segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A igreja e a teologia



É comum ouvirmos que “a teologia mata a religião” ou que “a Igreja não precisa de teologia e, sim, de vida”. Serão verdadeiras essas afirmações? Admitimos que há muita coisa por aí levando o nome de “teologia” que não passa de especulação humana, por não se basear em pressupostos de uma hermenêutica bíblica. E até a “boa teologia”, quando se torna um fim em si mesma, pode não ter qualquer uso prático e reduzir-se a mero academicismo. Não é disto que falamos aqui. Perguntamos se a verdadeira Teologia é necessária à Igreja.

E o que é verdadeira Teologia? Como o próprio nome indica, Teologia é o estudo de Deus, ou, definindo mais formalmente, “é a ciência que trata de Deus em Si mesmo e em relação com a Sua obra” (B.B. Warfield). Perguntamos, por conseguinte, se a Igreja pode prescindir do conhecimento de Deus e da Sua obra e ainda ser Igreja de Deus. É quase certo que aqueles que negam a necessidade da Teologia na vida da Igreja não diriam, conscientemente, que alguém pode ser cristão sem conhecer a Deus. O que lhes falta é um bom conhecimento do que é Teologia e de suas implicações.

Como podemos conhecer a Deus sem estudar a revelação que Ele faz de Si mesmo? Como saber quem Ele é e o que Ele tem feito e faz, quem somos nós em relação a Ele, o que Ele requer de nós,etc., se não investigarmos o que Ele deixou revelado para nosso conhecimento? Pois esse é o trabalho da Teologia. Esse trabalho parte de três pressupostos: O primeiro é o de que Deus existe; o segundo, de que Ele pode ser conhecido, embora não de modo exaustivo e completo; e o terceiro, de que Ele tem Se revelado tanto por meio de Suas obras (criação e providência - Revelação Geral - Sl19:1,2; At 14:17), como, principalmente, nas Santas Escrituras (Revelação Especial - Hb1:1,2; 1 Pd 1:20,21). É porque Deus Se revelou que podemos conhece-Lo. Nosso conhecimento de Deus não é intuitivo, nem natural, mas comunicado por Ele mesmo através dos meios que soberanamente escolheu. “Fazer teologia”, portanto, não é inventar teorias a respeito de Deus e de Suas obras, nem mesmo “descobrir” a Deus, mas conhecer e compreender a revelação que Ele próprio deu de Si. Por isso, qualquer estudo de Deus que não tiver a Sua revelação como base, meio e princípio regulador não é “teologia”, devidamente entendida.

A palavra “teologia” não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é equivalente, no N.T., é “doutrina” ( “didache” ou “didaskalia”, no grego), que vem de uma raiz que significa “ensinar” e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente, como ao conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9, etc.). Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A essa forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de “Teologia Sistemática”. O adjetivo aqui, não altera o conceito de “teologia”.

Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina. Mas voltemos ao nosso tema. Duas são as razões geralmente apresentadas para se dizer que a Igreja não precisa de Teologia. Elas se baseiam em duas falsas antíteses:
1. A primeira é a suposição de que o Cristianismo se baseia em fatos e não em doutrinas

Concordamos que nossa salvação não repousa sobre um conjunto de teorias ou idéias, mesmo que extraídas corretamente da Bíblia, a que damos o nome de “doutrina”, mas sobre os atos poderosos e eficazes do nosso soberano Deus. Não somos salvos através de uma correta teoria a respeito da pessoa de Cristo, mas pela própria pessoa de Cristo; nem através de um exato entendimento da doutrina da Expiação, mas pelo próprio ato expiatório. É possível alguém ser “bom teólogo”, nesse sentido, e ainda não experimentar as graças ensinadas nas doutrinas que expõe. A doutrina realmente não salva. A obra de Cristo, devidamente aplicada pelo Espírito no coração do crente, é que assegura essa graça. Seu nascimento sobrenatural, Sua vida de perfeita obediência à Lei, Sua morte substitutiva, Sua ressurreição, Sua ascensão e assentamento à direita do Pai, Sua segunda vinda, são os grandes fatos que tornam garantida a salvação dos eleitos.

Mas como sabemos que esses são os fatos? Que sentido teriam esses acontecimentos se não tivessem sido interpretados? É a doutrina que lhes dá sentido. Como viemos a saber que aquele menino que nasceu em Belém é o Filho de Deus? Por que descansamos na eficácia da Sua morte para a expiação dos nossos pecados? Por que sabemos que a Sua ressurreição, há dois mil anos atrás, garante a nossa justificação? É porque esses fatos são todos explicados e interpretados pela doutrina. Esta não só informa o fato como também dá o seu significado. A doutrina não salva, mas pode tornar o homem sábio para a salvação (2Tm 3:15). Doutrina sem fato é mito, mas fato sem doutrina é mera história.

O Cristianismo, portanto, consiste em “fatos que são doutrinas e doutrinas que são fatos”, na expressão de B.B. Warfield. Ele diz: “A Encarnação é uma doutrina: nenhum olho viu o Filho de Deus descer dos céus e entrar no ventre da virgem; mas se isso não for um fato histórico também, nossa fé é vã e permanecemos ainda em nossos pecados”( Selected Shorter Writings, vol 2, p. 234). Fato e doutrina se complementam no Cristianismo. Quando João diz: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14), não está apenas apresentando um fato; está explicando-o também. Quando Paulo afirma que Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões,e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4:25), de igual modo está dando uma interpretação aos fatos da morte e ressurreição de Cristo. Isto é o que se vê em toda a Escritura, especialmente nas epístolas.

Até mesmo os fatos manifestos na natureza (Revelação Geral) não seriam devidamente compreendidos se não fossem explicados pela Bíblia (Revelação Especial). Podemos hoje entender que “os céus manifestam a glória de Deus” (Sl 19:1) porque o Criador nos tem revelado isso na Sua Palavra. Sem essa explicação, sua mensagem (a dos céus) passaria despercebida e eles poderiam até ocupar o lugar do Criador, gerando a idolatria (devido ao pecado), como lemos em Rm 1:18-32. Não é o acontece quando as pessoas dizem que “a natureza é sábia”, ou quando a chamam de “mãe natureza”?. Sem a revelação do Criador, a criatura toma o seu lugar. Daí dizer-se que para se conhecer a Deus é preciso que Ele fale, e não somente que Ele aja.

