sexta-feira, 22 de outubro de 2010

APRENDENDO A SER IGREJA COM OS MINEIROS DO CHILE



Tive o prazer , em meio a tantaos , caos , trajédias , noticias ruins, e por aí
vai...este sensacional resgate dos 33 mineiros na mina San José , no Acapulco.
Não contive as lágrimas ao ver muitos dos resgates e imediatamente comparações
naturais com a igreja me vieram à mente. Tanto que pensei em colocar o nome
neste artigo de “aprendendo a ser igreja com os mineiros do Chile”. Desisti.
Não... não foi em vão a emoção que senti e muitas das lições, pelo menos por
algum tempo aprendidas. As analogias são inevitáveis.

Em primeiro lugar, falemos dos verdadeiros heróis, que não foram os mineiros. Os
grande heróis da história foram os homens da equipe de resgate, principalmente
aqueles que desceram ao fundo da mina para ajudar no resgate dos que ali
estavam.

Quantas comparações vêm à mente: eram homens perdidos nas trevas;alguém
teve que se fazer como eles para que pudesse salvá-los;os méritos são todos da
equipe de resgate, já que eles por suas próprias forças jamais sairiam dali.
Isso é só o começo. As semelhanças continuam com aquilo que a igreja deveria
ser: Pelo que sabemos, todos se uniram de forma a manter a vida de cada um,
revezando-se em turnos, em apoio, em mútuo auxílio. Ah! Como falta isso em
nossos arraiais onde o que mais se vê são homens devorando homens.

Outro fato interessante: as pessoas que aguardavam ansiosas no “acampamento da
esperança”, não saíram de lá enquanto o último não fosse resgatado. TODOS valiam
a pena, TODOS eram importantes. Não havia sequer o desejo de “assim que o meu
querido sair, eu vou-me embora e que se danem os outros”. Que coisa linda! O
desejo de que todos se salvem é maior do que a festa “do meu que se salvou”.

Há ainda uma outra lição, esta para a liderança: o último mineiro a sair, Luis
Urzúa, era justamente o “líder” do grupo. Quanta diferença da liderança de hoje,
que quer ser servida em primeiro lugar, antes das suas ovelhas. Como ouvi de um
pastor de TV , justificando seu salário astronômico e seus luxos: “vocês têm que
entender que a prosperidade do pastor é símbolo da prosperidade da igreja”.
Quanta bobagem numa única frase! Mas Urzúa entendeu o verdadeiro papel do líder:
animar a todos os liderados, servir ao invés de ser servido, e ser o último a
“receber a benção”.

Pois é... tantas belas lições para a igreja... corpo de Cristo, que deve
aprender a viver em comunhão verdadeira, apoio mútuo, desejo de que o outro
também seja abençoado e uma liderança que se volta totalmente para o outro.
Tudo ia bem... até que...

Num dos últimos noticiários sobre o resgate, uma informação veio à tona:
famílias já cobravam caro para dar o testemunho da libertação de seus parentes e
outros já fechavam contratos de exclusividade para contarem suas histórias.
Minha conclusão: nos ensinaram o que havia de melhor....e aprenderam de nós o
que temos de pior: a comercialização das bênçãos e da fé alheia.
Triste realidade essa do ser humano!

Texto de Fábio Dalamaria

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

MOVIMENTO DO "RETETÉ" ACUSA ELIEL GABY DE NÃO SER UNGIDO



Neste final de semana recebi uma mensagem furiosa de um integrante do movimento do "reteté" me acusando de não ser ungido de Deus.

É claro que o dito cujo não se identificou, escondendo-se atrás do anonimato e covardia que são peculiares dessa gente. Homens de Deus não se escondem, usam a autoridade divina para realizarem a obra do Senhor. Mas deixe-me compartilhar com os amigos deste blog os ataques:

1) Você critica o movimento do "reteté" porque estas manifestações não acontecem quando você prega.

Graças a Deus não acontecem e não irão acontecer. Segundo este "valente anônimo" eu não valorizo o movimento porque ele é constituído por pessoas humildes. Preciso informar ao pobre de espírito que o movimento do "reteté" não escolhe classes sociais, fazem parte dele ricos ou pobres.

2) Sua formação secular e teológica jamais permitirão que você seja cheio do Espírito Santo.

Neste ponto, o "valente anônimo" tem razão. Minha formação não pode proporcionar sequer minha salvação. Na mensagem enviada à mim vi uma apologia à burrice, um ódio em relação ao crescimento pessoal. Na Bíblia dos adeptos do "reteté", Os 6.3 e Pv 18.15 não existem. Diz o "valente anônimo" que "... os milhares de anos de estudos teológicos jamais permitirão que você seja parecido com estes irmãos ..." Quem disse que tenho a pretensão de ser parecido com estes? Quero ser parecido com Jesus.

3) Sua pregação não tem unção

Para o "reteté" unção é rodopio, gritos frenéticos, frases de efeito, cair no chão e coisas do gênero. Meu compromisso é com a palavra de Deus. O movimento do "reteté" não atribui unção à homens como Pr. José Pimentel de Carvalho, Pr. Antônio Gilberto, Pr. Hernandes Dias Lopes, Pr. Solano Portela, Pr. Simon Lundgren, pois falam mansamente, não apelam e pregam simplesmente a palavra de Deus.

Em minha pregação não tem espetáculo, show ou manipulação. Ao contrário dessa cambada do "reteté" não prego por dinheiro, não cobro cache. Falando neste assunto, em breve publicarei neste blog o nome dos pregadores do reteté e algumas gravações que tenho quando ligo para eles convidando para pregar em nossa igreja em Curitiba.

Os que pregam nos "Gideões" não aceitam vir em nossa igreja por menos de R$ 2.500,00 por noite. As cantoras "tochas" cobram em média R$ 7.000,00 à R$ 10.000,00 por final de semana. Pregadores de "fogo" são os piores para se tratar. Aqui em Curitiba eles reclamam do hotel (diga-se de passagem ficam em hotel de alto padrão, com diárias médias de R$ 195,00), reclamam dos restaurantes, não aceitam comer no refeitório da igreja e sempre reclamam na hora do acerto financeiros. Esses "tochas" só viajam nas companhias aéreas TAM e Gol, não aceitam viajar de WebJet, TRIP, BRA, Azul ou outras.

Deste movimento eu quero DISTÂNCIA.

Obs. Não me lembro de ter pregado em evento denominado Cipa

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CONHECIMENTO, DINHEIRO E PODER

"Use o conhecimento para ajudar pessoas, nunca para explorá-las; use o dinheiro para suprir necessidades das pessoas, nunca para comprá-las; use o poder para servir às pessoas, nunca para dominá-las".

