segunda-feira, 29 de novembro de 2010

E.B.O. - Paranaguá/PR - Comentários de Ezequiel 28

Conforme havia prometido aos alunos da matéria de Angelologia que ministrei na EBO em Paranaguá/PR, igreja presidida pelo Pr. José Alves, apresento alguns comentários sobre o texto de Ezequiel 28.

O rei de Tiro é uma referencia a Satanás? (Ezequiel 28.11-19)

Parece bastante natural tomar esse poema como uma repetição, pela ênfase de Ezequiel ao criticar a queda da Tiro terrena e de seus governantes humanos. Todavia, muitos vêem a passagem como direcionada indiretamente a Satanás. Por que?

1) As descrições “sinete da perfeição, sabedoria e formosura” e, “perfeito eras nos teus caminhos desde o dia em que foste criado” soam como algo inadequado a qualquer rei humano.

2) “... Éden, jardim de Deus”, descrito como o centro do rei na terra, coberto por todas as pedras preciosas, é tomado como a região de Satanás antes de Adão ter sido criado.

3) O “querubim da guarda” é, mais uma vez, uma descrição que dificilmente se ajustaria a um rei pagão, mas ficaria mais bem posto no papel de Satanás antes da queda, na qualidade de um importante ser angelical.

4) “Até que se achou iniqüidade em ti”, não se encaixa na doutrina da depravação humana, mas parece indicar um ato específico de pecado que acabara por corromper o ser descrito.

5) As expressões: “Eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo (...) e te reduzi a cinzas sobre a terra” parecem se ajustar às palavras de Cristo sobre a expulsão de Satanás do céu, conforme se encontra registrado em Lucas 10.18.

Conquanto esses mesmos versículos admitam interpretações metafóricas e poéticas, com referência aos governantes humanos de Tiro, os que vêem Satanás nesta passagem acreditam que elas se ajustam melhor ao ser maligno. Por outro lado, um comentarista declara que, “cada característica fornecida sobre ele [o rei] nesses versículos, pode ser aplicada àluz do contexto religioso-cultural da época”.

Fonte: RICHARDS, Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia – Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Casa Publicadora das Assembléias de Deus – CPAD. Rio de Janeiro, 2005.

Ezequiel 28.15

“Perfeito eras”. Is 14.12 compara o rei da Babilônia à pessoa de Lúcifer, “Estrela da Manhã”. Naqueles tempos já existia a história de um anjo perfeito, dos mais gloriosos, que, querendo elevar-se acima do seu nível, foi precipitado à destruição. A Bíblia não dedica muitas linhas aos fatos ocorridos nos Céus; da mesma forma, só o primeiro versículo de Gênesis se refere à criação do universo inteiro, daí a narrativa se limitar às origens da terra, e depois à história da raça humana. Compreende-se, porém, que há uma alusão à pessoa de Satanás e que a soberba entrega a pessoa nas mãos dele.

Fonte: Bíblia Shedd. Edições Vida Nova. São Paulo, 1997.

O rei de Tiro (Ezequiel 28)

Tudo o que é dito sobre o rei de Tiro aqui deve ser entendido como tendo uma dupla referência – ao rei terreno de Tiro, um homem; e ao rei sobrenatural, Satanás ou Lúcifer, que governava Tiro por meio do monarca humana. Tanto o rei humano como o sobrenatural são mencionados e tratados nessa profecia. Afirmações que poderiam se referir ao ser humano devem ser entendidas como afirmativas que dizem respeito a ele; e aqueles que não poderiam se referir a um homem devem ser reconhecidas como referências ao ser sobrenatural.