Concluímos, portanto, que os fatos só têm sentido quando acompanhados da doutrina. Nem é pertinente perguntar qual dos dois é mais importante. Seria o mesmo que indagar qual das duas pernas é mais importante para o nosso caminhar. O ensino da doutrina é uma das ênfases da Bíblia (1Tm 3:2; 2Tm 2:2; Tito 1:9; Ef 4:11), pois sem ela não existe verdadeiro Cristianismo.

2. A segunda é a suposição de que o Cristianismo consiste em vida, não em doutrinaPor trás dessa afirmação podem estar raízes do conceito filosófico que exalta o misticismo, as emoções, o sentimento religioso do homem, e que procura eliminar da religião todo apelo ao intelecto, à razão. “Religião é vida e a vida é dinâmica, fluente; a doutrina é estática, fria, e, portanto, não pode ser compatível com o caráter do Cristianismo”, dizem. Aqueles que assim pensam até admitem um certo tipo de doutrina, desde que mutável, adaptada sempre à dinâmica da vida e conformada às “necessidades” da época e do lugar onde a vida do Cristianismo se manifesta. Até chamam a isso de “teologia contemporanizada” ou “contextualizada”. Segundo esse ponto de vista, não é a doutrina que deve dirigir a vida, mas esta àquela. “A letra mata, mas o espírito vivifica”, argumentam. A prática (práxis) é colocada acima da doutrina não só em importância, mas também no tempo: a doutrina passa a ser um produto da vida cristã, não a sua norma. Há até quem interprete assim a célebre divisa: “Igreja reformada sempre se reformando”.

Mas será essa a visão bíblica do Cristianismo? Podemos dizer, com base na palavra de Deus, que o Cristianismo é vida e não doutrina, ou, primeiramente vida, depois doutrina? Existe tal antítese? Se essa posição for verdadeira, então não haverá verdade absoluta, nem princípio fixo, nem revelação objetiva. Tudo cairá no campo dos valores relativos e passará a depender do subjetivismo, da “piedade”, das emoções. Não admira que haja tanta “fluidez” e instabilidade entre os que assim pensam, e que sejam facilmente levados “por todo vento de doutrina”. Para estes, a doutrina é o que menos interessa.

Concordamos também que Cristianismo é vida, e graças a Deus por isso! Onde a vida não se manifesta, nos moldes escriturísticos, falta a alma da verdadeira religião. Mas devemos ou podemos prescindir da doutrina para que essa vida se manifeste? Antes de tudo, é a verdade de Deus relativa? Depende o seu valor do lugar e da época em que se encontram os homens? Sabemos que esta é a posição atual dos que se denominam pluralistas e esse é o pressuposto básico desta posição. Será que aquilo que foi deixado por Paulo e pelos outros apóstolos como doutrina para os seus dias deveria ser mudado nos dias de Agostinho, depois nos dias de Lutero e Calvino, depois nos dias de Warfield e dos Hodge e, assim, sucessivamente, até os nossos dias, para dar lugar às manifestações de vida? Não creio que a Bíblia justifique essa posição nem que esses teólogos a tenham entendido assim. O princípio de que “a Igreja reformada deve estar sempre se reformando” visa manter sempre a mesma posição em relação à verdade, não alterá-la, para que seja aplicável em todas as épocas. É para que continue sempre sacudindo de si toda tradição e acréscimo humano que não estejam de acordo com os valores fixos e absolutos da palavra de Deus. Reformar é voltar às origens, ao que foi intencionado no princípio por Deus. E não há outra forma de se fazer isto a não ser pela doutrina.

Foi a doutrina bíblica, tão bem exposta pelos reformadores e tão negligenciada pela Igreja, que a trouxe de volta às origens e lhe recuperou a vida, no século XVI. Foi a falta da verdadeira doutrina que enfraqueceu a Igreja e a lançou num tradicionalismo vazio e pagão. É a correta aplicação da doutrina que produz a verdadeira vida cristã. Não basta apenas um sentimento religioso para fazer de um homem um cristão. É preciso que sua vida seja moldada na doutrina de Cristo.É a doutrina que dá característica à vida.

Sem dúvida, não estamos afirmando que apenas a doutrina, independente da obra santificadora do Espírito, produz vida. A doutrina é, isto sim, o meio que o Espírito soberanamente usa para nos fazer conhecer a vontade de Deus e nos levar a praticá-la. É através dela que ficamos sabendo que a vontade de Deus é a nossa santificação e que, sem esta, ninguém verá o Senhor ( 1 Ts 4:3; Hb 12:14). É ela que nos aponta os meios de graça deixados pelo próprio Senhor, que é quem nos santifica (Lv 20:7-8; Ef 5:26). Nas epístolas paulinas, a íntima relação entre doutrina e prática é evidenciada pelo seu método de apresentar primeiro a argumentação teológica (doutrinária) para depois tirar as implicações práticas dela decorrentes (Ex. Rm 1-11: doutrina; 12-16: prática). Isso se torna ainda mais claro na oração sacerdotal de Cristo, em que Ele associa a prática da santificação com a doutrina da Palavra: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 15 :17) e em João 7:17, onde o fazer a vontade de Deus está ligado ao conhecer a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo”.

O conhecimento de Deus começa pela porta do intelecto, da razão, para depois pervadir todas as áreas do ser e se transformar em manifestações de vida que O agradem e glorifiquem. Por isso, o ensino da doutrina é indispensável na Igreja, tanto através do púlpito como pelos estudos semanais, pela Escola Dominical e por qualquer outro meio disponível. Nossa demonstração de vida pode impressionar as pessoas e despertar nelas certa admiração, mas é pela pregação da Palavra que vem a fé que transforma (Rm 10:7) A espada do Espírito é a Palavra (Ef 6:17).

