e a sua família receberam nos anos que se seguiram ao seu abuso. Pois não teve nem uma coisa, nem outra. Ao invés disso, advogados negociaram o preço para uma desculpa e ela simplesmente recebeu uma quantia em dinheiro em troca do seu silêncio.

Como, então, podemos perdoar os líderes cristãos que nos traíram, na ausência de confissão e de visível arrependimento? Em sua obra Livre da carga – Dando e perdoando numa cultura desprovida de graça, Miroslav Volf, teólogo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, diz: “Condenação não é o coração do perdão. É a pressuposição indispensável dele”. Ora, perdão que não leva a sério a ofensa contra a parte injuriada é fraudulento e barato. Perdão autêntico, escreve Volf – com a legitimidade de proceder de uma família que sofreu sob o regime comunista e ter visto seu irmão morrer num acidente que poderia ter sido evitado –, “corta o laço de equivalência entre a ofensa e o modo pelo qual tratamos o ofensor. Eu não exijo que aquele que tirou o meu olho também perca o seu e que aquele que matou meu filho por negligência também seja morto. Na verdade, eu não exijo que ele perca nada. Eu renuncio a toda retribuição. Ao perdoar, absorvo a injúria – da mesma forma que devo absorver, digamos, o impacto financeiro de uma má transação comercial.”

Na visão de Volf, disciplina é consistente com perdão. Então, criminosos devem ir para a cadeia e clérigos que violam o ensino da Igreja (ou a própria lei) devem ser destituídos de suas funções. Nossas leis proíbem, com razão, o assassinato, mas não a raiva – embora Jesus tenha dito que ambos tenham a sua fonte no coração humano. “Perdão”, escreve Volf, “nos põe no limite entre inimizade e amizade, entre exclusão e acolhimento. Ele derruba a parede de hostilidade que as más ações erigem; porém, não nos leva ao território da amizade.” “Frequentemente”, ele continua, “isso é o máximo que podemos reunir de forças para fazer, bem como é tudo que os nossos ofensores nos permitirão realizar”. Ele conclui que, no entanto, o perdão, na sua melhor manifestação, espera mais que isso.

Depois que eu e meu marido deixamos a grande igreja que nos abateu, tornamo-nos membros de uma comunidade Anglicana que estava sendo processada pela Diocese Episcopal de Los Angeles devido a uma disputa por propriedades. Seis meses depois, o reitor que havia conduzido nossa congregação para fora da Igreja Episcopal foi forçado a resignar sob a alegação de conduta inapropriada para com outro membro de sua equipe. Pois tal religioso mudou-se para outro estado e rapidamente assumiu o ministério junto a uma igreja-irmã. Ou seja, o reformador recusou-se a ser reformado. Enquanto isso, o sacerdote assistente, que havia escrito sua tese de mestrado sobre restauração de clérigos caídos, administrou a crise com considerável cuidado. Não havia dúvida de que o reitor se retiraria, ou que aquele atingido pelos seus avanços indesejados seria protegido. Reuniões públicas foram realizadas, onde os congregados puderam expressar sentimentos de traição e fazer perguntas. Foi-nos apresentado um diagrama de possíveis desfechos e fomos desafiados a não nos permitirmos sermos prejudicados pela falha do sacerdote.

Como essa nova comunidade de fé conduziu a crise com integridade, percebi minha restauração espiritual concernente às questões trazidas da igreja anterior. Meu marido e eu fomos então chamados para escrever uma carta aos nossos bispos descrevendo o nosso testemunho acerca das consequências de se ter um clero com má conduta que não é cobrado habitualmente. Líderes da igreja – que já têm pago um alto preço por seguirem suas consciências – ouviram-nos e nos deram apoio. Não somente isso: todo domingo, nós confessamos nossos pecados corporativamente e pedimos ao Senhor que nos perdoe, assim como perdoamos aqueles que nos ofenderam.

Por dois anos, muitas das minhas orações de confissão estavam relacionadas às ações que tomei em relação à igreja anterior. Não importa quão justa seja uma causa: quando alguém escolhe agir contra amigos e líderes espirituais – mesmo em comunidades onde o mandamento de Jesus sobre o perdão é usado para manipular e onde acusações de estarmos sendo vingativos são lançadas na direção de quem confronta aquele que fez o errado –, essa pessoa luta com a culpa. No entanto, semana após semana, eu tinha ali a certeza de que, através do corpo e do sangue de Cristo, todos nós fomos perdoados.

“Resistir à graça”

No período em que esteve envolvido na conspiração para assassinar Adolf Hitler Bonhoeffer escreveu: “Se é uma ação responsável; se é uma ação que diz respeito somente e inteiramente a outro homem; se isso vem de um amor altruísta pela pessoa real que é o seu irmão, então, precisamente por causa disso, não se pode querer evitar a comunhão da culpa humana.” A isso, ele acrescenta que “diante de outro homem, o homem de livre responsabilidade é justificado pela necessidade; diante de si mesmo, ele é absolvido pela sua consciência; mas, diante de Deus, espera somente por misericórdia”. A justiça das ações de Bonhoeffer ainda é debatida por teólogos e por descendentes de vítimas do Holocausto perpetrado pelo nazismo.

Assim são as ações de sobreviventes de abusos sexuais que processam suas igrejas por negligência. Em minha mente, não há dúvida acerca da justiça das duas causas em face do silêncio cúmplice do povo de Deus. No entanto, eu não posso falar sério em desejar o inferno para os líderes espirituais corruptos enquanto procuro me apegar à fé na misericórdia de Deus por meu filho e por mim mesma. O suicida lança sobre os que ficaram no seu rastro questões sem resposta e uma nuvem de culpa por pecados reais e imaginados. Assim, foi fechada em minha mente a distância entre mim e todos os clérigos que eu poderia tão facilmente condenar. Assim, cedo terreno em minha resistência à graça barata porque o meu coração não perdoador está quebrado e porque o pecador com o qual estou mais preocupada é o meu filho.

Quem sou eu para dizer que não vou perdoar, quando sei que somente Deus poderia condenar ou absolver ações humanas? Certamente, nenhum de nós é melhor do que os apóstolos que certamente entenderam o desafio que estava posto diante deles. E, como eles, diante de uma realidade espiritual inexorável, resta-nos suplicar: “Senhor, aumenta-nos a fé”.