Poderíamos escrever também desta maneira:
"Use o conhecimento, o dinheiro e o poder para ajudar, suprir necessidades e servir às pessoas, nunca para explorá-las, comprá-las ou dominá-las".

Procure versículos bíblicos que dão base¹ para essas frases.
Tente encontrar versículos que refutam essas frases (creio que você não vai encontrar).

Agora escreva o que mais, além de conhecimento, dinheiro e poder você poderia usar para beneficiar pessoas. Incremente a lista de atitudes relacionadas a ajudar, suprir necessidades e servir. E aliste também outras palavras relacionadas a explorar, comprar e dominar.

Pois bem, confronte isso com o que você vê acontecendo na nossa sociedade, com a maneira como as pessoas se comportam, com as práticas de vendas e de (tele)marketing das lojas, com as filosofias de crédito e de tarifas das instituições financeiras e com as possíveis motivações das políticas econômica, tributária e administrativa do governo. E por que não comparar também com a pregação das igrejas?

Qual é a sua conclusão?

A minha é: devo me esforçar para viver ajudando, suprindo necessidades e servindo às pessoas. Isso tem sido um desafio para mim. Que desafio! Não é fácil! Mas continuo na luta.
Aceite você também este desafio e faça diferença. E experimente a diferença.

"Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" Mc 10:45.

(1) Jr 9:23-24; Fp 2:4, At 20:35, 1Tm 6:17-18, Rm 12:9-21, 1Pe 5:1-4; Pv 22:16,22-23; 2Tm 3:1-9; Tg 4:1-4; Tg 4:13-17; Tg 5:1-6 e outros.

Fonte: Marcos E. Fink - Via www.ganancia.com.br

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O EVANGELHO E A CULTURA DIGITAL



Entrevista de Al Erisman à Tim Stafford para Cristianismo Hoje

A tecnologia está mudando nossas vidas em alta velocidade e de forma imprevisível. Em apenas uma década, por exemplo, o telefone móvel tem transformado a vida diária de praticamente todos os líderes de igreja no mundo. A tecnologia também muda a maneira como o evangelho é comunicado, quer seja por meio de slides no PowerPoint, websites ou em telas multi-site de algumas igrejas. Procuramos um homem que tem décadas de experiência prática com a tecnologia nas empresas – bem como ampla e profunda reflexão sobre o seu significado.

Al Erisman passou 32 anos na Boeing e, durante os seus últimos 11 anos lá, foi diretor de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Ele agora leciona na faculdade de administração de empresas da University Pacific Seattlee e é co-fundador e diretor da revista Ethix realiza consultoria e palestras sobre fé e desenvolvimento econômico na Repúbica da África Central e Nepal. Ele falou recentemente com o editor da Global Conversation (Conversa Global) e editor sênior, Tim Stafford.

O que a tecnologia tem a ver com o evangelho?

Muito. Estreitando nossa abordagem somente à tecnologia da informação, reconhecemos tudo em relação à informação e à comunicação como elemento fundamental de proclamação do evangelho. É também sobre que tipo de pessoas nos tornamos e como nos comunicamos com as pessoas que fazem parte da era digital. Poderíamos ainda olhar para o impacto mais amplo de outras tecnologias, como os automóveis, a energia nuclear, ou a biotecnologia – tudo o que venha de um processo passo a passo ou do uso de ferramentas. Mas temos as mãos cheias ao falarmos sobre tecnologia da informação.

Concebo a tecnologia da informação em cinco camadas. A camada inferior é a base da tecnologia – o microchip, por exemplo. Gordon Moore, co-fundador da Intel, previu o que hoje é chamada de Lei de Moore: o microchip será reduzido pela metade a cada 18 meses. Isso se traduz em um chip com desempenho cada vez mais rápido e mais barato, a uma taxa surpreendente – um a cada dez fatores no custo e no desempenho é aperfeiçoado a cada cinco anos. O que possibilita uma fundamental e interminável renovação.

A segunda camada é a dos produtos que a tecnologia de base torna possíveis. Aqui somos mais diretamente influenciados. No caso do microchip, nossos computadores regularmente se tornam mais rápidos e baratos. Esta parte é bastante previsível, mas também vemos o aparecimento imprevisível de produtos e recursos. Temos a Internet, o Google, as redes sociais, o Twitter, as câmeras digitais, o iPhone, e assim por diante. Ás vezes, usamos esses aparelhos simplesmente para fazer o que fazíamos antes, só que de forma mais rápida. Mas algumas vezes novos produtos introduzem toda uma nova maneira de pensar e trabalhar.

O terceiro nível é onde os produtos são empregados juntos, feitos para o trabalho, trazendo segurança, e todas as coisas que se referem à infra-estrutura. Sobre esta camada, geralmente os usuários só precisam saber que existem pessoas talentosas que mantêm tudo funcionando.

A quarta camada é onde a vida dos líderes da igreja pode ser transformada – onde a tecnologia permite redesenhar os fundamentos do que fazemos. Por exemplo, um pastor pode facilmente acessar muito mais fontes e incorporar vídeos em uma apresentação. Pode postar sermões online e, assim, atingir muito mais pessoas. Grupos de discussão podem se encontrar através de uma comunidade, mesmo de um lado a outro do mundo. Mais de um autor sugeriu que esta é “a morte da distância”. Se você tiver acabado de voltar de outra parte do mundo, pode manter a comunicação com as pessoas de lá de forma extraordinária.

Não há riscos também?

Certamente que sim. Toda tecnologia tem um efeito colateral. Ela nos permite fazer algo novo e bom, mas algo que é diferente. Em Atos 2, os discípulos estavam proclamando as “maravilhas de Deus” quando alguns os acusaram de estarem embriagados. Pedro imediatamente dirigiu-se ao ponto, levando sua apresentação para outra direção.

Como isto pode acontecer quando estamos assistindo a um vídeo ou baixando um sermão pela internet?

Na década de 1980, críticos rejeitaram os sermões de televangelistas porque os ouvintes isolados não podiam experimentar a vida congregacional. Eles também se queixaram de que o meio impunha uma ostentação que competia com o evangelho. Hoje o vídeo é usado para ampliar o alcance de um pregador a várias congregações.

A verdadeira pregação exige a presença real?