Conclusão:
Concluímos, portanto, que a Igreja precisa da Teologia, porque precisa da doutrina nela contida para dar sentido e expressão aos fatos do Cristianismo e para prover os meios de manifestação da verdadeira vida cristã.

Texto de João Alves dos Santos. Disponível em Fonte: http://somente-jesus.blogspot.com/2010/06/igreja-precisa-de-teologia.html

terça-feira, 26 de julho de 2011

A questão do apelo após a pregação



O pastor encerra seu sermão: “O Espírito Santo convida você a vir. A congregação orando, esperando ansiosa, convida você a vir. Na primeira nota da primeira estrofe, desça as escadas, desça por estes corredores. Que os anjos possam acompanhá-lo. Que o Espírito Santo de Deus o encoraje. Que a presença de Jesus caminhe ao seu lado enquanto você vem, enquanto nós permanecemos em pé e cantamos ao Senhor”. E as pessoas realmente vêm. Semana após semana, em igrejas por todo o mundo, cenas como essa acontecem ao fim de milhares de sermões. A congregação fica em pé e canta; os pecadores caminham pelos corredores e oram por salvação.

Este método evangelístico bem comum, conhecido como sistema de apelo, não foi sempre assim. Evangelistas bem-sucedidos como George Whitefield, Jonathan Edwards e John Wesley nunca fizeram um chamado ao altar. De fato, eles nem sequer sabiam o que era isso. Eles convidavam seus ouvintes apaixonadamente para vir a Cristo pela fé e aconselhavam regularmente os pecadores ansiosos depois dos cultos. Mas não lhes pediam para dar uma resposta pública ou física após os sermões evangelísticos. Então, de onde vem esta prática?

Inicialmente, o apelo era usado como um meio eficiente de reunir pessoas espiritualmente interessadas em se juntarem para aconselhamento após um sermão. Em vez de procurar os penitentes um a um, o pregador os chama à frente, ou a outra sala, para conversar e orar. Alguns pastores usaram este recurso no fim da primeira década do século 18, mas apenas durante os encontros campais do segundo grande despertamento da América foi que eles realmente ganharam espaço.

Os encontros campais eram comuns em Estados de fronteiras, como Kentucky e Tennessee, por volta do começo do século 19. Estas reuniões que duravam alguns dias eram um meio de os ministros (a maioria metodista, batista, presbiteriana e discípulos) introduzirem o evangelho aos colonos rurais. As primeiras reuniões campais foram feitas com pregações apaixonadas e respostas extremas. Centenas de ouvintes gritavam, gemiam, desmaiavam, contorciam-se e choravam desesperadamente. Os pregadores geralmente viam estas respostas como evidência da obra do Espírito Santo.

Por volta de 1805, estes movimentos corporais espontâneos eram menos comuns. Os ministros faziam um “apelo” como um meio visível de medir a resposta das pessoas às suas mensagens. Os “altares” eram áreas cercadas perto do lugar principal de pregação no campo onde os pregadores desafiavam os pecadores a buscar a salvação. O pregador metodista Peter Cartwright descreveu um encontro campal em 1806: “O altar estava cheio de gente transbordando em lamentos”. Outro pregador metodista contou detalhadamente o momento em que “o cercado estava tão cheio de gente que as pessoas não tinham a possibilidade de fazer qualquer movimento lateral, mas estavam literalmente cambaleando em massa”. Os metodistas experimentaram um crescimento exponencial durante os primeiros do século 19, em parte por causa de seus métodos evangelísticos, incluindo os encontros campais e os apelos públicos.

Muitas pessoas consideram Charles Grandison Finney (1792-1875) o “pai do apelo”. Ordenado ministro presbiteriano em 1823, Finney começou a fazer os convites públicos muito tempo depois de os metodistas já terem feito desse método parte regular de seus encontros campais. Finney, entretanto, fez mais que qualquer outro para estabelecer os apelos como uma prática aceitável e popular no evangelismo americano. Ele normalmente chamava os pecadores ansiosos até a frente da congregação para se sentarem no “banco dos ansiosos”. Ali, eles recebiam oração e geralmente ouviam um sermão individual. O apelo também foi uma das famosas “novas medidas” de Finney. Ele estava convencido de que os pastores poderiam produzir avivamento usando os métodos corretos e que, chamar pecadores arrependidos à frente “era necessário para tirar [os pecadores] do meio da massa de ímpios para levá-los a uma renúncia pública de seus caminhos pecaminosos”.

Enquanto muitos abraçaram as “novas medidas” de Finney, outros estavam desconfiados da teologia que sustentava a prática. Finney acreditava que a morte de Cristo tinha tornado a salvação possível para todos. A depravação humana era “uma atitude voluntária da mente”, e não algo que tinha nascido conosco. A conversão, portanto, dependia da vontade humana ser convencida a se arrepender e confiar em Cristo. De acordo com Finney, o apelo era uma ferramenta muito persuasiva para mudar a vontade humana. Ministros calvinistas, como Asahel Nettleton, rejeitaram a confiança que Finney tinha na capacidade humana e sua dependência no sistema de apelo. Eles acreditavam que o ser humano nasceu com uma natureza pecaminosa. Os pecadores eram incapazes de confiar em Cristo até que Deus mudasse seus corações. O historiador Iain Murray aponta que muitos oponentes ao apelo “alegavam que o chamado para uma ‘resposta’ pública confundia um ato externo com uma mudança espiritual interna”. Além disso, diz Murray, o apelo efetivamente “instituiu uma condição de salvação que nunca apontava para Cristo”. Os críticos argumentam que o evangelismo dessa forma resultou em uma falsa segurança, já que uma grande parcela daqueles que iam à frente para “receber a Cristo” logo apostatavam.