Felizmente, há homens e mulheres que são capacitados para guiar discípulos empedernidos como cada um de nós. Em seu magnificente Encarnando o perdão, Gregory Jones, ex-reitor da Escola Duke de Divindade, oferece uma definição de perdão que é adequada para um mundo cheio de ambiguidades:

“Perdão não é tanto uma palavra dita, uma ação feita ou um sentimento. Ele é um modo encarnado de vida numa sempre profunda amizade com o Deus triúno e com os outros. Dessa forma, a responsabilidade de um cristão por perdoar não deve ser simplesmente, ou mesmo primeiramente, focada na absolvição da culpa; ao invés disso, deve estar focada na reconciliação do que foi partido, na restauração da comunhão – com Deus, um com o outro e com toda a Criação. De fato, por causa da onipresença do pecado e do mal, o perdão cristão deve ser, ao mesmo tempo, uma questão de compromisso com um estilo de vida; uma vida cruciforme de santidade, na qual nós procuramos ‘desaprender’ o pecado e aprender os caminhos de Deus, bem como os meios de buscar reconciliação em meio aos pecados particulares, instâncias específicas de quebrantamento.”

Cada um de nós vive em meio a pecados particulares e instâncias específicas de quebrantamento. E cada um de nós deve escolher como irá responder. Viver uma vida de santidade e aprender os caminhos de Deus algumas vezes vai significar deixar de lado nossa necessidade por justiça e, ao invés disso, acolher um mundo que geme em antecipação pelo dia quando ele, e nós, seremos redimidos. Isso significa aceitar com humildade que somente Deus é bom.


Fonte: Christine A. Scheller é escritora e editora-colaboradora da revista Christianity Today - Tradução: Daniel Jr - http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=709

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O lado bom do estresse



O processo não é apenas destruidor e desorganizador, ele também motiva e dá entusiamo para tarefas difíceis.

É comum ouvir colegas de trabalho e familiares falando como estão estressados. Para muitos essa resposta à tensão já é comum, mesmo que ela cause problemas de saúde. Só que nem todos sabem é que o estresse é como uma moeda. Não existe apenas o lado negativo, existe também uma fase positiva, capaz de motivar e ajudar a passar por situações difíceis.

“O estresse é todo um processo que eventualmente termina em algo ruim, mas é uma resposta adaptativa à presença de tensão e torna o ser humano mais preparado para a ação”, explica o coordenador do curso de Psicologia e professor de neurociências da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Naim Akel Filho. Quando o cérebro identifica uma situação excepcional, é comandada a liberação de adrenalina que mobiliza todo o organismo para enfrentar a urgência.

Essa resposta pode ser tanto positiva, chamada de “eustresse”, quanto negativa, o “distresse”. A reação fisiológica é semelhante, mas a grande diferença está nos reflexos emocionais. “Ambos deixam a frequência cardíaca mais rápida e provocam sudorese, mas o distresse causa dor e desconforto enquanto o eustresse causa alegria e satisfação”, conta Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR).

O estresse pode ser dividido em três fases. “A primeira é a fase de alerta, que causa essa motivação maior”, diz a psicóloga Carolina Borges, do Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS). Essa primeira resposta à tensão prepara para duas possíveis ações, a fuga e a luta, que são escolhidas de acordo com a situação.

O problema começa de verdade quando a pessoa não age. “Quando você inibe a ação, essa resposta adaptativa, que era saudável, fica destrutiva e desorganizada”, diz Akel Filho. A adrenalina que já havia sido liberada para ajudar na ação tem de ser combatida com outro hormônio, o cortisol. “Quando esse hormônio passa muito tempo na corrente sanguínea, ele causa um efeito lesivo sobre os neurônios.”

É nessa segunda fase, a de resistência, que surgem os primeiros reflexos na saúde. Dores de cabeça tensionais, problemas estomacais e pressão arterial alta são comuns. Um estudo da Universidade Carnegie Mellon, de Pittsburgh, mostrou que o estresse afeta a capacidade do organismo de controlar inflamações, o que aumenta o risco de doenças.

A terceira e última fase é a de exaustão. “A pessoa fica esgotada e não consegue viver em harmonia interna. O enfrentamento fica mais difícil e a pessoa apática”, afirma a psicóloga Daniele Castilhos, da Amil Paraná.

E agora?

Veja algumas dicas de como lidar com o estresse:

- Liste os fatores de estresse da sua vida. Dessa forma, é possível ver quais são facilmente trabalhados e quais merecem maior atenção.

- Aprenda quais são os seus limites. Priorizar e gerenciar o tempo ajuda na hora de completar as tarefas.

- Equilibre seu estilo de vida. O trabalho não pode ser a única parte da sua vida. Guarde tempo para os relacionamentos, para ter um sono repousante, entre outros.

- Pratique atividade física. É uma boa forma de lidar com estresse, pois distrai e contribui no equilíbrio do estilo de vida.

- Tenha seu momento de relaxamento. Aproveite um tempo do dia para meditar e relaxar. Tente praticar a respiração abdominal (inspire o ar pelo nariz, infle o abdôme como um balão e expire) ao longo dia, não somente em situações de estresse.

Fonte: Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) e International Stress Management Association Brasil (ISMA-BR). Publicado no Jornal Gazeta do Povo em 16.04.2012.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Pense em Deus - Lançamento do CD de Moisés Vieira



Neste sábado, dia 14 de abril de 2012, às 20h00, meu amigo Moisés Vieira fará o lançamento do CD "Pense em Deus". Será na Assembléia de Deus em Vila Americana, na cidade de Curitiba, na Rua dos Pioneiros, 788.
Mais informações, acesse: www.cantormoisesvieira.com.br

domingo, 8 de abril de 2012

Uma liderança baseada no serviço - O exemplo de Cristo (Parte 1)



O Evangelho de João é fundamental para se compreender a cristologia de Jesus-servo porque nele estão bem refletidas as ações de Jesus como Servo de Deus. Apesar de ser um escrito do final do primeiro século da era cristã, no qual se revela uma “Teologia do alto”, entretanto, o livro de João privilegia temas especificamente de Jesus como Servo de Deus mediante imagens populares.

As imagens sobre Jesus agindo como Servo de Deus são simbólicas como a do
“Bom Pastor” doando sua vida pelas ovelhas, a do “Lava-pés” mostrando o
serviço igualitário entre os irmãos, a da “Galinha com seus pintainhos”
manifestando o cuidado, a da “Videira com seus ramos”, a do “Partir do pão”
revelando a comunhão e a do “Cordeiro de Deus”, as quais estão, misticamente,
associadas à cruz com a morte, a ressurreição e a entrega do Espírito (Jo 19, 30).

Jesus é o Bom Pastor

Quando se analisa a imagem de Jesus como Bom Pastor (Jo 10, 1-18) fica
notório a proximidade existente da outra imagem de Jesus como Servo de Deus.
Por isso, é importante compreender as ideias de ambas, principalmente em Israel.

