terça-feira, 22 de março de 2011

Por que o ovo e o coelho são símbolos da Páscoa?



A maior celebração cristã (junto com o Natal, claro) tem sua origem na festa judaica do Pessach - que significa "passagem" em hebraico, uma referência à saída dos judeus do Egito e sua libertação da escravidão, com a chegada à terra prometida sob a liderança de Moisés. Durante a festa judaica, o ovo - um dos únicos alimentos que não perde a forma depois de cozido - é utilizado como símbolo do povo de Israel. Em determinado momento, o chefe de família se levanta e diz: "O povo de Israel é como esse ovo, que, quanto mais cozido na dor e no sofrimento, mais preserva sua unidade e sua identidade". (Evidentemente, naquela época o ovo ainda não era de chocolate.) A comemoração foi adaptada pelo cristianismo para relembrar a ressurreição de Cristo, que também representa a renovação da vida. "Já o coelho foi uma forma de popularizar a festa", diz Maria Ângela de Almeida, teóloga da PUC-SP.

Desde o antigo Egito, o animal era símbolo da fertilidade devido à sua incrível capacidade de procriação. "O Pessach teve origem em ritos tribais, cujo objetivo era celebrar a paz entre os povos. O cordeiro era repartido entre os chefes das tribos, num jantar comunitário que reforçava suas alianças. Nesse contexto, o coelho veio substituir o cordeiro", afirma Maria Ângela.

Fonte: Revista Mundo Estranho - Editora Abril

quarta-feira, 9 de março de 2011

O sacrifício vivo



“ROGO-VOS, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” ( Rm 12:1 )

Como cumprir a recomendação do apóstolo Paulo?

Em primeiro lugar não é se socorrendo da definição de sacrifício que consta em dicionários. Saber que sacrifício é ‘qualquer coisa consagrada e ofertada a Deus’ não nos auxiliará na compreensão da orientação paulina, pois não há dicionário no mundo que esclareça como tornar um ‘corpo’ possuidor dos predicativos que se seguem: vivo, santo e agradável.

Em segundo lugar, sabemos que é impossível ao homem natural compreender as coisas de Deus, portanto, não podemos esperar que o trabalho de lexicógrafos nos auxilie na compreensão das Escrituras ( 1Co 2:14 ).

O apóstolo Paulo roga aos cristãos, ou seja, ele não estabelece uma determinação, uma ordenança, ou uma lei, pois ao chamá-los de irmãos, demonstra que, apesar de estar em posição de impor determinações, por ser apóstolo, não impõe, pois tudo que um cristão faz é voluntário, pois Deus a ninguém oprime ( Jó 37:23 ).

Ele roga aos seus irmãos pela compaixão de Deus, ou seja, por Cristo. Cristo é a compaixão de Deus revelada aos homens.

O apóstolo Paulo não utiliza o seu apostolado para impor determinações aos cristãos, antes roga no nome do Senhor Jesus, o primogênito dentre muitos irmãos, para que a sua exortação fosse acatada ( Rm 8:29 ).

Como o verso em análise aborda as questões de oferta e sacrifício, geralmente vem à mente do leitor os sacrifícios oferecidos sob a velha aliança. Porém, os sacrifícios que se ofereciam segundo a lei eram todos ‘cadáveres’, por mais perfeito que fosse o cordeiro escolhido. Para o sacrifício o animal era morto e, após, disposto sobre o altar em holocausto, mas Deus já sinalizava que não se deleitava somente na sombra dos bens futuros "Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos" ( Sl 51:16 ).

Embora o sacrifício para a redenção da humanidade já foi ofertado, pois Cristo é o Cordeiro de Deus, a bíblia nos demonstra que sob a nova aliança também é possível oferecer sacrifício a Deus. O escritor aos hebreus assim orienta: "Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome" ( Hb 13:15 ), ou seja, por intermédio de Cristo (compaixão de Deus) se oferece a Deus ‘sacrifício de louvor’, que nada mais é do que professar o nome de Cristo.

Neste mesmo sentido alerta o apóstolo Pedro: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ). Ele demonstra que os cristãos são ‘casa espiritual’ e exercem um ‘sacerdócio santo’, ou seja, sacerdócio real segundo a ordem de Melquisedeque.

Como? Se Cristo é a pedra fundamental, o sumo sacerdote, o sacrifício e o primogênito entre muitos irmãos, todos os cristãos, como coerdeiros, filhos de Deus, também são pedras vivas e sacerdotes real edificados casa espiritual ( 1Pe 2:15 ).

Mas, qual o objetivo de os cristãos terem sido edificados casa espiritual? Para oferecerem sacrifícios agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo ( Hb 13:15 ). Que sacrifício é este? O fruto dos lábios, ou seja, anunciar a Cristo (a palavra, o Verbo encarnado), a pedra de tropeço no qual os homens tropeçaram ( 1Pe 2:8 ). O apóstolo Pedro destaca que os cristãos são ‘geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido’ para oferecerem sacrifício de louvor, ou seja, anunciando ‘as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz’ ( 1Pe 2:9 ).

Neste sentido o salmista Davi preanunciou: "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" ( Sl 51:17 ). Como ele haveria de sacrificar? "Eu te oferecerei voluntariamente sacrifícios; louvarei o teu nome, ó SENHOR, porque é bom" ( Sl 54:6 ). Por que Ele haveria de louvar? Porque ‘aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará’, ou seja, qualquer que queira oferecer sacrifício de louvor, ou o ‘fruto dos lábios’, deve anunciar as virtudes de Cristo professando o seu nome ( Sl 50:23 ; 1Pe 2:9 ; Hb 13:15 ). Compare:

"Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos" ( Jo 15:8 );
“Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará” ( Sl 50:23 );
"Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome" ( Hb 13:15 ).
Jesus demonstrou que glorificou o Pai anunciando o seu nome aos homens, e para que o cristão seja discípulo de Cristo deve produzir muito fruto, ou seja, anunciar o nome do Pai, o mesmo que glorificá-Lo “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer (...) Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra” ( Jo 17:4 -6).

Se o sacrifício do cristão é oferecer o ‘fruto dos lábios’, ou ‘sacrifício de louvor’, ou ‘professar o nome de Cristo’, que glorifica o Pai, o que o apóstolo Paulo propõe aos irmãos no verso 1 do capítulo 12 da epístola aos cristãos em Roma?

Como é assente que ‘um texto fora do contexto é pretexto’, devemos analisar o contexto de Romanos 12.

Antes de analisarmos o contexto de Romanos 12, observe este verso: "Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR" ( Sl 116:17 ). Por que é necessário observar este verso do Salmo 116? Porque neste verso há um paralelismo sinônimo, ou seja, a segunda linha, apesar de empregar termos diferentes, repete o pensamento da primeira linha, que é uma das características da poesia hebraica.

Lembrando que na poesia hebraica temos uma espécie de rima de pensamentos, nunca de som, ou seja, as idéias é que são relacionadas e não o som, ou rima. É esta uma das características da poesia hebraica que preserva a beleza e a idéia mesmo quando se traduz para qualquer outra língua. Compare:

“Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará” ( Sl 50:23 );
“Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR" ( Sl 116:17 );
"E ofereçam os sacrifícios de louvor, e relatem as suas obras com regozijo" ( Sl 107:22 );
"Oferecei sacrifícios de justiça, e confiai no SENHOR" ( Sl 4:5 ).
‘Sacrifício de louvor’ é o mesmo que ‘relatar as obras de Deus’ com alegria, ‘invocar o seu nome’, ‘confiar em Deus’, ‘glorificar’, ‘anunciar’ etc.

Se o paralelismo sinônimo da poesia hebraica estabelece que ‘oferecer sacrifício de louvor’ é o mesmo que ‘invocar o nome do Senhor’, segue-se que o que o apóstolo Paulo propõe no capítulo 12 é continuação das idéias exaradas no capítulo 10, o que não é de se estranhar, pois se trata de uma epístola ( Rm 10:13 ).