A despeito das críticas, o sistema de apelo continua com força. Tornou-se um artefato permanente no evangelismo americano. Só é preciso assistir a alguns poucos minutos de uma cruzada de Billy Graham na televisão para reconhecer que aquilo que um dia foi uma “nova medida” se tornou uma tendência dominante. A voz distinta de Graham chama em alto som: “Suba ali, desça aqui, eu quero que você venha. Se você estiver com parentes e amigos, eles vão esperar por você. Os ônibus vão esperar por você. Cristo percorreu todo o caminho da cruz porque Ele o amava. Certamente você pode dar alguns passos e dar sua vida a Ele”. Enquanto o local deixou de ser a remota Kentucky e se transferiu para os modernos estádios de futebol, e o meio de transporte evoluiu de carroças cobertas para ônibus fretados, o sistema de apelo resistiu. É caracterizado até hoje nas histórias de incontáveis cristãos que contam ter encontrado Cristo quando ficaram em pé, ergueram suas mãos, deram passos até a frente e chegaram ao altar, respondendo ao apelo.

fonte: http://www.cristianismohoje.com.br

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Em defesa da Teologia

Em meados do segundo século, um cristão procedente do Ponto, na Ásia Menor, chegou a Roma com uma mensagem atraente. Márcion, que era filho de um bispo, acreditava na radicalidade do amor de Deus. Para ele, a bondade era o atributo supremo da divindade, que se mostrava sempre, em todas as circunstâncias, um Deus generoso, misericordioso e perdoador. Como alguém poderia discordar de conceitos tão nobres e belos? Pois bem, pouco tempo depois, ao compreender as implicações mais amplas desse ensino, a igreja romana expulsou Márcion e o considerou um herege.
Para ele, o amor divino era tão exclusivo que eliminava a noção de justiça. Deus perdoa a todos, até mesmo os pecadores impenitentes, porque não pode agir de outra forma. Assim, não há condenação de qualquer espécie, e todos irão se salvar. O Deus verdadeiro, dizia ele, é o amoroso pai de Jesus Cristo, e não a divindade justiceira e vingativa do Antigo Testamento, o criador do mundo material. A doutrina de Márcion se mostrou tão cativante que ele atraiu um grande número de seguidores. Chegou a surgir uma igreja marcionita, que subsistiu por vários séculos.

Nem tudo que reluz

O caso de Márcion ilustra o fato de que não basta uma doutrina ou teologia ser atraente e popular. Não é suficiente que ela seja “lógica” e satisfaça as expectativas e preferências das pessoas. É preciso que ela seja verdadeira, coerente com a revelação dada por Deus nas Escrituras. Apesar de todo o seu aparente encanto, a teologia de Márcion se revelou falsa, uma perversão da mensagem bíblica. Esse fenômeno tem se repetido inúmeras vezes ao longo da história e continua a ocorrer nos dias atuais. Os ensinos são outros, os personagens são diferentes, mas o mecanismo é o mesmo.

Qual a origem dessas distorções? Em primeiro lugar, a tendência humana para o subjetivismo. A teologia é, por sua própria natureza, um empreendimento humano. Sua tarefa é refletir sobre os dados da revelação em busca de uma compreensão mais clara de Deus, do ser humano, da salvação e de todos os grandes temas da Escritura. No entanto, ela corre o risco de se tornar um esforço excessivamente personalista, gerando desvios antigos e novos bem conhecidos. Os reformadores do século 16 estavam conscientes desse perigo, ao insistirem que a teologia se apoiasse explicitamente na Palavra de Deus, corretamente lida e interpretada. Para tanto, elaboraram métodos saudáveis e equilibrados de exegese bíblica.

Respeito pela história

Mesmo que uma teologia seja bíblica, podem existir problemas. A Bíblia já foi utilizada, por exemplo, para defender a poligamia e a escravidão. A hermenêutica da Escritura pode ser excessivamente condicionada por estreitos pressupostos ideológicos. Daí a preocupação dos reformadores em valorizar a experiência teológica e exegética da igreja, acumulada ao longo das gerações. Ao mesmo tempo em que rejeitaram os dogmas para os quais não encontravam suporte na Palavra de Deus, Lutero, Calvino e seus colegas não hesitaram em acolher e utilizar tudo aquilo que viam de positivo no passado cristão.

O que tem acontecido com frequência no decorrer dos séculos, e também em nossos dias, é que muitos pensadores desprezam solenemente as contribuições do passado e a maneira como os cristãos têm entendido seu legado espiritual -- a chamada “fé cristã histórica”. Um bom exemplo é a própria doutrina de Deus, que tem experimentado as mais diferentes reinterpretações nos últimos tempos. Sob o pretexto de que a própria Bíblia ou a reflexão da igreja antiga foi contaminada pelo pensamento filosófico grego, são feitas reavaliações radicais acerca do ser divino. Um exemplo recente é o chamado teísmo aberto, que se afasta da compreensão cristã tradicional de Deus -- e do testemunho claro das Escrituras -- ao questionar as ideias da soberania e da providência divinas, e ao dar à liberdade humana uma dimensão e uma autonomia que o pensamento cristão majoritário jamais reconheceu.

Cuidado com as motivações

O marcionismo tinha motivações muito nobres: ressaltar a grandeza do amor de Deus e sensibilizar o mundo pagão com a mensagem cristã. O mesmo se pode dizer de outra heterodoxia cristã da antiguidade -- o pelagianismo. Pelágio queria que os cristãos vivessem vidas consagradas e santificadas. Quem poderia ser contra isso? No entanto, logo ficou evidente o fosso que havia entre suas ideias e o testemunho da Escritura. Para ele, o ser humano é moralmente neutro, tendo a plena capacidade, sem qualquer auxílio especial de Deus, de viver uma vida virtuosa, isenta de pecado. Muito bonito, muito empolgante, mas muito errôneo, como bem demonstrou o ilustre bispo Agostinho de Hipona.