A televisão não pode fornecer a mesma atmosfera de adoração que a trazida pela presença física. Mas se pensarmos sobre avanços tecnológicos anteriores, no texto escrito de um sermão também faltaria esse ingrediente. No entanto, temos visto Deus abençoar folhetos evangelísticos. Recentemente conversei com um pastor do Nepal que veio a Cristo através de um folheto que encontrou na rua. O que é adquirido pelo texto (em comparação com as duas pregações, ao vivo e pela televisão) é a possibilidade de voltar a ele e estudá-lo. O que é adquirido pela televisão (comparado com a imagem) é alguma nuance (uma careta, um sorriso, uma pausa).

À medida que avançamos para o e-mail ou para a WebEx conferência, vemos vantagens e desvantagens semelhantes. Assim será quando passarmos a utilizar imagens holográficas para oferecer a ilusão de que estamos na mesma sala com outra pessoa.
Não devemos pensar estas tecnologias como forma de substituir outros meios existentes. Devemos pensar nelas como camadas para formar um padrão de comunicação eficaz. Televisão, Web conferência e e-mail não devem substituir a comunicação face a face, mas sim complementá-la.

Um pequeno grupo ao vivo é maravilhoso e esse foi o método primário do discipulado do Nosso Senhor. Mas Ele também falou a grandes multidões. Caso Ele tivesse chegado ao século 21, acredito que também teria usado essas novas ferramentas, mas não para substituir a intimidade ou as discussões em grandes grupos.

Isto nos leva à quinta camada, onde consideramos o que a tecnologia tem feito às pessoas. Vemos hoje que as pessoas têm a duração da atenção diminuída, leem menos, tentam fazer duas coisas ao mesmo tempo e se distraem. As igrejas veem toda a semana ambos os aspectos, positivos e negativos, da tecnologia. É muito bom lidar com pessoas que podem responder às nossas necessidades de imediato, uma vez que estão sempre conectadas. Por outro lado, é um desafio lidar com uma congregação que está na igreja enviando mensagens de texto ou se distrai quando o sermão dura mais de vinte minutos.

Precisamos pensar o desafio da comunicação como um desafio transcultural. Um missionário não iria para o Brasil, sem procurar entender a língua e a cultura do povo local. Então é importante, tanto para os líderes da igreja quanto para os missionários, entender a cultura da geração digital.

Dissolvendo as distâncias, as tecnologias da comunicação podem prejudicar a comunhão congregacional? Quais aspectos da vida Cristã podemos estender à tecnologia? O que pode minar isto?

Alguém sugeriu que seus computadores poderiam ser programados para organizar uma lista de orações todas as manhãs, e assim descansar. “Será que isso conta?”, eles perguntaram. Acho que não. Mas se você colocar o seu melhor em um artigo e as pessoas o lerem um tempo depois, será que isso conta como comunicação? Sabemos que não, mas é um tipo diferente de comunicação do que ter uma conversa.

O ex-vice presidente da Intel, Pat Gelsinger, disse, “Se eu enviar e receber e-mails de alguém mais de quatro ou cinco vezes sobre o mesmo assunto, paro. Vamos ao telefone e nos encontramos face a face”. Você pode fazer algumas coisas em uma conversa presencial (construir confiança, conhecer uns aos outros como pessoas, estabelecer contexto para observações, esclarecimentos) que seria muito difícil de concretizar com o vai e vem dos e-mails. Ainda assim, quando eu voltar de uma visita a Singapura, desejo manter um relacionamento através do e-mail, que constitui uma contribuição muito valiosa para a construção da comunidade.

No mundo dos negócios, onde trabalhamos com equipes virtuais a nível mundial, descobrimos que, quando uma equipe começa a operar, é preciso definir seus objetivos e certificar-se de que seus membros os compreenderam. Além disso, todos precisam aprender a confiar uns nos outros. Isto pode ser feito melhor cara a cara. O contato pessoal é fundamental.

Quando você começa definindo o trabalho e distribuindo-o, isso pode ser feito de forma sincronizada através do telefone ou de uma vídeo conferência. E na fase de implementação e avaliação, você não tem que estar junto em tempo real. É possível usar o e-mail para atualizar o outro. Diferentes formas de comunicação são melhores em diferentes contextos.

Esta entrevista faz parte da Global Conversation (Conversa Global) – um diálogo virtual através da Internet com líderes de todo o mundo. Compare isso com o imenso debate adaptado para a Cape Town em outubro.

O fórum virtual é maravilhoso, mas cometemos um erro se pensarmos que a nova tecnologia substitui a antiga. O valor de estar presente com outra pessoa se dá durante o café ou o jantar, através de conversas paralelas com pessoas que encontramos inesperadamente. Não encontramos uma maneira de fazer isso acontecer no mundo virtual.

A sobrecarga de informação ameaça cortar a comunicação. Muitos de nós apagamos mensagens sem lê-las. Como as congregações podem ter certeza de que suas tentativas de contato não se tornarão parte do barulho de fundo?

Quando vivemos em uma cidade grande, temos a mesma tendência de cortar a comunicação com os nossos vizinhos, porque há muitos deles. A tecnologia simplesmente aumenta o número dessas conexões. Nosso Senhor lidou com isso deixando as multidões e saindo com um pequeno grupo de cada vez aos finais de semana. Não somos mais capazes do que ele para continuar as relações em profundidade com todos. “O servo não é maior do que o seu mestre”.

Como os líderes da igreja podem aprender sobre novas as possibilidades e os desafios da tecnologia?

Embora eu tenha lido e me informado amplamente sobre esses assuntos, não vi um olhar sistemático para eles no contexto do evangelho – apenas fragmentos de um todo. Muito tem sido escrito na imprensa secular relacionado aos negócios e à sociedade. Alguns destes conteúdos poderiam ser cuidadosamente adaptados às necessidades da igreja. Ler discriminadamente (por exemplo, Grown Up Digital, de Don Tapscott, ou The future of Success, de Robert Reich) é um bom começo. Criar grupos de estudo Cristãos em torno deste material é ainda melhor.

A inovação tecnológica é parte do mundo de Deus, construída por pessoas criativas feitas à sua imagem. Mas alguns veem apenas a Torre de Babel.
Em Gênesis 1 e 2, vemos Adão e Eva continuando o trabalho de Deus no mundo. Nos dois primeiros capítulos, isso é feito sob a autoridade de Deus. O problema surgiu quando as pessoas pensaram que podiam fazer isso de forma autônoma. Agora temos um mundo em que algumas pessoas usam sua criatividade sob a autoridade de Deus, e outras a usam autonomamente.

É a tecnologia como a Torre de Babel? Sim. É também como o Éden sob a autoridade de Deus? Absolutamente. Mas, pela graça de Deus, mesmo pessoas que não são Cristãs desenvolvem uma tecnologia maravilhosa porque são feitas à Sua imagem.