Primeiro, é relevante analisar o significado da relação de escravo e o seu
senhor. Aqui se opta por conceitos sinonímicos entre escravo e servo. No tempo
primevo da Aliança em Israel não deveria haver escravos dentre os próprios
israelitas (Lv 25, 35ss), pois eles deveriam se lembrar de quando estiveram
escravos no Egito e foram resgatados pela ação libertadora de Iahweh (Dt 15,
12ss). Entretanto, em tempos posteriores, em Israel se permite escravos, pois se
havia uma lei acerca deles, conclui-se assertivamente pela existência de escravos
(Ex 21, 1-11). Esse surgimento de escravos em Israel tudo indica tê-lo havido no
tempo da monarquia. Dentro das próprias famílias e dos palácios havia escravos.
Era uma pessoa sem posse das principais características da pessoa humana como a
liberdade e a vontade. Quando se chegava ao sétimo ano tinha direito à liberdade,
porém, o seu senhor não podia alforriá-lo sem bens materiais (Dt 15, 13-14).
Em se tratando da relação entre escravo e senhor a lei estabelecia normas claras
para que não houvesse injustiças e se o escravo, mesmo tendo direito à liberdade,
quisesse continuar como escravo porque amava o seu senhor, este deveria recebêlo
(Ex 21, 5s).

Deste modo, a relação entre o escravo e o seu senhor é, de certa forma,
amizade. No decorrer do tempo ganha sentido de espiritualidade, havendo assim
uma transferência de significados entre escravos e senhores terrenos para escravos
e o Senhor Iahweh Deus. Este atributo a Iahweh de Senhor – adonai –
provavelmente foi concebido a partir dessa realidade terrestre e temporal dos
israelitas. Quem serve a Iahweh deve servi-lo como os servos servem ao seu
senhor por que o ama. Um serviço livre, porque quem ama, vive a liberdade como
dom, livre e gratuito, podendo assim amar livremente. Amar é ação salvadora e
eterna, porque quem ama participa da vida do Deus amor eterno (Jr 31, 3).

Muitos profetas se sentem tão arraigados a Iahweh quando fazem a
experiência dessa relação deles com Ele na forma “esponsal” entre amante e
amado (Os 2, 4ss; Ez 16). O livro “Cântico dos Cânticos” pode ser lido neste
contexto de uma experiência mística entre Israel e Iahweh num esponsal de
aliança. Desta forma o escravo quando faz um trabalho não o faz por obrigação,
mas o faz por prazer. Mesmo sendo trabalhos humildes o faz por força do amor
gratuito. Ele se realiza sendo gratuito no serviço do seu Senhor. Por isso, o
escravo ganha características místicas e uma delas é a sua liberdade interior para
amar o seu Senhor (Ex 21, 5).

O povo no Antigo Testamento também era considerado por Deus como
servo. No Novo Testamento, os apóstolos ao escreverem suas epístolas se
consideram servos do Senhor Jesus. Maria depois do diálogo com o anjo diz em
forma de contentamento: “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a
tua palavra” (Lc 1, 38). Num êxtase de louvor ao Senhor, Maria exclama em
oração: “Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta em Deus meu
Salvador, porque ele olhou para humilhação de sua serva” (Lc 1,46-47). Esta
liberdade e gratuidade se espraiam na pessoa de Jesus quando diz: “Eu dou minha
vida pelas minhas ovelhas. [...] O Pai me ama porque eu dou minha vida para
retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. Tenho poder de
entregá-la e poder de retomá-la” (Jo 10, 15b.17-18).

Segundo, a imagem do Bom Pastor e sua relação com o título Servo de
Deus. No Antigo Testamento há muitas referências à imagem do Pastor. Entre os
patriarcas vários eram pastores seminômades. Abraão era pastor (Gn 13, 2),
Moisés depois de sua fuga para Madiã casa-se com uma filha de Jetro, sacerdote e
pastor na região e exerce naquele momento o serviço de pastor (Ex, 3,1) e também
Davi (1Sm 16, 11), Mesa, rei de Moab era pastor (2Rs 3, 4). Muitos profetas
também o eram, entre os quais Amós (Am 1, 1). Eram meios de sobrevivência: o
leite, o queijo, a carne e também a exportação de matéria prima como a lã da
ovelha, o couro e o chifre para fazer seus produtos manufaturados. Várias
profissões, dentre elas a de curtidor de couro, artigos de lã de ovelha, indústria de
couro para fazer sandálias. Havia comércio de gado de vários tipos: ovino,
caprino, bovino, dentre outros.

A partir da relação entre pastor e as ovelhas criaram-se as imagens do Bom
Pastor e do mau pastor em Israel (Ez 34). E os profetas usaram-nas com referência
ao pastoreio de ovelhas e não de outro gado. Nas cercanias de Jerusalém havia a
criação de gado miúdo como ovelhas, cabras e pombas para serem vendidas para
abate nos sacrifícios a Iahweh no Templo, para o consumo das famílias e em
muitas hospedarias em Jerusalém. Existiam os locais onde o gado grande,
importado das regiões ricas, permanecia para engordar e ser vendido depois para
os sacrifícios e consumo. Nos oráculos messiânicos do profeta Jeremias o
próprio Deus está falando dos maus pastores, os quais não cuidam de suas
ovelhas. Iahweh mesmo vai pastorear suas ovelhas (Jr 23, 1-6). Logo após estes
oráculos contra os falsos pastores, o profeta introduz outras denúncias contra os
falsos profetas (Jr 23, 9ss). Também em Ezequiel há críticas denunciatórias contra
os falsos pastores e anúncio messiânico de um pastor, o qual apascentará as
ovelhas de Iahweh (Ez 34).

Com Jesus reaparece o tema das ovelhas e dos pastores tantas vezes
anunciado pelos profetas. Ele recupera o sentido originário e puro do pastor.
Ele afirma ser o Bom Pastor dando a vida pelas suas ovelhas (Jo 10, 11). Jesus
retoma a comparação alegórica de Ezequiel dos maus pastores e do Bom Pastor
enviado por Deus para bem cuidar do rebanho das ovelhas do Pai e este lhe
entregou o rebanho para ele o pastorear. Usa a alegoria profética dirigindo-se aos
fariseus e aos dirigentes religiosos e políticos de Israel, os quais não cuidam do
povo e, ainda mais, vivem explorando-o economicamente. Os dirigentes são
ladrões, assaltantes, bandidos e assassinos117 (Jo 10, 10).