Hoje, as motivações de muitas teologias vão do nobre ao questionável. No caso da nefasta teologia da prosperidade, o que ocorre é simplesmente uma sujeição da Escritura aos valores materialistas e hedonistas da sociedade de consumo. Já o teísmo aberto e os outros movimentos de inspiração semelhante são motivados pela necessidade legítima de lidar com uma realidade aflitiva -- o mal e o sofrimento no mundo de um Deus bom. O problema está, utilizando um chavão bem conhecido, em “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. Em outras palavras, no esforço de explicar ao homem moderno uma questão espinhosa, são desprezados valores importantes da herança cristã. Procura-se alcançar um objetivo importante mediante o sacrifício da verdade bíblica.

Conclusão

A teologia é uma tarefa imprescindível e absolutamente essencial para o povo de Deus. Como a Escritura não apresenta formulações precisas e sistemáticas, coube à igreja se debruçar sobre os dados da revelação e organizar de forma coerente e harmônica suas verdades centrais. Sem a boa teologia, calcada numa exegese criteriosa do texto sagrado, os cristãos ficam à deriva em um mar de opiniões conflitantes a respeito de tudo. A fim de que seja benéfica para a igreja e para o testemunho cristão, a reflexão teológica tem de observar certos parâmetros, a começar de uma profunda reverência por Deus e sua Palavra. Além disso, ela não deve ser um exercício individualista, mas um esforço conjunto de cristãos que dialogam ao mesmo tempo com seus contemporâneos e com a “nuvem de testemunhas” do passado. Finalmente, o objetivo primário da teologia não é satisfazer os anseios ou dirimir as angústias do homem contemporâneo, mas ser fiel àquele que, em sua Palavra e em seu Filho, vem a nós em julgamento e graça.

Texto: Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br

Edição 330 – Revista Ultimato

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Armadilha Hermenêutica



Há uma necessidade urgente e gritante de conhecimento mais aprofundado sobre a interpretação da Bíblia

Amaioria dos mais informados vai concordar que atravessamos um cenário complicado no evangelicalismo brasileiro. Todos sabem que a Igreja cresceu demais nas últimas décadas, mas ela ainda busca amadurecimento. Movimentos mais contextualizados e grupos voltados para a evangelização do país coloriram o cenário nos últimos anos. Todavia, tanta euforia e eferverscência também é sinal de atenção. O fato é que a Igreja nacional precisa achar um ponto de equilíbrio entre quantidade e qualidade. E sem o estudo sério e fundamentado da Palavra de Deus, teremos problemas insolúveis a curto prazo em nossa realidade protestante tupiniquim. Infelizmente, ainda há grupos em nosso contexto de fé que desprezam o preparo teológico; outros são tão estranhos que vivem na fronteira entre as categorias de seita e denominação.

Ninguém pode negar que essa tarefa de consolidação da Igreja brasileira passa necessariamente pela referência máxima da cristandade e dos evangélicos: as Escrituras Sagradas. A compreensão da Bíblia é absolutamente fundamental para que se tenha uma Igreja séria e cristãos espiritualmente saudáveis. Por incrível que pareça, o sinal de que nem tudo vai bem neste cristianismo “tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” é que há muitos textos lidos e enfatizados em nossa tradição evangélica que são mal compreendidos, gerando inclusive crises e problemas pessoais em muitos cristãos sérios e sinceros.

Muita gente tem sofrido com seus familiares ao ler o conhecidíssimo texto de Atos 16.31: “Crê no Senhor Jesus, e tu e tua casa sereis salvos” (Versão Almeida 21). O problema desse texto é que muitas pessoas pensam que estamos diante de uma promessa divina de que todos os nossos parentes próximos serão salvos mediante a nossa fé. A verdade é que tal trecho não ensina isso! Em primeiro lugar, é importante destacar que, como texto narrativo histórico, o versículo não pretende ser normativo – ou seja, o relato de alguma coisa que acontece não é necessariamente norma para toda a Igreja. Logo, aqui vemos uma promessa que foi dada ao carcereiro de Filipos, e não a todos! Foi dito que ele e “os de sua casa” (NVI) seriam salvos. No caso específico, isso talvez tivesse incluído servos ou empregados, já que a “casa” de alguém nos tempos bíblicos incluía gente que não era da família de sangue do proprietário.

A verdade é que ninguém pode assegurar a conversão de seus parentes com base neste texto. Se esse fosse o caso, nenhum crente veria um parente próximo morrer sem converter-se a Jesus – mas sabemos que isso não se verifica. Além disso, o próprio Senhor deixou claro que muitos cristãos até perderiam suas famílias por causa do Evangelho: “E todo o que tiver deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por minha causa, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.” (Mt 19.29 – A21). Se aos crentes fosse prometida a conversão de todos os parentes próximos, o texto de Mateus 10.35, 36 também não faria sentido.

Quase que na mesma linha de pensamento, muitos evangélicos, principalmente pais e mães, ficam literalmente desesperados diante de Provérbios 22.6: “Instrui ao menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele” (Almeida Revista e Corrigida). O que geralmente se entende desse versículo é que Deus promete que uma criança levada ao conhecimento do Evangelho desde pequena nunca se desviará da fé. E como ficam os pais de filhos que fizeram justamente o contrário, embora educados segundo a Palavra, apostataram da fé? Em primeiro lugar, é importante lembrar que Provérbios não é um livro de promessas – suas afirmações são “máximas”, ou seja, fatos constatáveis de modo geral na vida. O que o texto diz é que aquilo que uma criança aprende desde pequena não é esquecido, mas a tônica não é exclusivamente religiosa. É de criança, por exemplo, que se aprende a andar de bicicleta, falar outra língua, tocar um instrumento ou mesmo decorar versículos.

A tradução tradicional “deve andar” interpreta o sufixo pronominal genitivo do hebraico indo muito além do literal. Todavia, há outras alternativas de interpretação. “Instruir a criança no caminho” pode significar instruí-la segundo os objetivos que os pais têm para ela” (NVI), instruí-la no caminho devido (ARC, A21) ou mesmo “instruí-la conforme os dons que ela tem”. As interpretações são legítimas e o texto está aberto a mais de um enfoque distinto. No entanto, é bastante seguro afirmar não há promessa ou segurança alguma de salvação para a criança que vai à Escola Dominical, tem pais cristãos e ouve a Bíblia desde pequena, simplesmente porque não é isso o que se trata ali.