Por que tantas pessoas, Cristãs ou não, veem a tecnologia de forma pessimista?

As tecnologias costumavam ser usadas para influenciar nossos negócios. Agora, elas nos afetam pessoalmente. Afetam as maneiras como nos comunicamos com nossos vizinhos e cônjuges. Passamos a depender de dispositivos que temos de seguir, e outros dependem de nós em função deles. Se você não atender ao telefone móvel, as pessoas dizem: “O que há de errado com você?” A tecnologia tem sido introduzida de uma maneira muito particular. E isso tem feito que muitos olhem para ela de forma pessimista.

Além disso, as pessoas acreditam que a tecnologia é a razão de terem perdido seus empregos por meio da terceirização. A usina de algodão do século 19 eliminou postos de trabalho para as pessoas que teciam em suas casas. Mas a tecnologia da informação afeta a todos – em sua vida pessoal, bem como em sua vida empresarial. É perturbadora e persistente.

Algumas pessoas sentem-se alienadas digitais e sozinhas com sua tecnologia. Existem relatos bem documentados sobre o suicídio entre os jovens Japoneses que passaram longos períodos de tempo utilizando a tecnologia e isolados dos outros. Eles perderam os elementos do que é ser humano. Suponho que isso é semelhante a outros vícios e deve ser reconhecido como tal. Assim como Paulo falou para aqueles no Areópago sobre os ídolos em sua cultura, podemos oferecer algo àqueles que estão presos pelos ídolos da cultura digital.

Em recente artigo da Ethix, o ex-designer de software Rosie Perera observou que “o filósofo Alemão Martin Heidegger escreve que os seres humanos estão tão imersos na tecnologia, que raramente temos a consciência de que mantemos com ela uma relação que nos afeta… Passando um tempo distante da tecnologia de forma regular é possível transformar a maneira como nos relacionamos com ela e isso pode trazer a vida novamente em foco”.

Não esperamos que essas mudanças desacelerem logo. Nosso desafio será desvendar a cultura em mudança, se comunicando efetivamente com as ferramentas que são dadas e com a geração que encontramos. Anos atrás, Francis Schaeffer advertia-nos para não fugirmos da nossa cultura emergente, mas para abraçá-la e pensarmos sobre isso. Não devemos ter medo.

Fonte: Cristianismo Hoje

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

PELO RETORNO À PALAVRA



Entrevista do Pr. Antônio Gilberto para Cristianismo Hoje

Consultor teológico e doutrinário da maior igreja evangélica do Brasil, o pastor assembleiano Antônio Gilberto ressalta a essencialidade da Bíblia. (Por Carlos Fernandes)

Enquanto aguardam a liberação de uma sala para a entrevista, Antônio Gilberto e o repórter conversam sobre a Igreja Evangélica e assuntos relativos à fé cristã no Brasil. O pastor folheia um exemplar de CRISTIANISMO HOJE. “Não há mais muito temor a Deus”, comenta, a respeito do conteúdo de uma reportagem. Ele dá uma olhada pela janela e balbucia, como se falasse consigo mesmo: “Quem de nós tem buscado ao Senhor em espírito e em verdade?”. Em dado momento, a secretária lhe traz as informações que solicitou sobre um evento. A procura não é tão grande como o esperado. “É impressionante, irmão”, diz. “Antigamente, eram comuns campanhas de oração de uma semana, cultos de consagração que duravam um dia inteiro. Agora, o pessoal não quer orar nem por cinco minutos.”

Não, Antônio Gilberto da Silva não vive do passado, embora admita que os tempos idos lhe trazem ótimas recordações. É um homem ativo e perspicaz, para quem a chegada dos 80 anos de idade parece ter trazido apenas mais experiência. Sobe com desenvoltura os três lances de escada na sede da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), no Rio. Ali, ele sente-se mesmo em casa. Respeitado por seu profundo conhecimento das Escrituras, é professor e consultor teológico e doutrinário não só da editora, mas da denominação. Integrante da Diretoria da Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB), é presença certa em seminários e congressos sobre Escola Bíblica Dominical, assunto em que é especialista. “O crente deve estudar, estudar e estudar a Palavra de Deus”, afirma. “Só quem está ao lado da Bíblia pode manter-se espiritualmente de pé.”

Ao longo desta entrevista, por diversas vezes Antônio Gilberto assumiu uma postura de contrição. “Glórias a Deus, irmão, glórias a Deus”, disse, erguendo os braços e fechando os olhos, todas as vezes que foi solicitado a falar acerca de suas realizações na obra do Senhor. Elas não têm sido poucas ao longo dos últimos 65 anos, desde que se converteu, ainda adolescente. Casado, com quatro filhos e oito netos, o pastor diz que quer servir ao Senhor enquanto lhe der graça e força. “Minha oração é para permanecer fiel. A fidelidade traz felicidade.”

CRISTIANISMO HOJE – Como está a Assembleia de Deus hoje, às portas do centenário?

ANTÔNIO GILBERTO – Eu digo que ela está caminhando bem, pela graça de Deus. O início de nossa igreja e seu crescimento são provas de que esta obra não pode ser dos homens. Como o trabalho daqueles dois obreiros estrangeiros [N.da Redação: os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, oriundos dos Estados Unidos, fundaram a Assembleia de Deus no Pará, em 1911] poderia despertar espiritualmente o país se não fosse pela ação do Espírito Santo? Hoje, a Assembleia de Deus é querida e acatada, tem comunhão com as igrejas coirmãs e é uma referência em sentido geral.
Quantos membros tem a denominação?

É uma pergunta muito difícil de ser respondida, inclusive por causa de seu tamanho. Há mais de quinze anos, fizemos um levantamento amplo. Embora não tenha havido o retorno de todas as informações solicitadas, projetamos com segurança uma membresia da ordem de 11 milhões. O levantamento baseou-se apenas nos membros batizados, sem levar em conta as crianças e os frequentadores eventuais. Claro que não podemos afirmar este número com rigor científico, mas serve para dar uma noção da amplitude de nossa igreja.

Durante muito tempo, a Assembleia de Deus foi vista como uma igreja conservadora em relação a usos e costumes. Hoje, percebe-se maior liberalidade, sobretudo no contexto urbano. Houve exageros no passado?

Acontece que muitos irmãos e irmãs do passado, com pouco conhecimento do assunto à luz das Escrituras, praticaram excessos, estabelecendo regras individuais e regionais desnecessárias. Usos e costumes bons e santos devem fazer parte do testemunho cristão.