Jesus é o Bom Pastor e, como tal, conhece e cuida das ovelhas entregando
a sua vida gratuita e livremente por elas. Dar a vida por amor aos seus amigos – e
amar e orar e perdoar até pelos inimigos (Mt 5, 43) – constitui-se o gesto máximo
do serviço do Bom Pastor. Jesus faz de sua vida uma história de um cuidado
redentor de Pastor. Além de se refletir sobre o gesto do pastor em entregar a
vida pelas ovelhas, crê-se ser importante ressaltar ainda dois aspectos. Um é o
relacionamento de Jesus com o Pai. “Como o Pai me conhece e eu conheço o Pai”
(Jo 10, 15), assim “eu conheço minhas ovelhas e as minhas ovelhas me
conhecem” (Jo 10, 14); outro é conseqüência do primeiro, o relacionamento de
Jesus com as ovelhas. As do rebanho e as que ainda não estão no rebanho, mas
também são do Pai e de Jesus, elas escutarão a voz de Jesus o Bom Pastor (Jo 10,
16; 10, 3-5). “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: devo conduzilas
também; elas ouvirão minha voz; Então haverá um só rebanho e um só Pastor”
(Jo 10, 16). Esta correlação tripolarizada: Pai/Jesus/ovelha-povo fará
compreender melhor o sentido do título de Jesus-servo na perspectiva da
Cristologia da Libertação de Jon Sobrino, quando correlaciona, por analogia,
Jesus como servo de Deus, os povos crucificados e os profetas martirizados.

Jesus no Lava-pés

Somente o evangelista São João descreve o gesto (ôt, em hebraico) do
lava-pés (Jo 13, 1-17). João não descreve a instituição da eucaristia, ou seja, o
texto contendo a fórmula da oração de bênção da “ceia do Senhor” como contém
as outras tradições paulinas e sinóticas. Apenas afirma, Jesus e os seus discípulos
estarem na ceia (Jo 13, 2). Após o gesto do lava-pés, Jesus entra com o anúncio da
traição de Judas e com o discurso de despedida, no qual, Ele dá o mandamento
novo (Jo 13, 34). Prossegue com um longo ensinamento sobre o Pai e o Espírito
Santo. Finaliza falando de sua “volta” nos fins dos tempos escatológicos (Jo 16,
16) e com uma Oração ao Pai, a chamada oração sacerdotal de Jesus (Jo 17),
destacando a unidade entre Ele e o Pai e, consequentemente, entre os discípulos
pelo Espírito.

O gesto do lava-pés é, indubitavelmente, o serviço do servo (1Sm 25, 40-
42). O evangelista João coloca-o dentro da eucaristia sem narrá-la como o fizeram
os outros evangelistas. Já pela tardança do escrito joanino – década de 90 d.
C. – dá para perceber a teologia bem desenvolvida na Igreja primitiva sobre
Jesus como Servo de Deus. O fato de João descrever o gesto do lava-pés e não o
gesto do partir do pão também leva a compreender a importância da teologia
joanina sobre o Servo. Não se trata de uma negativa da eucaristia na comunidade
evangelizada por João, mas a mensagem anunciada por ele afirmando ser
necessário para haver eucaristia, antes, dever-se lavar os pés uns dos outros. Como
a comunidade do discípulo amado é a do amor aos irmãos e por meio destes amar
a Deus, os dois gestos, do lava-pés (Jo 13) e do partir do pão (Jo 6) se
entrelaçavam demonstrando a mística do serviço e da comunhão. Apresenta-se
como comunidade do amor fraterno como forma de vida.

O gesto do lava-pés mostra alguns aspectos da kênosis de Jesus como
Filho do Pai. Ele é o Verbo eterno feito pessoa humana (Jo 1, 14). Dentro dessa
existência humana sua missão foi o trabalho dos mais humildes como o
simbolizam o gesto do lava-pés. É um aspecto social da kênosis de Jesus por ele
escolher o serviço dos últimos e a partir deste gesto falar do mandamento novo (Jo
13, 34). Todavia, não se exclui neste gesto do lava-pés, a kênosis de Jesus, não é
só uma encenação celebrativa, pois Jesus mostra realmente seu envio da parte do
Pai para servir e não para ser servido e sua realização como Deus encarnado está
em servir, entregando a vida livre e gratuitamente, como se vê na parábola do
Bom Pastor (Jo 10, 14-18).

O gesto do lava-pés é profético e tem como objetivo mostrar como Deus é,
como age mediante o serviço. Quer denunciar a situação humana, a qual deveria
ser da mesma forma do gesto apresentado e não está sendo por causa dos desvios
do ser humano quanto às suas atitudes desvirtuando o próprio ser criado à imagem
e semelhança divinas. O gesto profético por si mesmo é uma denúncia e um
anúncio. Uma denúncia de forma direta ou indireta, persuasiva e irônica, típica
dos profetas do Antigo Testamento ou de Sócrates (cerca de 470-299 a.C). Esta
tem como objetivo interrogar por palavras e/ou atitudes a um interlocutor,
fazendo-o reconhecer sua própria ignorância ou seu próprio erro. Ela quer
mostrar também novas prospectivas ao interlocutor à medida que ele reconhece
sua situação de ignorância ou erro, possa assumir novas atitudes reparadoras de
seus erros ou sair de seu estado de ignorância.

Nestes aspectos, veem-se alguns casos de gestos dos profetas no Antigo
Testamento, os quais muito bem expressam a ironia socrática e profética. O caso
do pecado de Davi. O profeta Natã conta-lhe uma parábola e o faz reconhecer o
seu pecado (2Sm 12, 1-15). Jeremias é enviado por Deus para fazer o gesto de
quebrar uma bilha de oleiro diante dos dirigentes de Israel para ameaçá-los e para
dizer ao povo que Iahweh fará assim com Israel se não se converterem (Jr 19).
Um gesto para dizer aos dirigentes, assim está o meu povo, aos pedaços. No
escrito joanino, os dois gestos – do partir do pão e do lava-pés - têm o mesmo
significado profético e se complementam. Destacam-se alguns aspectos relevantes
na cena do lava-pés.

A identidade e a missão de Jesus como Servo de Deus. Evidentemente
João não descreve Jesus dizendo “Eu sou o Servo de Deus” como o disse em
tantas outras asserções como: “Eu sou” em todas às vezes quando o texto quer
falar da divindade de Jesus, usa o verbo ser. Entretanto, quando se fala da missão
de Jesus se expressa na forma de serviço do servo: “O Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por muitos” (Mt 20,
28). Em se tratando do fazer de Jesus e não diretamente do seu ser, é necessário
unir esses dois verbos. O ser dá a idéia de sua identidade e o fazer expressa a sua
missão. Contudo, não se pode fazer um hiato entre o ser de Jesus e o fazer.
Usando a imagem, são duas faces da mesma moeda girando dinamicamente, Jesus
se revela na sua missão com os gestos de amor.