Outro texto geralmente mal compreendido é o de Filipenses 4.13 – “Tudo posso naquele que me fortalece”. Certa vez, trafegando pelas áreas nobres da rica cidade de São Paulo, vi um belo carro importado com um adesivo que ostentava orgulhosamente tal verso. Geralmente, quando se lê este texto isoladamente, a maioria das pessoas imagina que se trata de uma promessa de fé: a de que, por meio do poder de Cristo, podemos alcançar tudo que quisermos! Assim, posso adquirir bens caros, derrotar inimigos, alcançar posições de destaque e tudo o mais. Novamente, o texto bíblico não está dizendo isso. Aqui, é preciso entender o contexto. O apóstolo Paulo está escrevendo aos filipenses na ocasião de sua prisão, muito provavelmente em Roma. Portanto, está enfatizando que, por meio de Cristo, podemos suportar toda e qualquer situação adversa. Basta ler o que o apóstolo diz um pouco antes, nos versículos 11 e 12: “Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação – seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito ou passando necessidade” (NVI). Por incrível que possa parecer, o texto bíblico significa exatamente o oposto do que muita gente tem sugerido sem analisá-lo adequadamente.

Já encontrei até dois cristãos evangélicos discutindo se devemos ou não mentir em certas situações. Independentemente da discussão sobre a possível legitimidade de uma inverdade ou omissão da verdade em certas situações – como o caso de mentir ou omitir algo para salvar uma vida –, o que estamos discutindo é o uso de textos bíblicos de maneira indevida. O argumento dos debatentes era o de que Abraão, servo do Senhor e chamado na Bíblia de “amigo de Deus”, mentiu em uma situação de necessidade, registrada em Gênesis 12.18-20. A questão aqui não é tão difícil – novamente, cabe frisar que o simples relato de um texto histórico não o define como norma. Muitas passagens das Escrituras nos contam erros e crimes de seus personagens exatamente para enaltecer o poder de Deus na vida de frágeis seres humanos. Muita gente, porém, tenta ver méritos e qualidades especiais em cada detalhe de vida dos heróis bíblicos sem contrastar o comportamento dos mesmos com as normas divinas. Assim, com base nos fatos de que Moisés ficou irado, Jacó enganou Labão, Raabe mentiu em Jericó ou que Davi foi polígamo, há quem tente justificar seus pecados, afirmando que homens e mulheres de Deus do passado fizeram tais coisas e não foram punidos por isso. O equívoco é muito claro.

Tais situações apenas nos mostram a necessidade urgente e gritante de um conhecimento mais aprofundado da hermenêutica, a arte de interpretação da Bíblia. Muitas comunidades cristãs são hoje reféns de doenças hermenêuticas prejudiciais e destruidoras para a fé de seus integrantes. Há grupos perdendo o equilíbrio e caindo no liberalismo teológico da negação do sobrenatural, ou numa filosofia específica. Há tantas distorções – o legalismo, o misticismo desenfreado, o tradicionalismo irrefletido – que somente o estudo da Bíblia no seu próprio contexto, entendendo elementos históricos, literários e teológicos, nos levará a entender ao máximo a intenção original do autor. É preciso ainda destacar os princípios presentes no texto para então comparar o que descobrimos com uma análise teológica mais profunda, a partir de outras passagens que falam dos mesmos princípios. Finalmente, devemos fazer a aplicação do princípio descoberto e teologicamente analisado na realidade do cotidiano.

A verdade é que a seriedade e o valor do texto sagrado para sempre ecoará através da história, especialmente quando ouvimos como o próprio Jesus considerava as Escrituras: “Pois em verdade vos digo: antes que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará uma só letra ou um só traço da Lei, até que tudo se cumpra” (Mateus 5.18 – A21).

Texto de Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

Conteúdo disponível em http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=699

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Todos os caminhos levam a Deus?



A afirmação a seguir é quase uma unanimidade em círculos sociais: “Política, futebol e religião não se discute”. Vamos nos ater apenas a questão da religião. Baseado na falsa premissa não devemos debater sobre assuntos religiosos, aqueles que levantam essa bandeira bradam, na mesma voz que todos os caminhos levam a Deus (ou ao paraíso, ou à salvação). Será?

Ao analisar as crenças de alguns grupos religiosos, principalmente quando observamos o que estes grupos afirmam sobre questões básicas da fé cristã, no que diz respeito a quem é Deus, Jesus Cristo, Espírito Santo, o homem, a Bíblia, a igreja, a salvação e o pecado, podemos constatar que não existe concordância, que não se fala a mesma língua. Vejamos, de modo bem resumido, três exemplos de credos muito distintos:

Mormonismo (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias): Deus é um homem evoluído; Jesus é irmão de Lúcifer; o homem poderá evoluir até se tornar um deus; o Livro de Mórmon, Pérola de Grande Valor e Doutrinas e Convênios compõem um complemento da Bíblia e são a base doutrinária do Mormonismo; a salvação só poder ser encontrada no Mormonismo.

Budismo: Nega que Deus (ou deuses – já que não enxerga Deus como o Cristianismo bíblico) possa interagir com o homem, ou seja, é uma divindade impessoal, chegando ao ponto de negar a existência de um ser divino; a realidade não passa de uma grande ilusão; a vida do homem é apenas sofrimento, ou seja, viver é sofrer; “salvação” é tão somente se libertar dos ciclos de reencarnação (ao atingir o Nirvana).

Kardecismo (Espiritismo de Mesa Branca / Espiritismo Científico): Jesus foi um espírito puro, um médium. O Espírito Santo (o Consolador prometido por Jesus em João 16.7) é a própria doutrina codificada por Allan Kardec, ou seja, o Espiritismo é o Consolador; fora da caridade não há salvação (evolução, fim das reencarnações, estágio de pureza de espírito); a Bíblia não é a Palavra de Deus e a reencarnação é o meio pelo qual Deus aplica Sua justiça.