Os mesmos irmãos que o apóstolo roga para que apresentem os seus corpos em sacrifício, foram abordados no capítulo 10: “Irmãos, o bom desejo do meu coração...” ( Rm 10:1 ), e: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão...” ( Rm 12:2 ).

Qual era o bom desejo do coração do apóstolo Paulo? Que os seus irmãos na carne (judeus) fossem salvos, porém, ele bem sabia que os seus compatriotas, apesar do zelo, não tinham o ‘entendimento’ de Deus ( Rm 10:2 ).

Que entendimento lhes faltava? Que Deus é rico para com todos que O invocam ( Rm 10:12), pois ‘todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’ ( Rm 10:13 ). Como oferecer ‘sacrifício de louvor’ (buscar ao Senhor) é o mesmo que possuir um ‘espírito quebrantado’ ( Sl 116:17 ; Sl 51:17 ), neste quesito não há diferença entre gentios e judeu, servos e livres, macho e fêmea ( Rm 10:12 ).

Para os que não compreendem a verdade do evangelho o ciúmes permanece ( Rm 10:19 ).

Quando o escritor aos Hebreus cita o Salmo "Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores no meio da congregação" ( Hb 2:12 ; Sl 22:22 ), está em destaque o paralelismo, pois quem anuncia o nome de Deus é que O louva. Compare: “Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao SENHOR os que O buscam; o vosso coração viverá eternamente” ( Sl 22:26 ), com "Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR" ( Sl 116:17 ). Quando Jesus convida 'vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos' e 'aprendei de mim (...) e encontrareis descanso para as vossas almas', cumpre-se os versos acima ( Mt 11:28 -29).

Após declinar qual era o desejo do seu coração ( Rm 10:1 ), e que Deus não havia rejeitado a Israel como povo ( Rm 11:1 ), o apóstolo Paulo rogou aos irmãos (judeus e gentios) que oferecessem a Deus os seus corpos, ou seja, agissem de modo a demonstrar que judeus e gentios que crêem em Cristo foram elevados a mesma categoria: membros do corpo de Cristo ( 1Co 12:13 e 24).

O sacrifício do cristão é professar a Cristo, mas quando há qualquer tipo de discriminação nega-se a eficácia do evangelho ( Hb 13:15 ). Seria o mesmo que considerar que Deus só podia fazer nova criatura dentre os judeus, pois eram mais regrados devido à lei. Ou que Deus só podia salvar gentios, uma vez que os judeus foram rejeitados.

Diante das diferenças que alguns ainda evocavam por entenderem que mesmo no evangelho persistiam as diferença entre judeus e gentios (ambos, judeus e gentios, não haviam compreendido que os judeus não são mais excelentes que os gentios, e que os judeus não foram rejeitados Rm 3:9 e Rm 11:1 e 12), o apóstolo Paulo roga que ofereçam os seus corpos por sacrifício vivo, santo e agradável, pois assim as diferenças culturais seriam extintas.

Até mesmo considerar que os dons que foram repartidos tornam alguns cristãos melhores que outros não é racional diante de Deus, pois o douto não é melhor que o neófito “Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros” ( 1Co 12:24 -25).

Como por natureza o cristão é vivo, santo e agradável a Deus, o sacrifício também é vivo, santo e agradável. Por quê? Porque os cristãos já ressurgiram com Cristo e são pedras vivas, sacerdócio real, templo santo. Como é o templo que santifica o ouro, e o altar que santifica a oferta, o sacrifício é vivo, santo e agradável porque o cristão é pedra viva (templo e altar), nação santa, sacerdócio santo, casa espiritual, etc. ( 1Pe 2:5 ).

Conclui-se que, aqueles que não aceitam os irmãos como sendo seu igual, ainda está morto. Não creu em Cristo conforme as escrituras, e não pode oferecer o seu corpo em sacrifício vivo, santo e agradável. Não cultua o culto racional, pois para santificar os membros do seu corpo, o próprio Jesus utilizou a palavra, o que torna a igreja santa e irrepreensível “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:26 -27). É Cristo que dá vida! É Cristo que santifica! É Cristo que torna o homem agradável a Deus ( Jo 10:10 ; Ef 1:6 ; 1Co 6:11 ).

O apóstolo Paulo considerou tudo como esterco para alcançar a Cristo "E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo" ( Fl 3:8 ), porém, não podia falar-lhes abertamente, por questões socioculturais, que ser judeu ou ser gentil, quando em Cristo, era de nenhum valor, o mesmo que nada, escória ( Gl 6:15 ).

O apóstolo Paulo roga aos cristãos que ofereçam os seus corpos em sacrifício vivo, santo e agradável, pois somente desta forma todas as diferenças socioculturais seriam excluídas. Sacrificar as diferenças socioculturais é o culto racional, pois todo os cristãos, não importando suas origens, são povo adquirido, sacerdotes santos, pedras vivas, casa espiritual para oferecerem sacrifícios santos e agradáveis a Deus ( 1Pe 2:5 ).

O culto racional só é possível após ser participante do leite racional. O que é o leite racional? A palavra da verdade que concede crescimento, que torna o cristão sóbrio, com o entendimento cingido ( 1Pe 2:2 ). No que isto implica? Que o cristão invoca como Pai Aquele que não faz acepção de pessoa (judeu e gentil) ( 1Pe 1:17 ), e que toda carne é como a flor da erva (judeu e gentil) ( 1Pe 1:24 ), e o que permanece é a palavra de Deus ( 1Pe 1:25 ).

Nascer de novo é um imperativo, mas sacrificar as diferenças sociais em função da unidade do corpo de Cristo é uma disposição voluntária, por isso o apóstolo Paulo roga no verso 1, do capítulo 12 da carta aos Romanos. O apóstolo dos gentios destaca que os cristãos são muitos, mas são um só corpo em Cristo, ou seja, individualmente cada cristão é membro um dos outros, portanto, não pode haver diferença entre os cristãos “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Daí vem o imperativo: não sede conformados com o mundo! O que isto quer dizer? Que as diferenças apregoadas pelos judaizantes, algo próprio ao mundo, não devia ser a tônica dos cristãos ( 1Pe 1:14 ). Antes, deviam ser ‘transformados pela renovação do entendimento’, ou seja, a transformação do entendimento reflete diretamente na mudança de comportamento, que passa a ser segundo a boa, agradável e perfeita vontade de Deus ( Rm 12:2 e 18 compare com 1Pe 2:19 ).

A mudança de comportamento operada pela transformação do entendimento é o que tapa a boca à ignorância dos homens insensatos, daqueles que se ensoberbecem a favor de um contra o outro, pois vão além do que está escrito "Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos" ( 1Pe 2:15 ; Rm 12:3 e 1Co 4:6 ).

Apresentar o corpo como sacrifício vivo, santo e agradável é culto racional ofertado a Deus, ou seja, refere-se a uma transformação na compreensão através da verdade do evangelho (leite racional). O cristão que pensava que os judeus eram mais ilustres que os demais homens diante de Deus precisavam compreender que no corpo de Cristo não há diferença entre judeus e gentios, pois através da operação do evangelho da paz foi feito dos dois povos um novo homem ( Ef 2:15 ).

O culto racional, o mesmo que compreender que todos (judeus e gentios) são um só corpo em Cristo Jesus é apontado como sendo um sacrifício que os cristãos, individualmente e voluntariamente, poderiam oferecer a Deus.

Além de andar de acordo a compreensão do Evangelho podemos oferecer também sacrifício de louvor que decorre do fruto dos lábios, conforme demonstra o escritor aos hebreus ( Hb 13:15 ).

Sob a Velha Aliança, era oferecido a Deus o sacrifício de animais, o que prenunciava o sacrifício do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo. Apresentar o corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus não é o mesmo que um processo de santificação, pois a santificação se dá única e exclusivamente pela vontade de Deus através da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ).

Apresentar o ‘corpo’ em sacrifício vivo, santo e agradável também não é o mesmo que apresentar os ‘membros’ a Deus como instrumento de justiça, pois apresentar os membros como instrumento de justiça é abster-se da concupiscência, e apresentar o corpo em sacrifício, um culto racional ( Rm 6:12 -13).