O uso da TV, por exemplo. Dizia-se que o crente não podia assistir à televisão, mas hoje os evangélicos usam-na largamente para anunciar o Evangelho.
Exato. Já se disse que a TV era anátema e pecaminosa. Aqueles irmãos do passado eram sinceros em sua fé, mas a ignorância e o exagero levam ao erro de muitas maneiras. Sabemos também que a mera observação de usos e costumes na igreja, de modo legalista, sem o lastro e a prática da doutrina bíblica, leva o cristão ao farisaísmo, ao legalismo, ao fanatismo religioso, à falsa santidade e à pretensa salvação pelas obras. Só que hoje vem ocorrendo o abandono de bons costumes que têm origem na doutrina cristã. Hoje, há pessoas que dizem que a Bíblia não trata de costumes. É que a palavra “costumes” nem sempre é traduzida pelo emprego deste termo na Bíblia. Se a doutrina bíblica for compreendida e observada com sabedoria e discernimento, ela certamente levará à prática de bons costumes. A doutrina é a garantia de perenidade de qualquer igreja.

Diversas igrejas independentes têm usado o nome “Assembleia de Deus”, mesmo sem qualquer ligação com a CGADB. A denominação cogita alguma medida contra isso?

Quem pode pronunciar-se sobre este ponto é a Direção nacional da igreja. Esses chamados “pentecostais” ou “neopentecostais” leem a Bíblia, mas não a estudam no sentido estrito deste termo. Eles só querem saber de manifestações humanas, como gritar, rolar, pular, expulsar demônio, praticar exorcismo. É um inominável erro cuidar só de manifestações e não do verdadeiro relacionamento com Deus, aquele que transforma a vida das pessoas. Primeiro, a predominância do Espírito Santo segundo as Escrituras; depois, os efeitos de sua manifestação. No início do movimento neopentecostal no Brasil, por volta dos anos 1960, várias igrejas que surgiram me convidavam para lhes ministrar sobre as doutrinas fundamentais da fé cristã. Esse interesse arrefeceu, como é fácil detectar nos seus escritos e programas de rádio e televisão. Esses grupos precisam despertar a tempo para, em primeiro lugar, dar espaço contínuo e amplo ao estudo sistemático da Palavra de Deus. A Assembleia de Deus está correndo o mesmo perigo; muito pouco estudo da Bíblia, priorizando suas doutrinas básicas.

E quais são as doutrinas básicas observadas pela Assembleia de Deus?

O assunto é muito extenso para tratar numa entrevista, mas eu poderia destacar algumas. A inspiração divina da Bíblia, que é específica, única e plenária. Quando o apóstolo João encerrou o Apocalipse e guardou a sua caneta, encerrou-se também, na providência divina, o cânon das Sagradas Escrituras. Sua inspiração é plenária no sentido de que Deus colocou na mente dos santos escritores sagrados não só a ideia ou o conceito da mensagem recebida dele, mas além disso guiou-os sobrenaturalmente na escolha das palavras. Também enfatizamos a salvação pela graça divina, quando o homem carente da salvação aproxima-se de Deus pela fé em Cristo. Ninguém tem mérito algum para ser salvo. Ser moralista, caridoso e altruísta é agradável a Deus, mas nada disso leva à salvação. Também cremos no Deus trino e triúno. Essa é uma verdade bíblica e doutrinária que transcende a mente humana, por mais capacitada que ela seja. Nem gênios como Newton e Einstein foram capazes de entender a triunidade de Deus. O que nos cabe é aceitar pela fé o que o Senhor diz na sua Palavra. O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. E também várias outras doutrinas fundamentais, como a do pecado, a da santificação, a da volta de Jesus em breve…
A doutrina do pecado não tem sido muito falada…
O assunto pecado é antipático e tem sido evitado, mas é real, assim como são reais o céu e o inferno. Quem crê em Cristo, segundo as Escrituras, está salvo da condenação eterna; quem não crê, já está condenado. É esse o Evangelho que eu prego com amor; o amor com que Deus nos ama.

Como a Igreja Evangélica deve agir em face do mundo?

A Igreja de Jesus – a verdadeira Igreja, aquela que teme ao Senhor e segue a sua Palavra – não pode se coadunar com a filosofia do mundo, que cada vez mais afunda no pecado. A Igreja neotestamentária é necessariamente diferente do mundo; de modo que, no dia em que a Igreja se coadunar com o mundo, e vice-versa, será o fim. Quando o mundo diz sim, a Igreja diz não. É assim que deve ser.

Essa diferença tem se diluído?

Infelizmente, a Igreja está muito mais parecida com o mundo do que deveria. Nós devemos enxergar esse processo como sinal dos tempos – e, sem querer ser pessimista ou negativo, tudo que tem acontecido ao redor do mundo faz parte de um panorama profético. E haverá choques tremendos entre o povo de Deus e o mundo. Veja esse pacote de leis que hoje tramitam no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas. Refiro-me a temas como a chamada união civil de homossexuais, a legalização do aborto, a descriminalização do uso de drogas hoje ilegais e as restrições ao trabalho de evangelização, entre tantos outros pontos. Mais do que nunca, o crente precisa manter-se fiel. A segunda vinda de Jesus ao mundo é um acontecimento iminente. A qualquer momento, o Senhor virá. Que bom seria se o mundo despertasse para buscar ao Senhor enquanto é tempo!

O senhor prevê uma perseguição contra a Igreja no Brasil?

Mas sem dúvida nenhuma. A propósito, eu faço parte de uma comissão em nossa denominação encarregada de redigir posições bíblico-doutrinárias sobre assuntos como união de homossexuais, família, casamento e o divórcio, inclusive o de obreiros. Queremos dar orientação clara ao nosso povo. Estamos nos debruçando sobre isso já prevendo que, se este pacote de leis for aprovado, perseguições tremendas virão, como já tem acontecido aos cristãos em outras partes do globo. Somente uma Igreja neotestamentária, ortodoxa, que teme ao Senhor e respeita a Bíblia no sentido correto, estará preparada para enfrentar estes novos tempos. A profecia de Daniel, nos capítulos 2 e 7 de seu livro, sem dúvida abarca o que estamos a responder. Tudo começou com “ouro”, mas terminou com “ferro misturado ao barro”. Não haverá inversão disso, como querem os homens que pensam sem Deus. A Palavra do Senhor é fiel e infalível. Há uma degradação crescente e geral no mundo, conforme I João 4.3.

Esse panorama de degradação o deixa chocado?