Pelas suas ações, Jesus revela a sua identidade. O gesto de lava-pés
mostra com clarividência ser Jesus o Servo de Deus. Gesto é testemunho, é
entrega da vida. Quando se anunciava na Igreja primitiva: “Jesus ressuscitou!”,
sempre se dizia: “nós somos testemunhas disso” (At 2, 32). E o testemunho dos
apóstolos se tornou não somente anúncio verbal como também práxis de entrega
da vida, o martírio, começando pela prisão e morte de Estevão (At 7) e seguido
pelo primeiro apóstolo a ser martirizado, Tiago e depois Pedro e Paulo
martirizados em Roma. Esse testemunho dos apóstolos está no discurso de
Pedro ao povo sobre Jesus, quando ele diz ter sido os israelitas que entregaram
Jesus a Pilatos para que o crucificasse, mas Deus glorificou ressuscitando-o
verdadeiramente e, por isso, eles são suas testemunhas (At 3, 11-15). O fato de
estarem reunidospara a ceia da Páscoa: “Antes da festa da Páscoa, sabendo
Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os
seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). Jesus fala aqui de sua
hora, para revelar a sua morte e seu significado. Como está reunido em assembleia
com os seus, amando-os até o fim, há uma consciência de que a entrega de sua
vida pelo resgate de muitos é a vontade do Pai. Jesus está dentro da trama do
mundo, aqui representada pelo diabo o qual pôs no coração de Judas Iscariotes o
projeto de entregá-lo. Este vive o drama de entregar a sua vida, na sua hora, por
isso, ele lava os pés para tornar novos os reunidos pelo amor-serviço e para eles, a
vida é doada num gesto maior de amor a se entregar totalmente por uma causa e
assim sendo cumpre a vontade do Pai. Uma maneira de destruir o poder opressor é
configurar ou reconfigurar a vida como o poder-serviço.

Deste modo, o Pai mostra ao mundo e aos seus em comunidade como se
ama totalmente, entregando-se livremente mediante seu Filho. E, neste sentido,
Jesus afirma: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30). O Pai quer mostrar ao mundo
como se ama plenamente e o mostra na medida do seu Filho, - amor até à morte
assumida na cruz - e neste amor está a salvação do mundo. E o gesto simbólico é
lavar os pés, serviços dos últimos da história, dos aniquilados. Quer dizer, Jesus
fez o serviço a partir dos escravos e se tornou, assim, o último dos últimos na vida
e na história da nova comunidade de Deus.

O lava-pés como lugar teológico. Esta cena expressa a cristologia do
serviço de Jesus à sua Igreja. É uma cristologia de baixo, do chão da vida e da
história. A partir desse lugar teológico, é salutar fazer uma cristologia do êxodo
descendente com o rebaixamento quando Jesus se atira aos pés dos discípulos e a
do êxodo ascendente da exaltação na execução do lavar os pés formando um
“único lugar teológico” a partir do qual se elabora a Cristologia da Libertação
Latino-americana. Jesus se compraz lavando os pés dos seus discípulos. Trata-se
de uma cristologia do lugar dos servos – poder-se-ia dizer como Jon Sobrino –
feita a partir do “lugar geográfico”, do “lugar histórico”, do “lugar vital” dos
empobrecidos feitos vítimas. Grande contribuição de seguridade metodológica
sobre o lugar teológico oferece Paul Tillich no seu projeto de teologia sistemática
quando aborda os “lugares de onde” e “como” e “quando” e “situacional” e
“existencial” onde se faz teologia. Constitui-se assim uma cristologia a qual
começa necessariamente do Jesus, pobre, servo e crucificado, os empobrecidos
latino-americanos bem como todos os empobrecidos do mundo. São vítimas que
assumem e são sujeitos de suas próprias histórias e por isso são cheias de
esperanças participando da “possibilidade de viverem já como ressuscitadas nas
condições da existência histórica”. Há uma reflexão sobre como viver o
seguimento de Jesus já como ressuscitado. Seguir a Jesus, não é seguir um morto,
mas um ressuscitado presente na história ao mesmo tempo em que se vive já a
realidade escatológica futura. Seguir a Jesus é participar de sua vida, de sua
crucifixão e ressurreição já na história. Citando K. Stendahl, literalmente,Sobrino
fundamenta sua reflexão cristológica: “O cristianismo é a permissão, a urgência e
a boa disposição para viver já, aqui e agora, a vida do mundo futuro. E isso quer
dizer: viver a vida da plenitude escatológica em um tempo de caducidade que não
está preparado para isso; e suportar todos os golpes e todas as desvantagens que
tal vida supõe”.

Uma cristologia da cruz, portanto, supera toda dicotomia entre a
divindade e humanidade de Jesus, assim também como entre Deus e o ser
humano. Antes forma uma interação perfeita, pois, como assevera Karl Barth,
quando escreve seu comentário da carta aos romanos, “o ser humano deixou de
ser apenas humano e Deus deixou de ser unicamente divino”. Uma asserção
bastante corajosa, sobretudo, em se tratando da realidade divina, pois o Deus
totalmente outro, transcendente, tornou-se com a encarnação também imanente e
participante de vida humana e a vida humana participante de vida divina. Na cena
do lava-pés há muitos verbos mostrando em pormenores ser a ação serviçal de
Jesus algo dado a partir do lugar dos escravos. Jesus se despoja de todas as alfaias
simbólicas do banquete para assumir a condição de escravo a servir: “Levantou-se
da mesa, deixou o manto e, tomando um pano, amarrou-o à cintura. Em seguida
lançou água na bacia e se pôs a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com o
pano que trazia amarrado”.Toda essa acumulação dos verbos exprime as
atitudes de despojamento e de serviço de Jesus. Essas duas ações: a do
despojamento e a do serviço de lavar os pés.

A primeira ação do despojamento está relacionada à ação de entregar a
vida como Jesus havia dito no discurso sobre o Bom Pastor (Jo 10, 14.18). E a
segunda, do lava-pés, deve manifestar as forças do amor e fidelidade de Jesus aos
seus seguidores e ensiná-los a compreender esse gesto para fazerem o mesmo (Jo
10, 17). Lavar os pés de um Senhor ou de um visitante era um ato de acolhida e
hospitalidade e até de uma reverência afetiva. Sempre quem fazia esse serviço era
o servo, a esposa ao seu marido, os filhos e filhas ao seu pai. Jesus ao fazer tal
ação durante a refeição, nem antes nem depois como era o costume na cultura do
povo bíblico, põe o gesto do lava-pés e o gesto do partir o pão em dimensões
interativas. Na nova comunidade fundada por Jesus não há ceia pascal sem
lava-pés e vice-versa. Para ser discípulo de Jesus precisa fazer o mesmo realizado
por ele naquele momento pascal. Outra atitude importante no gesto de Jesus é o
serviço de humildade, gratuito e livre. Não se indica quem é o primeiro nem o
último a ser lavado por Jesus. Não há ordem de precedência para Jesus prestar o
serviço. Isto significa: na nova comunidade de Jesus, como compreende o
evangelista, todos são iguais, não há hierarquia entre eles. Também o fato de
Jesus tomar a decisão livremente em lavar os pés deles e pedir-lhes para fazerem o
mesmo e viverem o seu mandamento de amor mútuo, evidencia-se outra
realidade, a liberdade de cada discípulo em servir gratuitamente. Com isso, Jesus
destrói todo o poder dominador e toda superioridade de uns sobre os outros e
propõe uma forma de vida de amor fraterno, na qual, todos devem servir livres e
gratuitamente.