Enquanto o culto racional refere-se à voluntariedade do cristão em aceitar qualquer pessoa, independente das suas origens e condições sociais, como sendo participante do corpo de Cristo, apresentar os membros a Deus como instrumento de justiça refere-se ao comportamento do cristão após tornar-se servo da justiça ( 1Pe 2:11 ).

Observe que a estrutura de texto da primeira epistola do apóstolo Pedro, apesar de não ter o mesmo contexto (judeus versus gentios), demonstra que os sacrifícios agradáveis a Deus ( 1Pe 2:5 ) é anunciar as virtudes daquele que chamou os cristãos para a luz ( 1Pe 2:9 ). Como a vontade de Deus é que os ignorantes não tenham do que acusar os cristãos ( 1Pe 2:15 ), o apóstolo roga, do mesmo modo que o apóstolo Paulo, que os cristãos abstenham das concupiscências carnais (1Pe 2:11 ).

Fica claro após uma releitura do verso em análise que a ‘transformação pela renovação do entendimento’ se traduz em aceitação das diferenças socioculturais dos cristãos, pois após a reconciliação efetivada na cruz ( Ef 2:16 ), todos pertencem a uma mesma família ( Ef 2:19 ; Rm 12:5 ), são membros de um mesmo corpo, pois não há diferença entre judeu e grego ( Rm 10:12 ), o que demanda aos cristãos, que ainda não ofereciam um culto racional, transformarem-se pela renovação do entendimento, ou seja, oferecendo voluntariamente os seus corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é aceitar a eficácia do sacrifício de Cristo (culto racional), que faz (bara) ambos, judeus e gentios, nova criatura.

Por quê? Porque após oferecer o corpo em sacrifício o cristão deixa de considerar os membros do corpo de Cristo segundo a carne (judeus e gentios), como alertou o apóstolo Paulo "Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo" ( 2Co 5:16 ).

Cristo morreu, segue-se que todos cristãos morreram ( 2Co 5:15 ), portanto, é necessário trazer sempre ‘por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos’. Ou seja, aqueles que obtiveram nova vida em Cristo sempre estão entregue à morte por amor de Jesus, ou seja, é um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, para que ‘a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal’ ( 2Co 4:10 -11).

Ao oferecer o corpo em sacrifício vivo, santo e agradável, que é o culto racional, o cristão compreendeu que na unidade do corpo de Cristo há servo, livre, judeu, grego, homem, mulher, etc. É o mesmo que “... amar a Deus de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo...”, ou seja, oferecer sacrifício de louvor “... é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios" ( Mc 12:33 ; Sl 50:23 ).

Fonte: http://www.ibiblia.net/artigos/como-oferecer-sacrificio-vivo

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Por que Deus não cura amputados?



Resposta: Algumas pessoas usam esta pergunta na tentative de “desaprovar’ a existência de Deus. De fato, existe um website popular e anti-cristão dedicado ao argumento “por que Deus não cura amputados?”: http://www.whywontgodhealamputees.com. Se Deus é todo-poderosos e se Jesus prometeu fazer todas as coisas que pedimos, então por que Deus nunca cura amputados quando nós oramos por eles? Por que Deus cura vítimas de câncer e diabetes, por exemplo, mas ainda assim ele não faz com que o membro amputado seja regenerado? O fato que um amputado permanece amputado é “prova” para alguns de que Deus não existe, que a oração é inútil e que as tão-chamadas curas são coincidência e que a religião é um mito.

O argumento acima, geralmente, é apresentado de uma maneira pensativa, bem fundamentada com uma pitada liberal das Escrituras, para fazê-lo parecer mais legítimo. No entanto, é um argumento baseado em uma visão errada de Deus e uma deturpação das Escrituras. A linha de raciocínio empregada no argumento “por que Deus não cura amputados” supõe, pelo menos, sete premissas falsas:

Premissa 1: Deus nunca curou um amputado. Quem disse que na história do mundo, Deus nunca causou a regeneração de um membro? Dizer “eu não tenho evidência empírica de que membros possam ser regenerados; portanto, nenhum amputado jamais foi curado na história do mundo” é o mesmo que dizer “eu não tenho nenhuma evidência de que os coelhos vivem em meu quintal; portanto, nenhum coelho jamais viveu sobre neste quintal na história do mundo”. É uma conclusão que simplesmente não pode ser formada. Além disso, temos registros históricos de que Jesus curou leprosos, alguns de quem podemos presumir que tiveram perdidos dedos ou características faciais. Em cada caso, os leprosos eram completamente restaurados (Mc 1. 40 – 42; Lc 17. 12 – 14). Além disso, há o caso do homem com a mão atrofiada (Mat 12.9 – 13); e a restauração da orelha decepada de Malco (Lc 22. 50, 51); para não mencionar o fato de que Jesus ressuscitou os mortos (Mt 11.5; Jo 11), o que seria inegavelmente mais difícil que curar um amputado.

Premissa 2: a bondade e o amor de Deus requerem Dele a cura de todos. Doenças, sofrimento e dores são resultados de nosso viver em um mundo amaldiçoado – amaldiçoado por causa de nossos pecados (Gen 3. 16 – 19; Rom 8. 20 – 22). A bondade e o amor de Deus o levou a nos dar um Salvador para nos redimir da maldição (1 Jo 4. 9, 10), mas nossa redenção final não será realizada até que Deus tenha dado um ponto final no pecado no mundo. Até aquele tempo, nós estaremos sujeitos à morte física.

Se o amor de Deus requer que Ele cure todas as doenças e enfermidades, então ninguém morreria – porque o “amor” manteria todos em perfeita saúde. A definição bíblica de amor é “um sacrifício que busca o que é melhor para o ser amado”. O que é melhor para nós não é sempre a integridade de nossa saúde física. O Apóstolo Paulo orou para ter o seu “espinho da carne” removido, mas Deus disse-lhe “não” por que Ele queria que Paulo entendesse que não precisaria ser plenamente saudável para experimentar a graça sustentadora de Deus. Através desta experiência, Paulo cresceu em humildade e no entendimento da misericórdia e poder de Deus (2 Co 12.7 – 10)

O testemunho de Joni Eareckson Tada fornece um exemplo moderno do que Deus pode fazer por meio da tragédia física. Quando adolescente, Joni sofreu uma acidente de mergulho que a deixou tetraplégica. Em seu livro Joni, ela relata como, muitas vezes, ela foi visitada por “curadores da fé” e oravam desesperadamente pela saúde que nunca chegava. Finalmente, ela aceitou sua condição como vontade de Deus, e ela escreveu: “quanto mais eu penso nisso, mais eu estou convencida de que Deus não quer todo mundo saudável. Ele usa nossos problemas para Sua glória e nosso bem”(p. 190)

Premissa 3: Deus ainda realize milagres hoje, assim como ele fez no passado. Nos milhares de anos de história coberta pela Bíblia, nós encontramos quatro períodos curtos nos quais os milagres foram amplamente executados (o período do Êxodo; o período dos Profetas Elias e Eliseu; o Ministério de Jesus; e o período dos Apóstolos). Ainda que os milagres ocorressem através da Bíblia, foi apenas durante estes quatro períodos que os milagres eram “comuns”

O período dos Apóstolos terminou com o escrito do Apocalipse e a morte de João. Isto significa que agora, uma vez mais, os milagres são raros. Qualquer ministério que reivindique ser conduzido por uma nova geração de apóstolos ou reivindique possuir a capacidade de curar, está enganando as pessoas. Os “Curandeiros” apostam na emoção e usam o poder da sugestão para produzir “curas” inverificáveis. Isto não quer dizer que Deus não cure pessoas hoje – cremos que Ele o faça – mas não em números ou modos que algumas pessoas declaram.