Não, eu não me choco com isso. Vejo tudo como uma advertência espiritual. O Senhor advertiu a todos sobre isso em textos como o de Mateus 24. O mundo está posto no maligno. Todas as instituições seculares sofrem com a influência e ação malignas. Não estou dizendo que todas as pessoas que não conhecem o Senhor agem deliberadamente de má-fé. Mas o secularismo da sociedade as afasta de Deus. E neste contexto, a Igreja de Cristo deve proceder como dela está escrito em I Pedro 2.11, como peregrina e forasteira. Isto é, ela não pertence a este mundo. E por falar nisso, ela está perdendo sua identidade bíblica. E como recuperá-la? Voltando à Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, clamando por um avivamento genuíno, soberano, irresistível, como já aconteceu tantas vezes na Bíblia e também na história da Igreja.

Como definir avivamento?

Há quem pense que o avivamento espiritual da Igreja caracteriza-se
apenas pela manifestação de dons sobrenaturais e operação de milagres. Segundo as Escrituras, avivamento é uma renovação espiritual soberana da parte de Deus, uma sobrenatural intervenção divina entre o seu povo. E isso se caracteriza inicialmente pela fome incontida pela Palavra de Deus. Sempre que uma igreja é despertada pelo Espírito de Deus, ela busca sem cessar a renovação espiritual, a santificação e o conhecimento constante e profundo da Palavra de Deus, tanto na congregação como na vida de cada crente.

Mas então como a Igreja Evangélica tem crescido tanto no país?

Não é bem assim no presente momento. O número de genuínas decisões por Cristo vem diminuindo nas igrejas. A Igreja tem crescido em quantidade. Não sou contra a quantidade – quanto mais pessoas se tornarem crentes em Jesus, melhor. Mas, quanto aos seus, o Senhor conta primeiro com a qualidade de vida espiritual, moral, social e familiar. Lembre-se do caso de Gideão: Deus só permitiu que ele fosse acompanhado por 300 homens à guerra, ao invés dos milhares que havia. Ora, do dia para a noite você consegue encher um templo ou um estádio de gente; basta dizer o que as pessoas gostam e querem ouvir. No início da Igreja, praticamente não havia necessidade de apelo e convite para o povo vir a Cristo. O poder de Deus era tão manifesto que as pessoas, por livre iniciativa, procuravam os apóstolos com a pergunta: “Que devo fazer para ser salvo?”.

A situação está assim por culpa da liderança?

Nesta resposta, eu gostaria de substituir a palavra “liderança” por “pastores”. Liderança tem a ver com direção, mas, em termos de igreja prefiro abordar o assunto partindo dos pastores, aqueles que receberam de Deus o chamado e o ministério de apascentar. O pastor torna-se líder porque antes já era pastor; ele não é pastor simplesmente porque é líder de uma obra. Nem todo líder cristão é obreiro do Senhor só pelo fato de ser líder. O pastor que apenas é líder torna-se um profissional, e não um vocacionado da parte do Senhor. E os pastores precisam enfatizar a importância primordial da Bíblia Sagrada. Está faltando a Palavra em nossos púlpitos. Hoje, nos cultos evangélicos, 80% do tempo é gasto com assuntos e atividades que nada têm a ver com a exposição da Palavra de Deus. Veja as músicas de hoje – não têm nada de Bíblia, é só passatempo. Muitas vezes, quem compõe nem salvo por Cristo é. O resultado está aí: carência espiritual, pobreza de fé, crentes sem vida. Nossos pastores precisam despertar para semear a Bíblia. O povo está sem alimento. Se a ovelha recebe comida fraca, ou adulterada, pobre dessa ovelha!

A solução seria o incentivo à Escola Bíblica Dominical (EBD), uma instituição que atravessa uma crise em tantas igrejas?

Repito que uma igreja, um povo, uma família, quando despertados por Deus, mediante o Espírito Santo e a Palavra, procurarão com perseverança conhecer a Bíblia. A EBD deve enfatizar o estudo da Palavra de maneira metódica, atingindo desde o bebê até ao ancião, com professores treinados, de maneira sistemática. É preciso haver currículos definidos, senão o assunto fica a esmo. É claro que, mesmo se for ministrada de maneira precária, a Palavra sempre trará resultados na vida das pessoas, pois ela é viva e não volta vazia. Contudo, não atingirá o objetivo de construir uma igreja forte. No passado, a luta do inimigo era para destruir a Bíblia. Quantas bíblias foram queimadas na Idade Média, nas fogueiras da Inquisição? Hoje, como o diabo sabe que não há como fazer isso, sua luta é para corromper a mensagem da Palavra. E está conseguindo!

Em 1989, a Assembleia de Deus dividiu-se em dois grandes segmentos, a CGADB e a Convenção de Madureira (Conamad). Passados vinte anos, os dois grupos estão mais próximos ou mais distantes?

Não chamaria o que aconteceu de divisão, e sim, de cisão administrativo-eclesiástica. Acompanhei bem de perto o processo e sei que havia desde algum tempo certas discordâncias, mas não desavenças espirituais, religiosas e doutrinárias. As igrejas Assembleias de Deus professam a mesma doutrina. Eu integro a CGADB e, regularmente, sou gentil e honrosamente convidado por colegas obreiros da Conamad para participar de eventos e ministrar a Palavra de Deus. Sinto-me honrado e também grato a esses companheiros de ministério por essas solicitações. Da mesma forma, temos regularmente pastores e outros líderes de Madureira em eventos da CGADB. Eu, pessoalmente, mantenho a expectativa de desaparecimento desta cisão.

O que o senhor experimentou no passado e sente falta nos dias de hoje?

Ah! Do movimento dinâmico e sempre crescente de evangelização; da inflexível e intensa disposição e vontade de todos os crentes de ganhar pessoalmente almas para Jesus. Logo que Jesus me converteu, aos 14 anos de idade, Deus me usou para evangelizar uma família inteira, ajudado por outros irmãos. Aquelas sete pessoas se entregaram a Cristo e se tornaram crentes fiéis, perseverantes e frutíferos para a glória de Deus. Que alegria! Sinto falta também dos cultos de oraçao e de vigília daquela época. Hoje, o tempo que passamos na presença do Senhor, buscando a sua face em cultos coletivos, é tão curtinho… Outra coisa maravilhosa era a comunhão cristã fortíssima entre os irmãos. Todos na igreja eram unidos. O que acontecia a um era compartilhado por todos.

A esta altura da vida, qual a sua prioridade?