O seguimento de Jesus leva a formar a Igreja como povo de Deus, a qual
tem a presença do Espírito para viver no mundo uma prática de fraternidade
evangélica de serviços mútuos, de igualdade entre seus membros e respeitando as
diferenças, (por isso não é igualitarismo), de partilha dos dons, de convivência
familiar, enfim, uma Igreja em missão instaurando o Reino de Deus. Eis por que o
seguimento de Jesus quando reconfigurado a partir da interação do lava-pés e do
partir do pão tanto simbólico como na mesa comum se mostra como um
messianismo de “contracorrente” num sentido histórico e escatológico.

Fonte: http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/16704/16704_4.PDF - Acesso em 07.04.2012

Uma liderança baseada no serviço - O exemplo de Cristo (Parte 2)



Jesus no partir do pão

Duas dimensões do partir do pão serão analisadas como pontos
fundamentais para entender o ministério de Jesus como servo de Deus. A primeira
quer tratar da partilha do pão em comunidade, na mesa comum, pão conseguido e
compartilhado entre todos, ensinado por Jesus com gestos e palavras a seus
seguidores e a segunda quer revelar o real transcendente além do pão
compartilhado como o pão simbólico da vida eterna, sendo Jesus
mesmosacramento da vida eterna (Jo 6, 47ss). Destarte, no escrito joanino,
associam-se estes três gestos:

O primeiro é o lavar os pés uns dos outros, sinal visível do serviço de Jesus
como enviado de Deus para servir (Mt 20, 28). Esse lava-pés é central na
reflexão teológica para mostrar quem é Jesus e como ele atuou na história. Mas,
como já havia costume entre as famílias ter escravos lavando os pés dos seus
senhores ou esposas de seus respectivos esposos ou até mesmo filhas de seus pais
(Gn 18, 4) ou até mesmo o gesto de hospitalidade com os hóspedes, lavando os
pés deles ao chegarem de viagem ou mesmo oferecer água para lavarem os pés
(Gn 24, 32), pode-se deduzir com muita probabilidade de ter havido a prática no
convívio de Jesus com seus discípulos e nas famílias quando os acolhiam. Tudo
indica que Jesus tenha falado e feito o gesto simbólico do lava-pés e João
introduziu na sua comunidade e no seu escrito como eixo do seguimento de Jesus.

O segundo é o partir do pão na mesa comum com os irmãos e se observa
não estavam excluídos os mais pobres. Conforme John Dominic Crossan havia
na época antiga três formas de refeições. A primeira eram as “refeições
compartilhas com patrocínio”, quando alguém, com bens materiais, oferecia
uma refeição, compartilhava com muitos e com os pobres. A segund eram as
“refeições compartilhas comunitárias” entre os empobrecidos residentes em
ambientes pobres possuindo uma mesa comum. Aquela refeição compartilhada
entre os mais pobres apresenta-se com maior probabilidade de ter sido a refeição
escolhida por Jesus como forma de estabelecer o gesto da comunhão com os seus
e como a última refeição estava na época da páscoa, assim, tenha havido um
entrelaçamento de significados. E a terceira eram as “refeições compartilhadas
societárias” em sociedades beneficentes, geralmente “sociedades funerárias”
para prestar filantropia às famílias enlutadas.

Por fim, o partir o pão simbólico, a partir das “refeições compartilhadas
comunitárias”, o qual, ganha um sentido sacramental na última ceia, quando
Jesus pronuncia as palavras sobre o pão: “Isto é meu corpo” e sobre o cálice
“Isto é meu sangue”. Este partir do pão simbólico tudo leva a crer ter Jesus
experimentado refeições compartilhadas comunitárias entre os pobres. Os
empobrecidos daquela época somavam em torno de 90% da população. Era
uma refeição entre iguais, pois entre os pobres não havia pessoas com privilégios
nem riquezas para constituir estratificação social. Este jeito cultural em partilhar
entre os pobres levou a Jesus a tomar uma refeição entre eles como iguais e na
mesma refeição lavar os pés, não começando por Pedro, mas por qualquer um.
Provavelmente, e aqui se pode conjecturar, Jesus tenha começado a lavar os pés
de quem estava com maior fome, com maior cansaço, com maior enfermidade e
maior sujeira. Até por que na parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37) isto está
posto com propriedade. Hoje, uma recontextualização na América Latina, seriam
os espoliados samaritanos “povos crucificados”, nomenclatura de Ellacuría.

Pão compartilhado na mesa comum

Segundo John Dominic Crossan, cinco elementos da herança de Jesus da
mesa comum se destacam. O primeiro é refeição real: tanto a tradição paulina
da Igreja de Corinto como da Didaqué apresentam formas de refeições reais
comportando ao mesmo tempo realidade e simbolismo ritual. O segundo elemento
era a refeição compartilhada dando ênfase não somente no pão e no vinho, mas
no partir do pão e no passar do cálice com o vinho entre participantes da
comunidade. Assim, comia-se do mesmo pão e bebia-se do mesmo cálice. O
terceiro elemento é o Jesus bíblico como o fundamento dessa mesa
compartilhada na mesa comum. Há uma correlação entre Servo de Javé, Jesus e o
pão compartilhado. Em especial, esta correlação se patenteia pelo verbo
“entregar” ou “entregar-se”. O servo sofredor “se entregou à morte, [...] levou
sobre si o pecado de muitos e pelos criminosos fez intercessão” (Is 53, 12). Em
paralelo com Jesus se diz: “Na noite em que foi entregue (traído) o SenhorJesus,
tomou o pão” (1Cor 11, 23). O quarto elemento é a unidade simbólica trazida
pelo pão em refeição compartilhado. Pão em si mesmo já possui um significado
histórico de ressurreição e gratuidade pelo seu próprio ser. O pão é símbolo de
unidade na Igreja tanto presente como no futuro: “Já que há um único pão, nós,
embora muitos, nós somos um só corpo, visto que todos participamos desse único
pão” (1Cor 10, 17) e quinto elemento é o castigo apocalíptico no sentido de ser
a refeição compartilhada comunitária o memorial da morte de Jesus, mas é
também presença da espera da consumação: “Todas as vezes, pois, que comeis
desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha”
(1Cor 11, 26). É castigo apocalíptico para quem não vive concretamente o
significado do pão simbólico repartido. Mas é, sobretudo, consumação
escatológica para quem experimenta o simbolismo do pão compartilhado na
refeição: a ceia do Senhor.