Voltemo-nos, novamente, para a história de Joni Eareckson Tada, que naquele tempo procurou ajuda dos “pais da fé”. Sobre o tema dos milagres nos dias de hoje, ela disse: “o relacionamento do homem com Deus em nossos dias e cultura é baseada em Sua Palavra em vez de ‘sinais e maravilhas’”(op. cit. 190). Sua graça é suficiente e sua Palavra é certa.

Premissa 4: Deus é obrigado a dizer ‘sim’ para qualquer oração oferecida da fé. Jesus disse: “Eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”(João 14. 12 – 14). Alguns tentaram interpretar esta passagem como uma carata branca da parte de Jesus prometendo a Sua anuência com tudo o que pedimos. Mas isto é má interpretação da intenção de Jesus. Observe, em primeiro lugar, que Jesus está falando para seus Apóstolos e a promessa é para eles. Depois da ascensão de Jesus, aos Apóstolos foi dado poder para realizar milagres como pregar o evangelho (At 5. 12). Em segundo lugar, Jesus usa a frase “em meu nome” duas vezes. Isto indica a base para a oração dos Apóstolos, mas também implica que tudo o que oravam deveria estar em concordância com a vontade de Jesus. Uma oração egoísta, por exemplo, ou uma oração motivada por ganância, não pode ser dita que foi orada em nome de Jesus.

Nós oramos em fé, mas fé significa que nós confiamos em Deus. Nós confiamos Nele para fazer o que é melhor e Ele sabe o que é melhor. Quando consideramos todo o ensinamento da Bíblia sobre oração (não apenas a promessa dada aos Apóstolos), aprendemos que Deus pode exercitar Seu poder em resposta a nossa oração, ou Ele pode surpreender com um curso de ação diferente. Em Sua sabedoria, Ele sempre faz o que é melhor (Rom 8.28).

Premissa 5: a cura futura de Deus (na ressurreição) não pode compensar o sofrimento terreno. A verdade é que “as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”(Rom 8. 18). Quando um crente perde um membro, ele tem a promessa de Deus de uma plenitude futura e a “fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”(Heb 11.4)(sic). Jesus disse: “melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno(Mat 18.8). Suas palavras confirmam a relativa falta de importância de nossa condição física neste mundo, quando comparada com nosso estado eterno. Entrar aleijado na vida eterna (e então ser completamente curado) é infinitamente melhor do que entrar inteiro no inferno (para sofrer a eternidade)

Premissa 6: O Plano de Deus está sujeito à aprovação do homem. Uma das alegações do argumento “por que Deus não cura amputados” é que Deus simplesmente não “honra” os amputados. No entanto, a Escritura deixa claro que Deus é perfeitamente justo (Sal 11.7; 2 Tes 1. 5, 6) e em Sua soberania não presta contas a ninguém (Rom 9. 20, 21). Um crente tem fé na bondade de Deus mesmo quando as circunstâncias tornam difícil e a razão parece hesitar.

Premissa 7: Deus não existe. Esta é a pressuposição subjacente a que todo o argumento “por que Deus não cura amputados” é fundamentada. Aqueles que defendem o “por que Deus não cura amputados” começam com a pressuposição de que Deus não existe e, então, avançam para reforçar suas ideias da melhor maneira possível. Para eles, “religião é um mito” é uma conclusão apressada, apresentada como uma dedução lógica, mas que é, na realidade, fundamental para o argumento.

Em certo sentido, a questão do por que Deus não cura amputado é uma questão do tipo “pegadinha”, comparável a “Deus pode fazer uma pedra tão grande que ele não possa levantar?” e não se destina a buscar a verdade, mas desacreditar a fé. Em outro sentido, pode ser uma pergunta válida com uma resposta bíblica. Essa resposta, em suma, deveria ser alguma coisa do tipo: “Deus pode curar amputados e curará todos deles que confiam em Cristo Jesus como salvador. A cura virá, não como resultado de nossas exigências agora, mas no tempo próprio de Deus, possivelmente nesta vida, mas definitivamente no paraíso. Até aquele tempo, nós caminharemos por fé, confiando no Deus que nos redimiu em Cristo e nos prometeu a ressurreição do corpo”.

Um testemunho pessoal:

Nosso primeiro filho nasceu faltando ossos nas pernas e nos pés. Seus pés tinham apenas dois dedos. Dois dias depois de seu primeiro aniversário, ele teve os pés amputados. Estamos pensando em adotar uma criança chinesa que teve problemas semelhantes e precisou de cirurgia. Sinto que Deus escolheu-me para ser uma mãe muito especial para estas crianças especiais, e eu não tinha ideia até ver o tópico sobre por que Deus não curar amputados, que as pessoas usaram isso como uma razão para duvidar da existência de Deus. Como mãe de uma criança que não tem os pés e uma mãe em potencial de outra criança que também em estado semelhante, eu nunca vi por aquela perspectiva. Pelo contrário, tenho viso Deus me chamando para ser uma mãe especial para ensinar outros sobre as bênçãos de Deus. Ele também tem me chamado para dar a estas crianças a oportunidade de serem inseridas em uma família cristã que vai ensiná-las as amar ao Senhor de um modo especial e entender que podemos suportar todas as coisas por meio de Cristo Jesus. Alguns podem achar que isto seja um obstáculo; nós achamos que seja uma experiência de aprendizado e desafio; nós agradecemos a Deus por Ele nos dar a algumas pessoas o conhecimento para realizar o necessário e fazer próteses que permitam o meu filho e, esperançosamente o próximo filho, a serem capazes de andar, correr, pular e viver para glorificar a Deus em todas as coisas. “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”(Rom 8.28)

Fonte: http://profgaspardesouza.blogspot.com/2010/07/por-que-deus-nao-cura-amputados.html

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O propósito de Deus na permissão da dificuldade



Joni Eareckson Tada diz que o cristão precisa entender o propósito de Deus nas dificuldades.

Joni Eareckson Tada ficou mundialmente conhecida nos anos 1970 como ativista em luta permanente pelos direitos e pela qualidade de vida das pessoas portadoras de deficiência física. À frente do ministério Joni e Amigos, surgido após drama pessoal – na adolescência, um mergulho imprudente em águas rasas deixou-a tetraplégica –, ela percorre o mundo em sua cadeira de rodas, oferecendo esperança e muito mais a gente que, como ela, tem de atravessar a vida sofrendo com sérias limitações. Até hoje, sua instituição já distribuiu mais de 50 mil cadeiras de rodas, além de aparelhos ortopédicos, próteses e todo tipo de auxílio a deficientes físicos, sobretudo nos países mais pobres. Além, é claro, da palavra de esperança e salvação do Evangelho, mensagem de que Joni nunca abriu mão de anunciar.

Autora do livro testemunhal Joni, uma histeria inesquecível, sucesso em todo o mundo, ela tem sido vista como exemplo de superação e fé. Só que agora um novo drama se abateu sobre a vida dessa frágil mulher de 60 anos: o diagnóstico recente de um câncer de mama. A doença veio se somar a uma dor crônica que a vem atormentando há uns dez anos. Parecendo otimista e confiante após uma cirurgia oncológica, ela rejeita comparações com Jó, ícone do sofrimento na Bíblia, mas admite que, por vezes, não sabe o que pensar acerca de um Deus que, conforme a crença evangélica, tem poder para curar todas as enfermidades do corpo e da alma. “Qualquer cristão luta para entender o propósito de Deus na dificuldade”, diz. “Lembro sempre da passagem de I Pedro 2.21: ‘Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.’”

Joni falou com CRISTIANISMO HOJE sobre seu livro mais recente, A place of healing: Wrestling with the mysteries of suffering, pain and God´s sovereignty (ainda inédito em português, a tradução literal do título é “Um lugar de cura: Lutando com os mistérios do sofrimento, da dor e da soberania de Deus”), da editora David C. Cook. Longe de ser um memorial de lamúrias, a obra descreve sua teologia do sofrimento.



CRISTIANISMO HOJE – O quanto sua perspectiva sobre sofrimento e cura mudou desde o diagnóstico do câncer?