Nesta passagem existem 21 referências a Lúcifer:

(1) Tu eras o selo da medida (modelo como em 43.10); ou seja: Tu eras o perfeito modelo (v.12).
(2) Tu eras cheio de sabedoria e perfeito em formosura (vv. 12,17).
(3) Estiveste no Éden, jardim de Deus (v.13).
(4) De toda a pedra preciosa era a tua cobertura quando estiveste no Éden.
(5) Foste criado (não nascido).
(6) Tu eras o querubim (anjo) ungido para cobrir (proteger ou abrigar, v.14).
(7) Eu te estabeleci.
(8) No monte santo de Deus estavas.
(9) No meio das pedras afogueadas andavas.
(10) Perfeito eras nos teus caminhos (nas leis em que exigi que andaste), desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti (v. 15).
(11) Na multiplicação do teu comércio (tráfico) pecaste. Eu te lancei do monte de Deus (v.16).
(12) Eu te fiz perecer, ó querubim (anjo) cobridor, do meio das pedras afogueadas.
(13) Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura (v. 17).
(14) Corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor (esplendor, formosura).
(15) Por terra te lancei (v. 17; Lc 10.18; Is 14.12-14).
(16) Diante dos reis te pus (v. 17; Mt 25.41; Ap 20.10).
(17) Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários (v. 18).
(18) Fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu (v. 18; Mt 25.4; Ap 20.10)
(19) Eu te tornei em cinza sobre a terra (v. 18).
(20) Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti (v. 19).
(21) Em grande espanto te tornaste, e nunca mais serás solto entre os homens para exaltares a ti mesmo e te opores a Deus.

É verdade que algumas dessas afirmações poderiam se referir ao rei terreno de Tiro, mas grande parte delas (pontos 3-12, por exemplo) jamais poderia se aplicar a um ser humano. Reconhecendo que a lei da dupla referência se aplica a essa passagem, podemos dizer que Lúcifer é único ser nas Escrituras que poderia cumprir todas as afirmações aqui; portanto, ele deve ser o elemento em questão aqui e quem cumprirá os elementos sobrenaturais.

O tempo da queda de Lúcifer (Ezequiel 28.15)

O tempo de sua iniqüidade foi quando ele se rebelou contra Deus para exaltar seu trono e reino da terra ao céu (Is 14.12-14). O tempo de sua corrupção e pecado foi certamente antes dos dias de Adão, pois Lúcifer já era uma criatura caída quando apareceu no Éden de Adão (Gn 2; 2Co 11.4).

A blasfêmia de Lúcifer (Ezequiel 28.16)

Heb. Rekullah, tráfico. Refere-se ao andar de Lúcifer blasfemando contra Deus aos seus próprios súditos na terra, e aos súditos de Deus entre os anjos, até ter todos os seus súditos na terra se rebelando contra o Criador, bem como um terço dos anjos (Is 14.12-14; 2Pe 3.4-6; Ap 12.4). Independentemente do que seja, está claro aqui que o comportamento resultou em violência; e Lúcifer pecou e rompeu com Deus. Essa não poderia ser uma referência a um rei na terra, como o governante de Tiro fazendo negócios comuns com as nações. Definitivamente diz respeito ao comércio de um querubim, e não de um homem. Todo o comércio entre as nações do mundo inteiro não poderia levar um anjo a pecar, como aconteceu aqui no v. 16.

O monte de Deus (Ezequiel 28.16)

Nenhum anjo esteve em algum monte santo de Deus durante o governo do rei terreno de Tiro, por isso a referência diz respeito ao passado eterno em que o próprio querubim tinha um trono literal na terra sobre o monte santo de Deus. Aqui temos uma compreensão da posição de Lúcifer antes de sua queda, e uma revelação sobre a causa de sua queda (vv. 13-17). O termo monte/montanha de Deus e suas variações ocorrem seis vezes (Gn 22.14; Nm 10.33; Is 2.3; 30.29; Mq 4.2; Zc 8.3). Todas essas passagens bíblicas não se referem ao mesmo monte no mesmo lugar, como se pode ver em diversas passagens.

Lúcifer é expulso do céu (Ezequiel 28.17)

Ele foi lançado do céu de volta à terra na época de sua invasão do céu (v. 17; Is 14.12-14; Lc 10.18), e será lançado à terra novamente no meio da 70ª semana de Daniel (Ap 12.7-12). Então ele será lançado no abismo por mil anos e será solto por um breve espaço de tempo novamente no final desse período. Depois disso, será lançado no lago de fogo para ser atormentado para sempre (Ap 20.1-10).