Permanecer fiel. Fiel a Deus; fiel à sua Palavra; fiel à doutrina; fiel à família; fiel aos compromissos assumidos; e fiel à minha igreja e aos colegas de ministério. A fidelidade só pode trazer felicidade. Imagine a alegria de, conforme Paulo disse em II Timóteo 2.15, podermos nos apresentar a Deus como obreiros aprovados! Mas Deus dá-nos da sua graça. “A minha graça te basta”, disse Deus ao apóstolo.

Fonte: Cristianismo Hoje

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SERVIR É SOFRER

Se o apóstolo Paulo convivia com fadiga, frustração e medo em seu ministério, o quê nos faz pensar que podemos evitá-lo no nosso? A cruz deve ser um elemento essencial na nossa definição de realização pessoal. Medimos o sucesso de acordo com os padrões do mundo, e não para desafiá-los com a forma radicalmente diferente que a Bíblia ensina como caminho para a realização pessoal, profissional e espiritual. Esta pode ser uma razão pela qual a Igreja de hoje tem muita superficialidade.

Escrevo logo após participar de uma semana de ministração a pastores em meu país, o Sri Lanka. Eles atuam na região sul da Ilha de Ceilão, uma região marcada por sangrentas lutas separatistas e por muitas restrições ao exercício da fé cristã. Muitos deles trabalharam dez, 15 anos, antes de ver algumas conversões genuínas ao Evangelho, e a preço alto: foram agredidos, sofreram falsas acusações e ameaças de morte, tiveram templos apedrejados e filhos perseguidos na escola. Há aqueles que, infelizmente, desistem depois de alguns anos enfrentando toda sorte de dificuldades para tornar o nome de Cristo conhecido por seguidores do budismo e do hinduísmo, crenças professadas por mais de 80% dos cingaleses.

Sinto-me por vezes humilhado e envergonhado pela maneira como me queixo dos meus problemas, que são ínfimos em comparação com o daqueles irmãos. Quando faço ministrações no Ocidente, meus sentimentos são muito diferentes. Lá, sou capaz de “usar meus dons” e passo a maior parte do tempo fazendo coisas de que gosto. Tudo é mais fácil e prático! Mas, quando eu volto a ser líder em uma cultura como a do Sri Lanka, a frustração me assalta. A transição entre ser um palestrante diante de plateias cristãs em países da Europa ocidental ou dos Estados Unidos e ser um líder cristão em minha terra é difícil. Por isso mesmo, tenho pensado muito na questão do sofrimento na vida cristã. Como líder, segundo as Escrituras, eu sou servo das pessoas com que convivo. O cumprimento de minha vocação no Reino de Deus tem um caráter distinto, diferente do que significa satisfação perante a sociedade. O próprio Jesus disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (João 4.34). Então se fizermos a vontade de Deus, estaremos felizes e satisfeitos? Não, não é bem assim. Para Jesus, fazer a vontade do Pai significou enfrentar a cruz. Por que deveria ser diferente para nós?

A cruz deve ser um elemento essencial na nossa definição de realização pessoal. Tenho visto jovens cristãos que voltam ao Sri Lanka depois de estudar no Ocidente. Eles retornam altamente qualificados, mas a nossa nação pobre não pode dar-lhes o reconhecimento que suas habilidades adquiridas lá merecem. Então, eles se veem compelidos a lidar com a frustração ou abandonar de vez o país. Alguns montam suas próprias organizações, de modo a cumprir o que acreditam ser sua visão. Outros tornam-se consultores, dando treinamento e assessoria especializada a quem pode pagar por isso. E há, também, aqueles que pagam o preço de se identificar com o nosso povo e, finalmente, ter um profundo impacto sobre esta nação. Tento mostrar a eles que sua frustração poderia ser o meio para o desenvolvimento de uma mais visão profunda. Cito os exemplos de homens como Calvino e Lutero, que tiveram uma enorme variedade de ocupações e responsabilidades, de modo que só podiam usar os seus dons em meio ao cansaço. No entanto, os frutos de seu trabalho como líderes e escritores ainda abençoam a Igreja.

A teologia de Paulo no Novo Testamento enfatizou a necessidade de suportar pacientemente a frustração que vivemos em um mundo caído, aguardando o resgate da criação. Para o apóstolo, a natureza geme por causa de nós e vive essa frustração, conforme Romanos 8.18-27. Creio que não incluímos devidamente essa frustração em nossa compreensão do mundo. Medimos o sucesso de acordo com os padrões do mundo, e não para desafiá-los com a forma radicalmente diferente que a Bíblia ensina como caminho para a realização pessoal, profissional e espiritual. Uma igreja que tem uma compreensão errada dos dons dos seus membros vai certamente tornar-se doente. Esta pode ser uma razão pela qual a Igreja de hoje tem muita superficialidade.

Contemporaneamente, a ênfase na eficiência e nos resultados mensuráveis torna ainda mais difícil suportar a frustração. Nos últimos séculos, o desenvolvimento industrial e tecnológico no Ocidente fez da eficiência e da produtividade seus valores principais. Com o rápido desenvolvimento econômico, as coisas que eram consideradas luxo no passado tornaram-se não só necessidades, como também direitos, mesmo nas mentes dos cristãos. Num ambiente desses, a ideia cristã de compromisso entra em xeque. Costumamos chamar nossas igrejas e organizações cristãs de “famílias”, mas as famílias são muito ineficientes se comparadas a essas organizações eclesiásticas. Em uma família saudável, tudo para quando um de seus membros tem grandes necessidades. Em contrapartida, nós, em nossas comunidades, muitas vezes não estamos dispostos a estender esse compromisso para a vida cristã do corpo.

Compromisso com pessoas – O modelo bíblico da vida em comunidade é a ordem de Jesus para amarmos uns aos outros como ele nos amou. O princípio da liderança cristã é a do Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas, jamais abandonando-as mesmo quando a situação é perigosa (João 10.11-15). Quando Deus nos chama a servi-lo, ele nos chama também para morrer em favor do povo a que servimos. Nós não descartamos as pessoas quando têm problemas e não podem fazer o seu trabalho corretamente, pois servimos justamente para ajudá-las a sair de seus problemas. Nós não dizemos às pessoas para encontrar outro local de serviço quando expressam contrariedade ou mesmo se revoltam contra nós. O certo é trabalhar com elas, até que as partes conflitantes cheguem a consenso entre concordar ou discordar. Mas, quando as pessoas saem de uma igreja porque não se encaixam no programa proposto ali, isso comunica uma mensagem fatal: a de que nosso compromisso é com o trabalho, e não com as pessoas.