JONI TADA – Felizmente, não mudou de forma alguma. Diante de situações assim, você examina a Escritura novamente e segue todas as passagens referentes à cura. Fiz isso com a minha quadriplegia, há mais de 40 anos, e de novo dez anos atrás, quando passei a experimentar uma dor crônica. Há um mês, ao receber o diagnóstico de câncer de mama, olhei para esses mesmos textos da Escritura, e as palavras de Deus não mudam. Embora a impressão seja a de que muita coisa tenha sido acumulada, continuo pensando em I Pedro 2.21: “Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.” Esses passos, na maioria das vezes, conduzem os cristãos não a intervenções miraculosas ou divinas, e sim, diretamente à comunhão do sofrimento. É um bom princípio básico para qualquer cristão que luta para entender o propósito de Deus na dificuldade.

E a relação com Deus, como fica?

De certo modo, tenho sido atraída para mais perto do Salvador. Há coisas sobre o seu caráter que eu não via. Isso me diz que ainda estou mudando, crescendo, sendo transformada, e me tornando mais como ele. Jesus disse que quem tivesse fé nele, faria coisas ainda maiores do que as que ele fez. Somos inclinados a pensar que Jesus estava falando sobre milagres – mas, não necessariamente. Ele estava oferecendo o Evangelho; estava fazendo avançar o seu Reino; estava reivindicando a terra como sua, por direito. Então, quando fez essa promessa, o Salvador deu a todo crente a capacidade de também fazer isso. É isso o que tenho visto no último mês. É incrível a quantidade de pessoas sedentas por Cristo que tenho encontrado, desde médicos a enfermeiros, e todo o pessoal técnico dos centros médicos onde sou tratada. Eu sei que isso era verdade antes, mas parece haver algo especial acompanhando esse diagnóstico. A todos, tenho falado de confiança no amor de Deus por nós.

Impossível deixar de fazer a pergunta clássica. Na sua opinião, como um Deus bom permite que as pessoas, mesmo as que creem nele de todo coração, sofram tanto?

Quem faz essa pergunta – e eu mesma luto com ela – não está aceitando o fato de que este mundo está comprometido. Vivemos em um mundo caído. Quando não experimentamos o sofrimento, isso é uma exceção. O princípio básico é o de que experimentaremos muito sofrimento, porque vivemos em um mundo que geme sob o peso de uma pesada maldição. Se ser bom, para Deus, significa dar cabo do pecado, então ele teria de dar cabo dos pecadores. Mas o Senhor é um Deus de grande generosidade e enorme misericórdia, de modo que permite o curso do sofrimento. Ele não o detém até que haja mais tempo para amealhar mais pessoas para o aprisco da comunhão de Cristo.

Existem sofrimentos que vêm por causas naturais e outros que são provocados pela ação humana, ou seja, entre as diferentes causas da dor, em muitas delas a vítima nada podia fazer para evitá-las. Que tipo de sofrimento é mais fácil de aceitar?

Sofrimento é dificuldade e pesar. É tudo um pacote só. Sim, Deus poderia evitar o sofrimento. Pode, por exemplo, impedir que um assaltante atire contra a vítima ou evitar o surgimento de um tumor. Se ele escolhe permitir que essas coisas ocorram, isso não quer dizer que seja menos cuidadoso ou compassivo. Sua vontade, seu propósito e seu plano soberano podem ser um pouco mais obscuros e enigmáticos deste lado da eternidade. Quer a dificuldade seja resultado de negligência de quem a enfrenta ou fruto da ação direta de uma outra pessoa, ou, ainda, de uma catástrofe natural, é preciso lembrar que todas essas coisas estão ao alcance da soberania divina. Um olhar mais atento sobre o Novo Testamento mostra que a soberania de Deus se estende sobre todas as coisas – e ele permite todos os tipos de coisas, mesmo aquelas que não aprova. Ele não aprova, por exemplo, minha lesão medular ou o meu câncer, mas em sua soberania ele os permitiu. Não me importo se o termo usado for “deixar”, “permitir” ou “ordenar”. É tudo a mesma coisa. No final das contas, tudo se resume ao fato de que Deus está no controle. Não penso que haja uma diferença prática.

Fonte: Sarah Pulliam Bailey (http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=36)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Crianças precisam brincar



Há vários anos, vem aumentando o número de estudos e estatísticas sugerindo que a cultura do “brincar” está desaparecendo nos Estados Unidos. As crianças passam tempo demais na frente de uma tela, lamentam os pais e educadores – uma média de 7 horas e 38 minutos por dia, segundo uma pesquisa realizada no ano passado pela Kaiser Family Foundation. Apenas uma em cada cinco crianças mora perto de um parque ou playground, segundo um relatório de 2010 produzido pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, deixando-as ainda menos inclinadas a brincar ao ar livre.

Por trás dos números está não apenas o comportamento das crianças, mas também o dos adultos: o pai digitando furiosamente em seu Blackberry, estressado demais pelo trabalho para tolerar jogos barulhentos no ambiente. Fins de semana tomados por futebol e outras ligas de esportes, todas organizadas e dirigidas por pais. Toda a lista de aulas – xadrez, natação, inglês, balé – e o dever de casa começando nas séries mais novas. Some a isso todas as preocupações de segurança dos pais, que afetam até mesmo os verdadeiros crentes, como Sarah. “As pessoas têm medo de deixar seus filhos na rua, mesmo onde eu moro”, disse ela. “Se quero que meus filhos saiam de casa, tenho de ir com eles”.

Kathy Hirsh-Pasek, psicóloga desenvolvimentista da Universidade Temple, na Filadélfia, concluiu: “Brincar é simplesmente algo natural para animais e humanos. Mas, de alguma forma, nós retiramos isso das crianças”.

Pouco tempo para brincadeiras parece estar no final da lista de preocupações da sociedade, mas cientistas, psicólogos, educadores e outros entusiastas do “brincar” dizem que a maioria das habilidades sociais e intelectuais necessárias para o sucesso na vida e no trabalho são desenvolvidas inicialmente nas brincadeiras da infância.

Através das brincadeiras, as crianças aprendem a controlar seus impulsos, solucionar problemas, negociar, pensar de maneira criativa e trabalhar em equipe – como quando cavam juntas numa caixa de areia, ou constroem um forte com as almofadas do sofá. Os especialistas definem o “brincar” como um jogo ou atividade iniciado e comandado por crianças. Então, o videogame não conta, segundo eles, exceto talvez por aqueles que envolvem criar algo. Tampouco contam brinquedos “educativos” que fazem coisas como cantar o abecedário quando a criança aperta um botão.

Os entusiastas da atividade estão começando a buscar os pais, reconhecendo que, para o movimento funcionar, as atitudes parentais precisam evoluir – começando com disposição para tolerar um pouco mais de imprevisibilidade na agenda das crianças e um pouco menos de estrutura em casa. Construir aquele forte, por exemplo, provavelmente envolverá desmontar o sofá e esvaziar o armário de roupa de cama – um lençol faz um excelente telhado.

Para tentar abarcar mais pais, uma coalizão chamada “Play for Tomorrow” (“Brincar pelo Amanhã”, em tradução livre) organizou, em outubro passado, um gigantesco dia de brincadeiras no Central Park, em Nova York. O evento, intitulado “The Ultimate Block Party” (“A Melhor Festa de Rua”, em tradução livre), oferecia jogos de adivinhação, montes de massa de modelar, giz, blocos de montar, quebra-cabeças e muito mais. A Fundação Nacional de Ciência foi envolvida no projeto, explicando aos organizadores – e enfatizando para os pais – o valor científico e educacional por trás de cada uma das tarefas selecionadas. Os organizadores esperavam atrair 10 mil pessoas ao evento. Mais de 50 mil compareceram.

“Ficamos extasiados”, disse Roberta Golinkoff, psicóloga desenvolvimentista da Universidade de Delaware e cofundadora do evento, ao lado de Kathy. Agora, as duas estão negociando levar a festa para outras cidades, além de tornar o encontro no Central Park um acontecimento anual. O objetivo, de certo modo, é retornar aos velhos tempos.