Lúcifer é humilhado (Ezequiel 28.17)

Ele já havia sido humilhado diante dos reis, pois foi lançado à terra diante de todas as nações sobre as quais reinava antes da época de Adão (Is 14.12-14). Será mais uma vez terrivelmente humilhado diante dos reis da terra aos quais liderará com o Anticristo na batalha do Armagedom (Ap 12.7-12; 16.13-16; 19.11-21; 20.1-3). Então, mais uma vez, no final do Milênio, ele será lançado no inferno diante de todos os reis e dos outros que passarão a eternidade no lago de fogo (Mt 25.41; Ap 20.10).

Tornado em cinza (Ezequiel 28.18)

Ele cairá como cinzas no chão. Cinzas falam da terrível humilhação e, como elas, ele literalmente cairá ao chão, e então será lançado no inferno, onde homens irão observá-lo (vv. 17,18). Isso não faz referência ao seu corpo sendo transformado em cinzas, então esses homens não poderiam vê-lo ou saber que ele foi Satanás. Portanto, não se deve considerar que ele tem um corpo mortal que pode ser transformado em cinzas. As pessoas se espantarão com ele, e não com as suas cinzas (vv. 18,19).

Fonte: Bíblia de Estudo Dake. Casa Publicadora das Assembléias de Deus – CPAD. Rio de Janeiro, 2009.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

EM BREVE - QUANDO OS PEQUENOS TORNAM-SE GIGANTES



Já está quase pronto o livro "QUANDO OS PEQUENOS TORNAM-SE GIGANTES - A ação de Deus nas pequenas coisas".
Num mundo megalomaníaco é importante destacar a necessidade de vivermos de forma humilde diante do nosso Deus. Este livro vai abordar o resultado de pequenas coisas, pequenos gestos e pequenas pessoas que marcaram a história bíblica porque permitiram que Deus agisse em seu favor.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

1o. ESTUDO BÍBLICO PARA JOVENS EM VILA RÉ - SP



Neste sábado, 20 de novembro, a Assembléia de Deus na Vila Ré - São Paulo/SP realizará seu 1o. EBJ - Estudo Bíblico para Jovens. Os assuntos que vamos abordar são:

- O que é cultura
- O que é pós-modernidade
- O cristão e o discernimento espiritual
- Multiculturalismo
- Ateísmo
- Reflexos da pós-modernidade na igreja
- O cristão e a música
- O cristão e a internet
- O cristão e os meios de comunicação
- O cristão e a sexualidade

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA PANCADA NA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE



Mensagem ministrada por Donnie Swaggart com o título: "A teologia da prosperidade e os cafetões da prosperidade". Você vai considerar exagerada, mas vai concordar com bastante coisa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

SE O SUICÍDIO É UM PECADO, POR QUE DEUS ABENÇOOU SANSÃO POR TÊ-LO COMETIDO?




JUÍZES 16:26-27

PROBLEMA: O suicídio é uma forma de assassinato e Deus disse: "Não matarás" (Êx 20:13). Há muitos casos de suicídio na Bíblia (veja os comentários de 1 Samuel 31:4) e nenhum deles recebeu aprovação do Deus. Contudo, Sansão cometeu suicídio com o aparente consentimento do Senhor.

SOLUÇÃO: Sansão não tirou a sua vida; ele sacrificou-se por seu povo, Há uma grande diferença. Jonas orou: “Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver" (Jn 4:3). Mas Jonas nunca tirou a sua vida. O suicídio é um ato "para si mesmo". O que Sansão fez foi entregar a sua vida pelos outros - pelo seu povo. O ato de Sansão foi um ato de suicídio tanto quanto o foi o ato de Cristo, quando este disse: "dou a minha vida" (Jo 10:15), porque "o bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10:11). Com efeito, "ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15:13).