O triste resultado disso é que os crentes não têm a segurança de pertencer a uma comunidade que vai ficar e lutar por eles, não importa o que acontecer. Por isso, tornam-se superficiais, nunca desenvolvendo verdadeiros vínculos e jamais crescendo rumo à maturidade. Passam a deslocar-se de grupo para grupo, na expectativa de achar seu porto seguro. Uma igreja comprometida com programas pode crescer numericamente, mas não vai nutrir suficientemente os cristãos bíblicos que entendem as implicações de pertencer ao Corpo de Cristo. Sim, lidar com pessoas é, muitas vezes, frustrante. Mas nós temos de suportar as decepções advindas desse relacionamento, porque Cristo nos chamou para que nos doemos aos outros.

Tempos atrás, preguei sobre compromisso numa de minhas viagens ao Ocidente. No espaço de poucos dias em que durou aquela jornada, fui procurado por algumas pessoas. Todas relataram casos em que conhecidos, quando não eles mesmos, haviam deixado um grupo ou uma pessoa por causa de problemas. Uma dessas pessoas tinha saído de um casamento que considerava infeliz; outra deixara a igreja à qual pertencia por não concordar mais com suas propostas; um terceiro contou que tivera de abandonar o diante de dificuldades incontornáveis com os colegas. Cada uma dessas pessoas descrevia sua saída como uma versão misericordiosa do sofrimento. No entanto, não pude deixar de me perguntar se, em cada um daqueles casos, a única coisa que aquelas pessoas deveriam ter feito, como cristãs, não teria sido para ficar e sofrer.

Muita gente se solidariza comigo e com meu ministério pelo fato de eu servir em um país assolado pela guerra e hostil ao evangelismo. Na verdade, temos sofrido muito por isso, e somos afetados diretamente pela atual situação de Sri Lanka. Há alguns meses, um de nossos funcionários foi brutalmente agredido e morto. Tenho enfrentado diversas lutas durante meu trabalho na Mocidade para Cristo cingalesa, mas posso dizer que essa entidade, ao lado de Jesus e de minha família, tem sido a maior fonte de alegria para mim. Pela graça de Deus, conto com um grande grupo de pessoas a quem recorro pedindo oração quando tenho necessidades. Uma delas, sem dúvida, é superar o cansaço. Quando escrevo sobre isso, muitos desses amigos de caminhada respondem dizendo que estão orando para que Deus possa me fortalecer e orientar na minha luta diária.

Contudo, existem diferenças na forma como os amigos do Oriente e alguns no Ocidente respondem. Tenho a sensação forte de que muitas pessoas no Ocidente pensam que lutar contra o cansaço por excesso de trabalho é prova de desobediência a Deus. Mas vamos ter de suportar o cansaço quando nós, como Paulo, formos servos do povo de Deus. O Novo Testamento é claro ao dizer que aqueles que trabalham para Cristo sofrerão por causa de seu trabalho. O Senhor nos chama em meio ao cansaço, ao estresse e à tensão. Paulo falou muitas vezes sobre as lutas físicas e mentais que o levaram a sofrer em seu ministério. A lista é longa: abalos emocionais (Gálatas 4.19); raiva (II Coríntios 11.29); noites insones e fome (II Coríntios 6.5); angústia e perplexidade (II Coríntios 4.8); fadiga (Colossenses 1.29). Em declarações que soariam radicalmente contra a cultura contemporânea, o apóstolo disse coisas como “ainda que o nosso ‘eu’ exterior se corrompa, o nosso ‘eu’ interior se renova de dia a dia” (II Coríntios 4.16). E o que dizer do texto que, no mesmo livro, fala rm ser entregue à morte por causa de Cristo? “De modo que a vida de Jesus também se manifesta em nossa carne mortal. Então, a morte é não é apenas a obra em nós, mas a vida em vós” (II Coríntios 4.11-12).

A glória da dor – Temo que muitos cristãos leiam tais textos apenas com interesse acadêmico, não pensando seriamente em como esses princípios devem ser aplicados em suas vidas. O Ocidente, depois de ter lutado contra a tirania do tempo, tem muito a ensinar ao Oriente sobre a necessidade de descanso. Ao mesmo tempo, o Oriente pode ensinar ao outro lado acerca das lutas físicas que vêm de compromisso com as pessoas. Ocorre que o sofrimento é um passo inevitável no caminho para a realização. Desde que a cruz é um aspecto fundamental do discipulado, a Igreja deve treinar líderes cristãos a esperar a dor e o sofrimento. Quando uma perspectiva assim entra nas nossas mentes, a dor, por mais forte que seja, não vai tocar nossa alegria e contentamento em Cristo. Tanto, que em nada menos que dezoito diferentes passagens do Novo Testamento, sofrimento e alegria aparecem juntos – e, na ótica paulina, o sofrimento é muitas vezes motivo de alegria, como expressou em Romanos 5.3-5.

Em um mundo onde a saúde, a aparência física, o acúmulo de bens e as facilidades da vida moderna ganham proeminência quase idólatra, Deus quer chamar cristãos para demonstrar a glória do Evangelho suportando a dor e o sofrimento. O curioso é que as pessoas que estão insatisfeitas após buscar incessantemente essas coisas, que sozinhas não satisfazem os anseios da alma, surpreendem-se ao ver gente alegre e contente, mesmo em meio a dificuldades de todo tipo. Talvez esta seja uma nova – e eficiente – forma de demonstrar a glória do Deus diante dessa cultura hedonista.

A Bíblia e a história mostram que o sofrimento é um ingrediente essencial para alcançar as pessoas não alcançadas. E o Ocidente está rapidamente se tornando uma região de não alcançados. Será que a perda de uma teologia do sofrimento pode levar a Igreja ocidental a tornar-se ineficaz na tarefa de evangelização? Sua congênere oriental, no entanto, floresce no anúncio das boas novas, mesmo em contextos de intensa perseguição à fé. É por isso que a troca de influências entre os dois lados da cristandade tem sido tão significativa, e disso posso falar por experiência própria. Cristãos, tanto no Oriente como no Ocidente precisam ter uma teologia do sofrimento se quiserem ser saudáveis e frutíferos nas mãos do Senhor.


FONTE: Revista Cristianismo Hoje
Texto de Ajith Fernando. Diretor nacional de Mocidade para Cristo em Sri Lanka e líder de uma igreja cristã em Colombo, a capital do país. Autor do livro Convite à alegria e dor, escreveu este artigo como parte da Conversa Global , evento preparatório do III Congresso Mundial de Evangelização, que acontece em outubro na Cidade do Cabo (África do Sul)