A lista é muito longa, poderíamos falar muito sobre a diversidade de credos, mas os exemplos acima atestam que não há concordância geral com relação aos credos. Como pode então existir aqueles que defendem que todos os caminhos levam a Deus?

Pluralismo Religioso
Pluralismo Religioso é diferente de diversidade ou variedade religiosa. Diversidade/variedade é o fato de que existe uma gama imensa de credos, que até certo ponto produzem benefícios aos indivíduos e a sociedade, e isso é um fato inegável. Ao falar em Pluralismo Religioso designamos a filosofia que afirma que todas as religiões são iguais, boas, com os mesmos fins e que na essência possuem o mesmo sistema de crenças, levando por conseqüência ao mesmo fim. Mas atenção! Não estou dizendo que mórmons, budistas e kardecistas são pluralistas. A pessoa que aceita o pluralismo religioso não é necessariamente praticante de uma religião, mas sim de uma filosofia religiosa.

Para que possamos entender melhor o conceito do pluralismo religioso, precisamos distinguir alguns termos relacionados a tal estudo [1]:

● O Pluralismo Religioso é a crença de que toda religião é verdadeira. Cada uma proporciona um encontro genuíno com o Supremo. Uma pode ser melhor que a outra, mas todas são adequadas.

● O Relativismo afirma que não há critérios pelos quais se possa saber qual religião é verdadeira ou melhor. Não há verdade objetiva na religião, e cada religião é verdadeira para quem acredita nela.

● O Inclusivismo afirma que uma religião é explicitamente verdadeira, enquanto todas as outras são implicitamente verdadeiras.

● O Exclusivismo é a crença de que apenas uma religião é verdadeira, e as outras que se opõem a ela são falsas.

Concordo em todos os sentidos com David K. Clark que define o mundo das religiões como um verdadeiro supermercado onde superabundam produtos atraentes [2]. Neste mercado as pessoas têm consumido aquilo que lhes aprazem, sem se dar o trabalho de entender que não é possível que todos os credos de A a Z (ou do Agnosticismo ao Zen) possam levar ao mesmo fim. Respeitamos sim a variedade religiosa bem como a liberdade religiosa, respeitamos as crenças das pessoas, mas respeito e concordância não significam a mesma coisa. Desta forma discordamos totalmente da cosmovisão pluralista.

Aqueles que defendem a filosofia do Pluralismo Religioso acham que qualquer produto do mercado da fé pode atender as necessidades humanas, por isso tudo é bom e de valor. A questão da utilidade destes produtos vem à tona. Não há uma busca e um exame em pelo verdadeiro, mas sim pelo útil. Por exemplo, uma pessoa que possua sua própria religião (um budista), se dirige ao Kardecismo para buscar a comunicação com entes queridos já falecidos. Este simpatizante do Karcecismo abraça-o buscando tão somente a utilidade que o Kardecismo apregoa, mesmo sendo budista.

Logo, os pluralistas religiosos são caçadores de benefícios, e não se importam se os benefícios que buscam se tornem como vendas em seus olhos.

Na contramão desta filosofia está o Exclusivismo Religioso. O Cristianismo é exclusivista. Por maior que seja o grito dos pluralistas, Jesus Cristo, o Filho de Deus disse que é o caminho, a verdade e a vida (João 14.6).

Nosso objetivo como propagadores do Evangelho é levar ao mundo perdido o Salvador, Jesus! Por isso e para isso estamos dispostos a remover a venda que está nos olhos dos pluralistas, fazendo esta obra de apologética não com ódio, mas sim com o amor Daquele que nos amou primeiro.

__________

Notas
[1] GEISLER, Norman L. Enciclopédia de apologética. Editora Vida. São Paulo, SP: 2002. p.701

[2] CLARK, David K. in BECKWITH, Francis J. & CRAIG, William Lane & MORELAND, J.P. Ensaios apologéticos: um estudo para uma cosmovisão cristã. Hagnos. São Paulo, SP: 2006. p.347

Fonte: João Rodrigo Weronka. Disponível em http://napec.wordpress.com/apologetica/pluralismo/

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Apologética - A arte de defender a fé



Defino a Apologética como “a arte de defender a fé dentro do princípio do mandamento de preservação da Palavra de Deus das contaminações do mundo.” A apologética é importante no ensino teológico, pois lida com a defesa racional da fé cristã. O termo tem origem na palavra grega apologia que significa “apresentar dar razão” ou “defesa”.

Roque M. Andrade em seu livro “A superioridade da Religião Cristã” – ed. Juerp, pág. 69, afirma: “A apologética vem a ser o conjunto de noções pelas quais se pode empenhar alguém na tarefa de articular qualquer defesa racional”. E continua: “O cristianismo sempre contou com excelentes apologistas, principalmente no decurso dos primeiros séculos desde seu surgimento na história universal”.

Sim, o cristianismo resistiu às fortes perseguições doutrinárias por parte das seitas porque usou de forma correta e coerente a defesa da fé. A reforma protestante é um grande exemplo, sua base foi a apologética.

Costumo a dizer para os alunos das faculdades e seminários de ensino teológico que, a base da apologética não é o conhecimento teológico, mas a exposição desse conhecimento. Não basta apenas ter o conhecimento, é preciso saber apresentar tal conhecimento.

Defender a fé é oferecer respostas fiéis e seguras a todas as pessoas que buscam a Verdade. Assim escreveu Pedro:

“Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, Tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo” . 1ª Pe. 3.15,16.

O versículo manda estarmos prontos. Talvez, jamais encontraremos alguém que faça perguntas difíceis sobre nossa fé; mesmo assim devemos estar prontos para responder caso alguém pergunte. Estar pronto não é só uma questão de ter a informação correta á disposição, é verdade também a atitude de prontidão e vontade de compartilhar a verdade sobre o que acreditamos.