É claro que nem toda aparente morte "pelos outros" é realmente um ato de amor. Paulo deixou isso evidente no seu grande capítulo acerca do amor: "e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1 Co 13:3). Até mesmo um mártir pode morrer sem que haja amor, mas numa obstinada entrega a uma causa centralizada na sua própria pessoa. Saul optou pela morte, dizendo: "para que porventura não venham estes incircuncisos, e me traspassem e escarneçam de mim" (1 Sm 31:4). Abimeleque procurou a morte, e disse a seu escudeiro: "mata-me, para que não se diga de mim: Mulher o matou" (Jz 9:54).

Em contraste, Sansão pediu permissão a Deus para morrer, e orou: "Morra eu com os filisteus" (Jz 16:30). Deus acedeu ao seu pedido, "e foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida" (v. 30). Paulo também desejou "ser anátema, separado de Cristo, por amor de" seus irmãos (Rm 9:3). O soldado que se atira sobre uma granada para salvar a vida de seus companheiros não está tirando a sua vida, não está se suicidando; ele está dando a sua vida pelos outros. De igual modo, Cristo não cometeu suicídio, tendo ele vindo para "dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10:45).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A MÚSICA CRISTÃ NÃO PODE ABRIR MÃO DO CONTEÚDO BÍBLICO



Quem não se lembra do Grupo Logos? Compartilho com os amigos deste blog a entrevista que o Paulo Cezar concedeu à Carlos Fernandes para Cristianismo Hoje.

O título desta entrevista é o mesmo de uma das canções mais conhecidas do grupo Logos. Mas também sintetiza parte importante da vida do pastor, cantor e compositor Paulo Cezar da Silva. Aos 60 anos de idade e com mais de trinta de carreira – ou, conforme ele mesmo define, ministério –, Paulo é dos nomes mais conhecidos da música evangélica brasileira, de cuja evolução participa desde os anos 70. Foi naquela época que, ainda aluno do seminário Palavra da Vida, em São Paulo, formou um conjunto musical, já com a presença de Nilma, com quem acabou se casando. A iniciativa entre amigos deu origem, em 1979, ao grupo Elo, que marcou uma geração de crentes. Alguns de seus álbuns, como Calmo, sereno e tranquilo e Ouvi dizer, viraram clássicos, e Paulo Cezar, com sua poesia, uma referência.

A trágica morte do talentoso instrumentista Jayro Gonçalves, o Jayrinho, acarretou o fim do Elo. Mas Paulo quis seguir adiante. “Fui buscar consolo e inspiração na Bíblia”, conta. E foi das Escrituras que surgiu a ideia para batizar o novo grupo. “O nome foi escolhido por significar a palavra viva e por ter tudo a ver com nosso ministério, onde a Bíblia tem centralidade absoluta”, diz o artista. Com o Logos, Paulo Cezar legou ao público cristão 17 álbuns e pérolas como as canções Mão no arado, Portas abertas e Autor da minha fé. Compositor da maioria das músicas do grupo, o artista defende um louvor com conteúdo – coisa que, segundo ele, já não é prioridade. “A falta de conhecimento bíblico e os interesses comerciais estão na base da superficialidade”, resume.

Apesar da já longa jornada, o Logos não está parado no tempo. Com uma formação que vem se renovando ao longo dos anos, o grupo é a base de um ministério evangelístico cuja sede fica em São José dos Campos (SP). O Logos faz pelo menos três grandes viagens por ano, levando não apenas louvor musical, mas evangelismo, edificação espiritual e encorajamento às igrejas. Em janeiro, o Logos esteve na África, em ação missionária. Nesta entrevista a CRISTIANISMO HOJE, Paulo Cezar permitiu-se falar de coração aberto sobre o que pensa acerca da indústria musical, do próprio ministério e da Igreja. E não escondeu: “Sonho com bons músicos, crentes de verdade, que rendam seus talentos ao Senhor e testemunhem com suas vidas o caráter de verdadeiros adoradores.”



CRISTIANISMO HOJE – Você é um dos nomes mais conhecidos da música cristã brasileira, tendo acompanhado de perto sua evolução nos últimos 30 anos. O que mudou para melhor e para pior ao longo desse tempo?