“Quando eu estava crescendo, havia uma cultura de infância que era mantida pelas crianças”, disse Jim Hunn, vice-presidente da KaBOOM, uma entidade sem fins lucrativos que comanda a redução do que eles mesmos chamam de “déficit de brincadeiras”. Para reviver essa cultura, segundo ele, “os pais precisam se reafirmar neste processo e ensinar as brincadeiras às crianças. É crucial que os pais tomem uma atitude e saiam para brincar com seus filhos”.

Como brincar

Uma parte importante do movimento está ensinando as próprias crianças como brincar. Uma criança média de 3 anos consegue pegar um iPhone e habilmente rolar pelo menu de aplicativos, mas quantas crianças de 7 anos conseguem organizar um jogo de futebol com os amigos da vizinhança?

Com isso em mente, no evento do Central Park, os pais receberam um “livro de brincadeiras” de 75 páginas, delineando pesquisas sobre o “brincar” e oferecendo sugestões de atividades divertidas – coisas que as gerações passadas faziam sem precisar de estímulo, e que podem evocar, nos pais de hoje, sentimentos de identificação e nostalgia.

“Suba no sofá com seus amigos e finja que está navegando num barco a uma terra distante”, diz uma ideia. Outra, da seção de brincadeiras construtivas: “Coloque um brinquedo no chão e descubra como construir uma ponte passando sobre ele, usando blocos de montar”. “Crie bonecos com recortes de revistas e jornais velhos”, sugere uma terceira, “e deixe sua imaginação voar!”

Fonte:http://delas.ig.com.br/filhos/movimento+busca+recuperar+antigas+brincadeiras+infantis/n1237973214316.html

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As mulheres da vida de Jesus



Elas protagonizaram passagens que definiram o cristianismo, estiveram com ele nas pregações e não o abandonaram no calvário. Saiba quem foram as representantes do sexo feminino que acompanharam Cristo em toda sua trajetória.

Os homens dominam a história do cristianismo. A começar por Deus, o Pai, onipresente e onipotente, criador e não criadora, passando pelos 12 apóstolos, que não incluíam uma mulher sequer, e culminando com Jesus, Filho e não filha. Curiosamente, porém, são as mulheres que não só participaram, como protagonizaram boa parte dos momentos cruciais da vida de Cristo. Da concepção à crucificação, enquanto homens traíam ou fingiam não conhecer o Messias, elas não se acovardaram diante das dificuldades. Mas quem são essas mulheres e por que elas são importantes? E como, hoje, as cristãs batalham para encontrar mais espaço dentro da Igreja?

Com a leitura dos Evangelhos como relatos simbólicos aliada ao estudo histórico do tempo de Cristo, é possível resgatar o protagonismo de algumas mulheres na vida de Jesus. “Cada época lê os Evangelhos de uma maneira”, resume Stephen Binz, biblista formado pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, e autor do livro “Mulheres nos Evangelhos: Amigas e Discípulas de Jesus”, a ser publicado nos Estados Unidos em janeiro de 2011. “E as verdades e conclusões tiradas do texto derivam da vida e das prioridades de quem o lê.”

A visão feminina do Novo Testamento sempre existiu, mas o estudo sistematizado com vistas às revisões do papel da mulher na vida e no legado de Jesus é mais recente. O que se convencionou chamar de teologia feminista nasceu com os movimentos pelos direitos das mulheres nos anos 60, quase dois mil anos depois da reunião dos textos que compõem a segunda parte da Bíblia. “Prevaleciam, e ainda prevalecem, em muitos lugares interpretações dos textos que justificavam a subjugação da mulher”, conta Yury Puello Orozco, teóloga feminista do departamento de Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Às perguntas que buscavam a justificação da existência do mal, por exemplo, convencionou-se afirmar que a culpa era da mulher, que, na figura de Eva, no Antigo Testamento, cedeu às tentações do diabo e comeu o fruto da árvore proibida. “Se as mulheres eram fracas e sugestionáveis como alguns dizem, por que foram elas as testemunhas de momentos-chave do cristianismo, como a morte e a ressurreição de Cristo?”, questiona Yury. “Os apóstolos, na hora do aperto, foram incrédulos e fugiram, enquanto as mulheres permaneceram ao pé da cruz”, lembra.

Uma das que continuaram lá, firme e forte, foi Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, reconhecida como a figura feminina mais importante na vida de Cristo. Não só por estar ali, em um dos momentos de maior aflição do filho que era dela e de Deus, mas por toda sua história ao lado do Messias. “Ela não foi só mãe carnal, foi mãe moral e psicológica”, lembra frei Clodovis Boff, teólogo, filósofo e mariólogo com formação pela Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. Segundo Boff, um dos documentos publicados ao final do Concílio Vaticano II (1962-65), o famoso encontro de bispos do mundo inteiro que soprou ventos de modernidade na Igreja, sintetiza bem a natureza excepcional da devoção de Maria. “Diz-se que ela foi uma mulher que peregrinou na penumbra da fé”, afirma o teólogo. Mesmo sem compreender tudo que seu filho dizia e fazia, ela acreditou na palavra de Deus e seguiu dando espaço para que Jesus passasse sua mensagem. “A proposta de Cristo era uma coisa misteriosa, chocou todo mundo e a ela também, mas ainda assim ela o acolheu”, explica.

São muitos os momentos na vida de Nossa Senhora que mostram extrema confiança no projeto divino, mas alguns merecem destaque. Um deles é a anunciação, quando o anjo Gabriel conta a Maria, virgem e noiva de José, que ela conceberia um bebê mantendo-se casta e que esta criança, que deveria se chamar Jesus, reinaria para sempre como Filho do Altíssimo. Diante da grandeza do que foi dito, Maria, embora assustada, aceitou o anúncio como a vontade de Deus e se colocou à disposição do projeto. É difícil imaginar o peso que essa mulher aceitou carregar. Jovem, pobre e prometida em casamento, ela estava grávida em um mundo onde a mulher adúltera – e essa suspeita recaiu sobre ela – era condenada publicamente à morte por apedrejamento. “E ela não assume esse papel como uma testemunha passiva da vontade divina”, lembra Luiz Alexandre Solano Rossi, pós-doutor em teologia e em história antiga. “Maria vive a missão ativamente e trabalha para que ela dê certo.”

Para Rossi, a visita de Maria à prima, também grávida, por intercessão divina, Isabel, no sexto mês de sua gestação, é exemplo claro da disposição da mãe de Cristo em participar do projeto de Deus e não apenas acompanhá-lo como espectadora. “É um prenúncio do protagonismo que ela terá na vida do filho”, afirma. A visita também tem um papel simbólico que fará de Isabel outra mulher importante na vida de Jesus, embora não se saiba se eles se conheceram pessoalmente. Foi no encontro com Maria que Isabel confirmou o projeto de Deus à prima ao anunciá-la como bendita entre as mulheres, além de bendizer o fruto de seu ventre. Para alguns exegetas bíblicos, estudiosos que esmiúçam o que diz o livro sagrado católico, a visita tem forte valor simbólico. Isabel, idosa e estéril, mas grávida de João Batista, representaria o passado que abre caminho e dá as boas-vindas ao novo, que é Maria, jovem e grávida de Jesus. “Entre os tradicionais e partidários mais radicais do judaismo, há quem diga que o Messias, na realidade, seria João Batista e não Jesus, já que o vínculo com o passado judaico do primeiro é mais forte que o do segundo”, afirma Rafael Rodrigues da Silva, professor de teologia da PUC-SP.

As dúvidas sobre o messianismo de Jesus o acompanharam sempre. Já adulto, durante suas peregrinações, Cristo teve de lidar inclusive com a desconfiança de homens de seu círculo mais íntimo. Com as mulheres que também o seguiam, porém, a situação era diferente. Do pouco que se sabe delas, fica claro que viviam a fé de forma plena. “Elas ajudavam a arcar com os custos do ministério de Jesus e a tocá-lo adiante sem questionamentos, o que mostra uma obediência saudável e importante naquele momento”, conta Binz, o biblista. O autor lembra ainda quão estranho devia ser, na época, ver um profeta circulando com um grupo de seguidores que incluía um número razoável de mulheres. Afinal, o gênero feminino, como os estrangeiros, os pobres e os doentes, vivia à margem da sociedade.