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos, Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”. 1ª Pe. 3,4

Tipos de Apologética

A apologética é um campo amplo e por isso possui cinco classificações: apologética clássica, evidencial, experimental, histórica e pressuposicional. Cada classe busca a melhor maneira de fazer sua defesa da fé. Todas seguem uma linha em harmonia com sua pregação ora literária ora verbal.

A apologética sempre teve famosos cristãos desde a era primitiva, devido sua maneira de propagar a fé destruindo todo tipo de argumento contrário á Palavra de Deus, mesmo em meio as perseguições.

Apologética Clássica: A apologética clássica enfatiza argumentos a favor da existência de Deus. Vale-se do argumento teísta para estabelecer a Verdade do teísmo á parte do apelo á revelação especial. O passo inicial da apologética clássica é de chegar á conclusão lógica de que, se o Deus do teísmo existe, milagres são possíveis; na verdade o maior milagre, a criação, é possível. A credibilidade dos milagres é essencial ao próximo passo na apologética clássica.

Apologética Evidencial: A apologética evidencial enfatiza a necessidade da prova para apoiar as afirmações das verdades cristã. A evidência pode ser racional, histórica, arqueológica, e até experimental.

Apologética Experimental: É a experiência como evidência da fé cristã. Alguns apelam á experiência religiosa em geral. Outros á experiências religiosas especiais. O valor da experiência religiosa geral é de valor limitado para a apologética exclusivamente cristã. Na melhor das hipóteses, a experiência geral estabelece a credibilidade da crença em algum tipo de ser supremo (não necessariamente o Deus teísta). No entanto, as provas da experiência religiosa têm sido oferecidas por cristãos e outros. Experiências gerais estão disponível a todos.

Apologética Histórica: A apologética histórica enfatiza a evidência histórica como base para demonstração da veracidade do cristianismo. Esses apologistas acreditam que mesmo a existência de Deus pode ser provada apenas pela evidência histórica. Por um lado a apologética histórica pertence á classe mais ampla da apologética comprobatória, mas é diferente por que enfatiza a importância, até mesmo a necessidade de começar com o registro histórico.

Apologética Pressuposicional: A apologética pressuposicional afirma que é preciso defender o cristianismo a partir do alicerce de certas pressuposições. Geralmente o apologista desta escola de apologética pressupões a verdade básica do cristianismo e depois continua demonstrando que só o cristianismo é verdadeiro.

Deus lhe chamou para defender a fé!

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo”

Isso significa que devemos confrontar questões nas nossas mentes e nos pensamentos expressos por outras que por ventura impeçam a nós e a eles de conhecer Deus. Essa é a essência da apologética.

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos, Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”. 1ª Pe. 3,4

A Bíblia não precisa ser defendida! Afirmam alguns. Sim, a Bíblia é viva e eficaz (Hb. 4.12), mas como sabemos que a Bíblia e não o Alcorão (livro sagrado dos mulçumanos) ou o livro de Mórmon é a Palavra de Deus? A apologética é uma grande necessidade! É um dever de todo cristão fiel á palavra de Deus.

Deus lhe chama para defender a fé com sabedoria, mansidão e unção da Palavra. Defenda a fé e mostre ao mundo o verdadeiro caminho para a salvação. Jesus Cristo, o Senhor!

Fonte: Alex Belmonte. Disponível em: http://www.napec.net/category/apologetica/apologetica-geral/

domingo, 19 de junho de 2011

Por que Deus permite que coisas ruins aconteçam com boas pessoas?



Esta é uma das perguntas difíceis de toda a teologia. Deus é eterno, infinito, onisciente, onipresente, onipotente, etc. Por que nós, seres humanos (que não somos eternos, infinitos, oniscientes, onipresentes, onipotentes) vamos esperar que sejamos capazes de compreender inteiramente os caminhos de Deus? O livro de Jó lida com esta questão. Deus permitiu que Satanás fizesse tudo o que desejou com Jó, exceto matá-lo. Qual foi a reação de Jó? “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). “... o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21). Jó não compreendeu por que Deus tinha permitido as coisas que permitiu, mas sabia que Deus era bom e por isso perseverou confiando Nele. Esta também deveria ser a nossa reação. Deus é bom, justo, amoroso e misericordioso. Muitas vezes nos acontecem coisas que simplesmente não podemos entender. Entretanto, ao invés de duvidar da bondade de Deus, nossa reação deveria ser confiar Nele. “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas” (Provérbios 3:5-6).

Talvez uma pergunta mais apropriada seja: “Por que coisas boas acontecem com pessoas más?” Deus é santo (Isaías 6:3; Apocalipse 4:8). Os seres humanos são pecadores (Romanos 3:23; 6:23). Você quer saber como Deus vê a humanidade? “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis.Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Romanos 3:10-18). Todo e qualquer ser humano neste planeta merece, neste exato momento, ser lançado no inferno. Cada segundo que temos de vida, cada segundo, nos é concedido pela graça de Deus. Até a mais terrível infelicidade que pudéssemos experimentar neste planeta é dádiva misericordiosa comparada com o que realmente merecemos, inferno eterno no lago de fogo.

Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5:8). Apesar da natureza má e pecadora das pessoas, Deus assim mesmo nos amou. Ele nos amou o suficiente para morrer, a fim de carregar a pena por nossos pecados (Romanos 6:23). Tudo o que precisamos fazer é crer em Jesus Cristo (João 3:16; Romanos 10:9) para que sejamos perdoados, e então a nós é prometido um lar no céu (Romanos 8:1). O que merecemos = inferno. O que Deus nos dá= vida eterna no céu se apenas crermos. Foi dito que este mundo é o único inferno que os crentes algum dia vão experimentar, e este mundo é o único céu que os infiéis vão experimentar. Da próxima vez que fizermos a pergunta: “Por que Deus permite que coisas ruins aconteçam com pessoas boas?”, talvez devamos perguntar: “Por que Deus permite que coisas boas aconteçam com pessoas más?”

Fonte: http://www.gotquestions.org/portugues/coisas-ruins-pessoas-boas.html