PAULO CEZAR – Para melhor, acho que mudou a qualidade técnica. A evolução dos músicos, dos estúdios, dos instrumentos e do som é perceptível. As chances de alguém gravar e fazer um bom trabalho, hoje, são muito maiores do que antes. O que mudou para pior, com algumas exceções, foi o conteúdo, tanto do que se produz como do objetivo com que se canta. Atualmente, a chamada música evangélica, ou “gospel”, está sendo atacada de todos os lados. O mundanismo tomou o lugar da contextualização. Além disso, vemos a repetição de muitos jargões, palavras de ordem e mensagens de prosperidade.

Por que a música evangélica de hoje carece de conteúdo?

As músicas e tais tendências nos conduzem a nomes, mas eu não quero, de modo algum, reconhecer ou classificar adoradores. Afinal, se Deus os procura, quem sou eu para achá-los? Mas creio que as letras são escritas de acordo com várias influências. O conhecimento é um desses aspectos, e é importantíssimo. Ninguém, mesmo que queira, poderá escrever sobre o que não sabe. A falta de conhecimento ressalta a superficialidade e o apelo emocional. Em outras palavras, um compositor ou pregador superficial ficará contente diante de pessoas chorando no altar ou mãos erguidas no auditório – mesmo que os ouvintes não sejam salvos ou que seu caráter não seja mudado nos dias que se seguem. Outro aspecto é a razão. Responder conscientemente ao motivo pelo que se compõe é determinante para quem o faz. E isso é que faz toda a diferença!

Mas essa contextualização é boa ou não?

Acredito que essa tal contextualização tem levado compositores, escritores e pregadores a compor, escrever e dizer o que seus “clientes” gostam, e não o que precisam. Eles não percebem que, agindo assim, perdem a inspiração divina e a própria criatividade.

Ainda existe espaço para grupos de louvor com visão missionária, como Logos e Vencedores por Cristo?

Com toda certeza, ainda existe sim. O Senhor nos tem aberto portas em muitas denominações. Fazemos três grandes viagens todo ano, cada uma com duração de dois meses e meio, nas quais visitamos as igrejas diariamente. Nosso trabalho é evangelístico – e o que queremos é anunciar o Evangelho de forma séria, através de boa música e de mensagens claras e objetivas.

Como foi a viagem à África e como você avalia a realidade espiritual de lá?

Fomos convidados a participar de uma conferência para missionários brasileiros em Dakar, no Senegal. Resolvemos aproveitar a oportunidade para visitar também Guiné Bissau. Nos dois países, estivemos em igrejas, escolas e agências missionárias. Os missionários brasileiros que atuam lá choraram ao ouvir as músicas que foram usadas por Deus no seu próprio chamado ou em momentos marcantes de seu ministério. A rea­lidade espiritual é a de um povo oprimido pela religiosidade. A tradição familiar é muito forte; ela tira a individualidade das pessoas, tornando muito difícil a absorção do Evangelho. Afinal, a Palavra de Deus apresenta uma nova tomada de posição espiritual. E uma mudança religiosa significa rompimento direto, não só com a religião predominante, mas, sobretudo, com a própria família.

O que você e o ministério Logos têm feito no sentido de dar contemporaneidade ao seu trabalho, evitando parar no tempo?

Bem, emprimeiro lugar, temos seguido o exemplo da Bíblia, nunca mudando a essência do que fomos chamados a ser e a fazer. Temos também procurado usar os instrumentos modernos em nossa música. Ao dizer isso refiro-me tanto aos instrumentos que são pessoas, quanto aos instrumentos que são coisas; porém, sempre tomando o cuidado de não permitir que um ou outro assuma o centro das atenções. Estamos conscientes de que, quando a performance ofusca o brilho do conteúdo, só resultados superficiais são colhidos.

Quais são os artistas que hoje atuam e que chamam sua atenção positivamente pela postura e pelo ministério?

Há vários adoradores no meio artístico. Eu prefiro não citar nomes para evitar injustiças, mas resumo minha resposta afirmando que os que chamam a minha atenção são aqueles que têm um compromisso verdadeiro com o Senhor e fazem de suas vidas a maior expressão daquilo que pregam.