No Evangelho de João dois capítulos são fundamentais para falar do partir
do pão (Jo 6; 13). No capítulo 6, há duas dimensões do pão: uma dimensão do pão
partilhado para uma multidão de famintos, por um milagre de Jesus na montanha
(Jo 6, 3-15), e há outra dimensão do pão nos ensinamentos de Jesus (Jo 6, 35ss)
quando Ele afirma ser o “pão da vida” e quem dele comer viverá eternamente (Jo
6, 58). Essas dimensões não se separam neste capítulo, antes se remetem. No
capítulo 13, antes da festa da páscoa, quando na ceia, Jesus se levanta, lava os pés
dos discípulos e começa seu discurso de adeus (Jo 13, 31). Há quem caracterize
esse discurso como um testamento de despedida, legando aos discípulos em
comunidade o gesto do partir do pão nas suas duas dimensões – pão
compartilhado e pão simbólico - e o gesto do lava-pés, ambos inseparáveis
remetendo-se um ao outro. E para deixar sua perpetuidade dá-lhes um novo
mandamento, dizendo:

Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, pois
eu o sou. Se, portanto, eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também deveis
lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz,
também vós o façais. Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior do
que o seu Senhor, nem o enviado maior do que quem o enviou. Se
compreenderdes isso e o praticardes, felizes sereis. [...] Dou-vos um mandamento
novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns
aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor
uns pelos outros (Jo 13, 12b-16.34-35).

Desta forma, Jesus funda uma comunidade, a qual vive em torno do partir
o pão em refeição comum. O texto bíblico joanino demonstra essa tradição com
realidades comunitárias do partir do pão em família - e aqui se pode estender para
comunidade maior – onde havia a conversa de instrução entre mestre e discípulo,
entre o pai de família e seus filhos. O ensinamento aqui começa pelo gesto do
partir o pão e do lavar os pés – trabalho do servo e torna-se símbolo do serviço –
para depois oferecer o mandamento teorizado a partir do próprio gesto de Jesus.
São tradições antigas ensinadas pelos mestres e pais aos seus seguidores e filhos.
Jesus as adota ressignificando-as historicamente.

Pão simbólico da Vida Eterna

Jesus ensina sobre o Pão da Vida e quem dele comer ganhará a Vida
Eterna. E este Pão é Ele mesmo (Jo 6, 51). Não é intenção falar de Eucaristia aqui,
mas ver algumas características deste pão simbólico doado em favor de muitos
para a remissão dos pecados, conforme a versão mateana (Mt 26, 26-28). Por isso,
convém mesclar as versões para melhor compreender os objetivos ensejados e
refletir sobre essas características:

“Tomai e comei, isto é o meu corpo” (Mt 26, 26b). “Isto é o meu corpo que é
dado por vós. Fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19b). “E, depois de comer
fez o mesmo com a taça, dizendo: ‘Este taça é a Nova Aliança em meu sangue,
que é derramado por vós’” (Lc 22, 20). Ainda: “Eu sou o pão vivo descido do
céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O pão que eu darei é a minha
carne para a vida do mundo” (Jo 6, 51).

Mediante estes textos, compreendem-se os gestos de Jesus ao dar-se em
refeição simbólica aos seus seguidores, revelando-se ao mesmo tempo, Servo de
Iahweh como está em Isaías, mostrando-se como doador de sua vida pelos outros
de forma vicária acentuando-se o amor do Deus-pai-misericordioso. Jesus,
mesmo sendo vítima do sistema sacrifical (Jo 11, 49-50), oferece-se e perdoa
livremente até aos seus sacrificadores e algozes (Lc 23, 34). Com estes gestos,
Jesus aniquila o sistema sacrifical definitivamente. Doa-se como cordeiro imolado
pascal (Ex 12, 1-14),simbolizado no seu corpo e sangue, na refeição (Lc 22, 19-
20) e na entrega do seu Espírito na cruz (Jo 19, 30). Uma nova imagem simbólica
de Deus amor se revela no gesto do perdão de Jesus na cruz: “Pai, perdoai-lhes
porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

A primeiracaracterística é o gesto de Jesus em doar-se em pão para se
comer, como está narrado nas quatro tradições da instituição da ceia e também
em João quando diz: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão
viverá para sempre” (Jo 6, 51). Dar-se em pão, para Jesus, é doar a própria vida.
Não se pode compreendê-lo se não for de forma simbólica. É semelhante ao gesto
comportamental, típico dos profetas para denunciar infidelidade à Aliança e
anunciar a mensagem salvadora. Podem-se recordar alguns: Ezequiel quando quer
falar da dispersão do povo e por isso Deus vai puni-lo por causa da infidelidade,
raspa a cabeça e joga os cabelos ao vento proclamando: “Isto é Jerusalém” (Ez
5,5) por causa de seus pecados. O gesto profético não é simplesmente um evento,
mas “sua ação antecipa o acontecimento e de certa forma o produz”. Observe-se
o gesto de Jeremias ao pôr uma canga sobre seus ombros para significar a
dominação e opressão estrangeira sobre Jerusalém (Jr 27-28). Jeremias quer
mostrar uma Jerusalém subjugada por Nabucodonosor por causa da infidelidade à
Aliança, por isso se tornou igual ao animal de carga (Jr 27, 6-7). A expressão de
Ezequiel: “Isto é Jerusalém” é análoga a “Isto é meu corpo” ou “Isto é meu
sangue”. Assim, afirma-se: “Isto é Jesus Cristo”.

A segunda característica pela qual se pode compreender o gesto de Jesus de
entrega de corpo e sangue para transformar-se em pão simbólico, como reflete
Dufour, é a situação dialogal. Retrata a correlação entre Jesus e o pão formando
um só pólo “Jesus-pão” e os discípulos formando outro pólo do diálogo.
Estabelece-se uma correlação mútua entre o locutor – Jesus-pão – e o interlocutor,
os discípulos, a comunidade de crentes. Neste sentido, o método de correlação
de Paul Tillich tem muito a auxiliar quando aplicado nesta correlação dialogal
entre Jesus-pão e os discípulos. Entretanto, ainda falta uma reflexão para se
compreender Jesus transformando-se em pão simbólico. E para isso, precisa-se
estabelecer a terceiracaracterística, a categoria do símbolo.