Foi esse espírito que fez engrossar a fileira de mulheres conhecidas e desconhecidas que acompanharam Jesus do início de sua peregrinação à crucificação. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são explícitos quanto à numerosa presença feminina na paixão e ao pé da cruz. A importância delas, aliada ao fato de que muitas não foram identificadas, alimentou uma verdadeira fábrica de lendas sobre o papel que elas tiveram nesses momentos definidores. Uma dessas narrativas conta a história de uma desconhecida que teria enxugado o suor do rosto de Cristo com um pedaço de tecido no caminho do Calvário. O pano teria ficado marcado com as feições de Jesus, antecipando o que aconteceria com o manto mortuário, reconhecido atualmente como Santo Sudário, a principal relíquia católica. Já a tal mulher desconhecida entrou para a história como Santa Verônica, nome atribuído a ela por significar “imagem verdadeira”.

Era de se esperar que o Novo Testamento – cujos principais textos foram redigidos por quatro homens nascidos e criados em uma cultura eminentemente patriarcal – pouco dissesse sobre as personagens que foram decisivas na trajetória de Cristo. Pudera, na dura descrição de Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), filósofo e cronista do tempo de Jesus, as mulheres estavam à frente apenas dos animais na estrutura social. Mas, contrariando a lógica de então, os relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João, compilados entre os anos 30 d.C. e 80 d.C., dão enorme importância à presença feminina. Especula-se que a proximidade temporal da influência de Jesus – que não fazia distinção entre homens, mulheres, ricos ou pobres –, associada à expectativa real de que o Messias retornaria em breve à terra para julgar os vivos e os mortos, povoasse o imaginário dos redatores dos evangelhos.

Com o passar do tempo, porém, o distanciamento das fontes primárias e a institucionalização da Igreja, o que se viu foi o contínuo afastar da presença feminina da vida e do legado cristão, de modo a espelhar a cultura patriarcal de onde ela veio. Um abandono lento, mas persistente do radicalismo inclusivo pregado por Jesus. “A organização e a hierarquização acabaram com o pluralismo das primeiras comunidades cristãs”, argumenta Silva, da PUC.

Mas o legado feminino deixado pelas mulheres contemporâneas de Jesus tem valor inestimável. Serviu de referência para o corpo de fiéis que começou a se formar nos primórdios do cristianismo e nos últimos dois mil anos teve papel fundamental na criação da identidade católica. O que começou com figuras com Lídia de Tiatira e Tecla de Icônio foi terminar em Madre Teresa de Calcutá, passando por Santa Teresa D’Ávila e Santa Juana Inés de la Cruz. Embora as mulheres ainda não gozem do prestígio e reconhecimento que tinham nos tempos de Cristo, a força das histórias daquelas que viveram a fé de forma plena, por meio de atos e palavras, deixou sua marca e continua estimulando mudanças estruturais. “Em pleno século XXI, temos uma igreja que, no que diz respeito às mulheres, ainda está na Idade Média”, protesta a teóloga feminista Yury Orozco. Vale ressaltar que os protestantes estão muito mais evoluídos neste quesito, com bispas ordenadas, inclusive. Que a luta pelo reconhecimento feminino, que já tem dois mil anos, não precise continuar por mais dois mil anos. Mas, se for esse o caso, não há nenhum sinal de que as mulheres vão esmorecer. E isso é ótimo.


Era de se esperar que o Novo Testamento – cujos principais textos foram redigidos por quatro homens nascidos e criados em uma cultura eminentemente patriarcal – pouco dissesse sobre as personagens que foram decisivas na trajetória de Cristo. Pudera, na dura descrição de Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), filósofo e cronista do tempo de Jesus, as mulheres estavam à frente apenas dos animais na estrutura social. Mas, contrariando a lógica de então, os relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João, compilados entre os anos 30 d.C. e 80 d.C., dão enorme importância à presença feminina. Especula-se que a proximidade temporal da influência de Jesus – que não fazia distinção entre homens, mulheres, ricos ou pobres –, associada à expectativa real de que o Messias retornaria em breve à terra para julgar os vivos e os mortos, povoasse o imaginário dos redatores dos evangelhos.

Com o passar do tempo, porém, o distanciamento das fontes primárias e a institucionalização da Igreja, o que se viu foi o contínuo afastar da presença feminina da vida e do legado cristão, de modo a espelhar a cultura patriarcal de onde ela veio. Um abandono lento, mas persistente do radicalismo inclusivo pregado por Jesus. “A organização e a hierarquização acabaram com o pluralismo das primeiras comunidades cristãs”, argumenta Silva, da PUC.

Mas o legado feminino deixado pelas mulheres contemporâneas de Jesus tem valor inestimável. Serviu de referência para o corpo de fiéis que começou a se formar nos primórdios do cristianismo e nos últimos dois mil anos teve papel fundamental na criação da identidade católica. O que começou com figuras com Lídia de Tiatira e Tecla de Icônio foi terminar em Madre Teresa de Calcutá, passando por Santa Teresa D’Ávila e Santa Juana Inés de la Cruz. Embora as mulheres ainda não gozem do prestígio e reconhecimento que tinham nos tempos de Cristo, a força das histórias daquelas que viveram a fé de forma plena, por meio de atos e palavras, deixou sua marca e continua estimulando mudanças estruturais. “Em pleno século XXI, temos uma igreja que, no que diz respeito às mulheres, ainda está na Idade Média”, protesta a teóloga feminista Yury Orozco. Vale ressaltar que os protestantes estão muito mais evoluídos neste quesito, com bispas ordenadas, inclusive. Que a luta pelo reconhecimento feminino, que já tem dois mil anos, não precise continuar por mais dois mil anos. Mas, se for esse o caso, não há nenhum sinal de que as mulheres vão esmorecer. E isso é ótimo.

Mas era na margem que Jesus caminhava e foi lá que ele encontrou outra mulher que seria fundamental em sua vida: Maria de Magdala, também conhecida como Maria Madalena. Exorcizada por ele de sete demônios, ela passou a segui-lo e se tornou seu braço-direito no ministério. Jesus deu inúmeras demonstrações de confiança a Maria Madalena – boa parte registrada nos evangelhos canônicos e outra contada nos chamados apócrifos, escritos que datam quase em sua totalidade do século III, mas que não foram incluídos na “Bíblia”. Ela é chamada de apóstola dos apóstolos, por exemplo, e chega a despertar ciúmes nos homens que seguem Cristo. A mais poderosa das demonstrações de confiança do Messias em Madalena, e, por extensão, nas mulheres, foi o fato de tê-la escolhido para ser a primeira testemunha de sua ressurreição, o momento definidor da fé católica. Foi ela quem viu e anunciou aos apóstolos que Jesus havia aparecido a ela ressuscitado.

A predileção de Cristo por Maria Madalena é tamanha que ela semeou especulações de que ambos teriam se envolvido romanticamente. A tese foi explorada, virada e revirada nos últimos dois mil anos e certamente continuará rendendo histórias, como a contada por Dan Brown no best seller “O Código da Vinci”, de 2003. Em certa medida, a recusa em aceitar que não houve romance entre os dois mostra que a natureza da mensagem de amor incondicional não necessariamente romântico de Jesus continua sendo revolucionária e de difícil compreensão. “A figura de Maria Madalena traz uma crítica aos códigos de pureza e mostra, na prática, o quanto a mensagem de amor de Jesus é para todos”, explica o padre Marcio Fabri dos Anjos, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.