Para compreender a terceira característica do pão como símbolo é
necessário obter a correta intelecção do termo. Convém, agora, aprofundar um
pouco mais a dimensão do símbolo no sentido etimológico e filosófico. Dufour
analisa primeiramente o significado etimológico e depois o filosófico da palavra
símbolo. Etimologicamente, símbolo vem do grego syn = com e ballô = colocar
junto. Assim, o símbolo “realiza uma junção, fazendo coincidir uma figura
sensível e uma realidade que não pode ser captada nem encerrada numa
linguagem discursiva, mas somente experimentada”. Apresenta a ideia
filosófica de símbolo, citando Durand: “O símbolo é, pois, uma representação que
faz aparecer um sentido secreto, ele constitui a epifania de um mistério”. E
ainda refletindo sobre esta epifania do símbolo o pensador supracitado convém
assegurar categorialmente com uma de suas frases, a qual leva a pensar: “Símbolo
remete para um indizível e invisível significado e, deste modo, sendo obrigado a
encarnar concretamente esta adequação que lhe escapa”.

Desta maneira, compreende-se etimológica e ontologicamente o símbolo, o
qual se manifesta por ele mesmo com uma linguagem simbólica, na qual se pode
conceber como duas realidades juntas e inseparáveis, uma visível e outra invisível,
uma sensível e outra insensível, formando a partir do instante representado uma
única realidade como a ideia de significante e significado em correlação. Um
símbolo fala por si só, mas quem o interpreta necessita de uma linguagem e esta
nasce de um círculo hermenêutico entre o “lócus”, o texto e o intérprete numa
contextualização correlacional entre esses três pontos. Assim, o pão é um
significante, no qual se pode perceber uma realidade, além dele mesmo, de outra
ordem, secreta, ou melhor, de forma transcendente e se manifesta de maneira real
nele mesmo. Quando Jesus diz: “eu sou o pão da vida” (Jo 6, 35), “tomai e comei,
isto é o meu corpo” (Mt 26, 26), este pão passa a ser mais que pão material, passa
a conter o ser de Jesus em si mesmo de forma simbólica. Paul Ricoeur, ao falar do
símbolo, demonstra que a realidade dele é autônoma em si mesmo, fala de si, por
si e além de si mesmo. Eis um pequeno trecho:

O símbolo dá que pensar; esta sentença que me encanta diz duas coisas: O
símbolo dá; eu não ponho o sentido, é ele que dá o sentido, mas aquilo que ele dá,
é ‘que pensar’, de que pensar. A partir da doação, a posição. A sentença sugere,
portanto, ao mesmo tempo em que tudo está dito em enigma e, contudo, que é
sempre preciso tudo começar e recomeçar na dimensão do pensar. É esta
articulação do pensamento dado a ele próprio no reino dos símbolos e do
pensamento ponente e pensante, que eu quereria surpreender e compreender.

Compreendendo dessa forma, pode-se afirmar que em todo símbolo há um
componente de fé, seja antropológica ou religiosa. Com essas dimensões da fé,
o símbolo possui em si mesmo um valor subjetivo, pois se apresenta com a
realidade simbolizada em uma correlação com o ser humano. Sendo o ser humano
um ser de sentido, o qual também aplica sentido às coisas, ele concede às
realidades simbolizadas, algo transcendental aos objetos. Isto se pode chamar de
símbolos. Símbolo é enquanto está correlacionado com os seres humanos só a
partir dele possui um valor subjetivo e objetivo. Há uma correlação, portanto,
entre o valor subjetivo e objetivo do símbolo. Um objeto por si mesmo não fala
para ninguém, pois ele somente fala por meio da esfera dos valores atribuídos
pelos humanos. Uma vez posto o objeto o símbolo revela-se como significado
hermenêutico autônomo, muito embora, relativo, por que depende da
hermenêutica contextualizada de “desconstrução e reconstrução”. Um símbolo
depende do lugar hermenêutico, como se faz na Teologia da Libertação: “o lugar”
a partir de onde se utiliza método com instrumental de análise.

Jesus-servo é o Cordeiro de Deus

João Batista aponta para Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado
mundo” (Jo 1, 29). Com esta afirmação, o Batista testemunha ser Jesus, o
Messias. Tem quase a mesma estrutura frasal da apresentação do Servo de
Iahweh: “Eis o meu Servo que eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer”
(Is 42, 1). No Novo Testamento há mais outras vezes revelando Jesus como o
Cordeiro de Deus, o qual tira o pecado do mundo, remontando assim o quarto
cântico do Servo de Iahweh quando se fala sobre o cordeiro e ovelha em
sacrifícios vicários. Primeiro em Atos 8, 32-33, cita-se Is 53, 7-8. E, segundo, uma
cristologia petrina na sua primeira carta quando se diz:

Pois sabeis que não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que
fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas por sangue
precioso, como de cordeiro sem defeitos e sem mácula, Cristo, conhecido antes
da fundação do mundo, mas manifestado, no fim dos tempos por causa de vós.
Por ele, vós crestes em Deus, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, de
modo que a vossa fé e a vossa esperança estivessem postas em Deus (1Pd 1, 18-
21).

Por essas tradições cristológicas se pode entender no cristianismo
primitivo uma consciência clara dessas realidades de Jesus. Ele é o Servo de Deus
e é o Cordeiro no sentido vicário do Dêutero-Isaías, bem como no sentido pascal,
já vitorioso, numa interpretação bem mais burilada como aparece no Apocalipse:
“Digno é o cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a
honra, a glória e o louvor” (Ap 5, 12). Quando se analisam as duas imagens sobre
o Servo com as características de cordeiro em Is 53, 7-8 e Jesus como cordeiro de
Deus nos escritos neotestamentários, vê-se como se identificam e se fundem
formando uma só realidade. Há uma evidência a mais no Apocalipse, o destaque
maior à glorificação do Cordeiro. Mas isso é plenamente compreensível porque já
se trata de uma caminhada de Igreja de quase um século refletindo sobre Jesus
crucificado e ressuscitado, sobretudo, porque naquele tempo as perseguições
políticas por parte do império romano eram grandes e necessitava-se ressaltar o
cordeiro vitorioso, com outro tipo de poder, diferente do poder esmagador do
império. O poder do cordeiro é divino, de entrega, serviçal, de salvação.

Diante das formas de poder do mundo, uma alternativa é o poder-serviço
do cordeiro, o qual perdoa o pecado do mundo e é símbolo de esperança
messiânica que já está presente, ressuscitado, glorificado. É o cordeiro já imolado,
mas é o vitorioso, transcendente. Isto quer dizer que Jesus é o Servo de Deus, é o
Cristo e é ao mesmo tempo o Senhor exaltado à direita de Deus Pai, a segunda
pessoa da Santíssima Trindade.

Fonte: http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/16704/16704_4.PDF - Acesso em 07.04.2012