E cada um vive a devoção à sua maneira. A história de outras duas mulheres próximas de Jesus na “Bíblia” é exemplo disso. Marta e Maria, irmãs de Lázaro, têm dois encontros importantes com o Messias. E o primeiro é representativo das diferentes naturezas que a fé pode ter. Nele, as mulheres recebem Jesus, que circulava pela região de Betânia, na casa onde moravam. Ao ver o Messias, Maria abandonou os afazeres domésticos e se sentou aos pés de Cristo para ouvi-lo. Na tradição de então, sentar aos pés de alguém é postura clássica do aluno diante do mestre. Já Marta repreendeu a irmã e Jesus por tê-la deixado sozinha com as obrigações do lar. “Há quem coloque as duas em oposição – uma certa e outra errada”, explica o teólogo Rossi. “Na verdade as atitudes se complementam.” Maria representaria a porção contemplativa da fé, enquanto Marta a prática.

Nem todos, porém, concordam com esse entendimento do episódio. Os defensores do protagonismo de Maria sobre Marta argumentam, por exemplo, que, ao se sentar aos pés de Jesus, ela questiona a função feminina, abandonando as regras que a amarravam aos afazeres domésticos. A outra, alheia à boa nova, continuaria muito ligada às tradições com as quais Jesus pretendia quebrar. Ainda assim, dizem os ardorosos defensores de Marta, sobraria uma função importante para ela. Sendo dela a responsabilidade sobre o lar – e o lar, na igreja primitiva, era onde a fé cristã era praticada clandestinamente –, ela surgiria como a grande autoridade do espaço de fé. “Em última instância, essas mulheres são importantes por que mostram que não existe só um modelo de mulher na nascente comunidade cristã”, lembra Rossi. “Elas têm liberdade para escolher o que querem ser.”

Fonte: Revista ISTO É - Edição 2146 - 29/12/2010

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A importância de planejar o ensino - Ensinador Cristão - Pr. Marcos Tuler



Sem organização, grande parte da eficácia de seu ensino pode ser prejudicada
Alguém já disse que “Prever é a melhor garantia para bem governar o curso futuro dos acontecimentos”; “O plano de ação é o instrumento mais eficaz para o sucesso de um empreendimento.” “Prever é agir”. É o primeiro passo obrigatório de toda ação construtiva e inteligente. Pelo planejamento, o homem evita ser vencido pelas circunstâncias, e aprende a aproveitar as novas oportunidades.

O planejamento é imprescindível em qualquer atividade humana, especialmente no que diz respeito à educação. Nesta área, ele se concretiza num programa de ação que constitui um roteiro seguro para conduzir progressivamente os alunos aos resultados desejados. A responsabilidade do mestre é imensa. Grande parte da eficácia de seu ensino depende da organicidade, coerência e flexibilidade de seu planejamento.

Em relação ao ensino, planejar significa prever de modo inteligente e bem calculado todas as etapas do trabalho escolar e programar racionalmente todas as atividades, de modo seguro, econômico e eficiente. Em outras palavras, planejamento é a aplicação da investigação científica à realidade educacional a fim de melhorar a efi ciência do trabalho de ensino.

I. Características de um bom planejamento de ensino

1. Unidade

No planejamento, é fundamental fazer convergir todas as atividades para a conquista dos objetivos visados; eles são a garantia de unidade da operação docente.

2. Continuidade

Sem planejar o professor corre o risco de perder o fio da meada, dispersando-se e valorizando pontos secundários em detrimento de pontos prioritários da matéria. O professor precisa prever todas as etapas do trabalho em pauta, desde a inicial até afinal.

3. Flexibilidade

Se durante a execução do planejamento, o professor perceber a impossibilidade de cumpri-lo em razão de um imprevisto qualquer, poderá alterá-lo sem problema, desde que não se distancie dos principais objetivos. O plano, mesmo em marcha, pode ser modificado ou reajustado sem quebra de sua unidade e continuidade.

4. Objetividade e realismo

O plano deve ser objetivo e estar baseado nas condições reais e imediatas de local, tempo, recursos, capacidade e preparo de seus alunos. De que adianta planejar a utilização de recursos didáticos de alta tecnologia se na sua Escola Dominical não há possibilidade sequer de ter um quadro-de-giz? Se esse for o caso, o planejamento, baseado na irrealidade, só causará frustração.

5. Precisão e clareza

É preciso caprichar nos enunciados do planejamento. O estilo deve ser sóbrio, claro, preciso, com indicações exatas e sugestões bem concretas para o trabalho a ser realizado. Um planejamento com enunciados mal elaborados, poderá dificultar a tomada de decisão.

II. Etapas do planejamento de ensino

1. Conhecimento da realidade

Para planejar adequadamente a tarefa de ensino e atender às necessidades do aluno, é preciso, antes de mais nada, saber para quem se vai planejar. Por isso, conhecer o aluno e seu ambiente é a primeira etapa do processo de planejamento. É preciso saber quais são suas aspirações, frustrações, necessidades e possibilidades. Este trabalho é conhecido como sondagem, isto é, uma coleta de dados importantes para um perfeito diagnóstico. Uma vez realizada a sondagem e o diagnóstico, deve o professor estudar cuidadosamente todas as informações reunidas a fim de elaborar com segurança sua estratégia de trabalho.

Sem a sondagem e o diagnóstico corre-se o risco de propor o que é impossível, ou o que não interessa ou, ainda, o que já foi alcançado. Eis algumas perguntas úteis ao planejamento de um curso para novos convertidos: Onde você mora? Com quem vive? Como você se relaciona com a comunidade? Qual era a sua religião antes de aceitar a Cristo como Salvador? É a primeira vez que você se decide ao lado do Senhor? Você já foi membro de alguma igreja evangélica antes? Muitas outras informações poderão ainda ser coletadas: histórico familiar, nível sócio-econômico, cultura, valores étnicos, aptidões, necessidades pessoais, limitações físicas etc. Observe o esquema abaixo.

Sondagem + Dados coletados + Diagnóstico = Conhecimento da realidade = Estratégia de Trabalho

2. Elaboração do plano

A partir dos dados fornecidos pela sondagem e interpretados pelo diagnóstico, temos condições de estabelecer o que é possível alcançar, como fazer para alcançar o que julgamos possível e como avaliar os resultados. O planejamento poderá ser elaborado a partir dos seguintes passos:

a) Determinação dos objetivos.
b) Seleção e organização dos conteúdos.
c) Seleção e organização dos procedimentos de ensino.
d) Seleção de recursos.
e) Seleção de procedimentos de avaliação.
f) Estruturação do plano de ensino.

3. Execução do plano

Ao elaborarmos um planejamento, antecipamos, de forma organizada, todas as etapas do trabalho de ensino. A execução do plano consiste no desenvolvimento das atividades previstas. Na execução, sempre haverá o elemento não plenamente previsto. Às vezes, a reação dos alunos ou as circunstâncias do ambiente exigirão adaptações e alterações no plano. Isto é normal e não invalida o planejamento, pois, como já dissemos, uma das características de um bom planejamento é a flexibilidade.

4. Avaliação e aperfeiçoamento do plano

Ao executar o que foi planejado, necessita o professor avaliar o próprio plano com vistas ao replanejamento. Nesta fase, a avaliação adquire um sentido diferente da verificação do ensino-aprendizagem e um significado mais amplo. Isso porque, além de medir os resultados do ensino-aprendizagem, procuramos avaliar a qualidade do nosso plano, nossa eficiência como professores e, a eficiência do currículo. Há vários tipos de Planejamento: o educacional, mais amplo, faz parte das incumbências do Governo; o curricular é de responsabilidade das instituições de ensino; os de ensino, unidade e aula, são da alçada de cada professor. Para o fim que desejamos, abordaremos apenas, e de forma sucinta, o planejamento de aula.

Confira na próxima edição a segunda e última parte deste artigo.
Marcos Tuler é pastor, pedagogo, escritor e reitor da Faecad (Faculdade Evangélica de Ciência e Tecnologia das Assembleias de Deus).

Fonte: Ensinador Cristão, Número 45, Ano 12, jan-fev-mar / 2010, Página 44, CPAD