É correto alguém dizer que a música é um ministério? Qual seria a base bÍblica para tal afirmação?

Vivemos dias em que as nomenclaturas fazem parte de um complexo esquema organizacional. Não creio que isso, em si, seja mau. E é verdade que cada crente tem que achar o seu lugar funcional na obra. Mas a incompreensão do uso de um ministério pode trazer orgulho ou desajuste na função de alguns. A Palavra de Deus nos ensina sobre dons, serviços e ministérios. Entendo que existe aí uma sequência lógica, onde o dom é a capacidade espiritual que o Senhor dá a cada um, segundo o seu propósito, como, por exemplo, a misericórdia. Já o serviço é o meio pelo qual aquele dom é manifesto, como o diaconato. E o ministério é o que é executado no final dessa sequência. Quando isso é entendido, os ministérios voltam ao seu lugar de trabalho, perdendo a característica perigosa de ostentação.

E quando esse entendimento é jogado para escanteio em nome do mercado?

Se eu não tivesse certeza de que este veículo de comunicação circula na Igreja, pularia esta pergunta. Testemunhar de coisas que não são boas não me traz alegria. Acho que as coisas ruins que eu tenho testemunhado são frutos de falsas conversões e de distorções daquilo que alguns chamam de “ministério”: A ganância por posição, popularidade, fama e dinheiro é absolutamente antagônicos ao caráter do Reino de Deus e em momento algum reflete o ministério daquele em quem nos espelhamos, Jesus. Quando sei dos valores que alguns “homens de Deus” cobram para fazer algo “em nome de Jesus,” sinto-me enojado. Não fora minha consciência de ministério, eu me sentiria ultrajado como servo. Mas isso também não me surpreende; a Bíblia está repleta de admoestações relativas a esse tipo de pessoas. Muitos se escandalizam por um político que esconde dinheiro nas meias, não é? Pois isso é muito pouco diante de “servos” que o escondem no coração.

Com a decadência da indústria fonográfica gospel, qual o panorama que se desenha para o futuro? As grandes gravadoras e grupos do segmento estão com os dias contados?

Depende. Acho que, pela ordem natural das coisas, tanto a indústria como o comércio fonográfico terão que fazer adaptações severas. Alguns conseguirão sobreviver; outros, não. O uso da tecnologia moderna é um fator básico do desenvolvimento. As indústrias correrão sempre nessa direção e farão as adaptações necessárias para driblar a crise, abrindo assim um novo cenário. Creio ainda que, diante do mercado paralelo crescente – a pirataria – e com o advento da internet, os valores e condições de pagamento dos produtos dessa indústria se ajustarão a um modo cada vez mais pessoal, fácil e ágil, que satisfaça perfeitamente ao cliente. Isso acabará resultando em maior consumo.

Você tem uma postura crítica em relação à apropriação comercial da música evangélica, particularmente por parte das grandes gravadoras do segmento?

Não sou contrário a essa apropriação da música em si, porque os direitos de um contrato são mantidos por lei. Minhas críticas são por outros motivos. Tenho certeza de que a parte comercial de uma gravadora – evangélica ou não – sempre dará prioridade ao lucro. É o lucro que a fará conquistar o mercado, e por causa disso a visão ministerial, ainda que exista, será considerada em um plano inferior. Não vejo problema em que se venda a Bíblia no bar da esquina. Ora, qualquer um pode vender o que quiser; a diferença, para mim, está só na razão pela qual se faz isso. E é aqui que eu vejo o problema mais sério, quando o conteúdo de uma música realmente cristã não é o produto desejado para ser difundido pelas gravadoras chamadas evangélicas. Vale qualquer coisa, desde que resulte em grana! Então eu pergunto: Onde está a visão do Reino nesse negócio?

O Logos teve uma passagem pela Line Records, gravadora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. O que representou para você aquela experiência?

Quanto à Line Records, sempre tive e tenho por ela profundo respeito. Nunca o Logos foi destratado ali e não há nada pendente em relação ao contrato que fizemos, que foi de distribuição. Tanto, que a previsão do contrato era de dois anos, mas nossa relação perdurou por mais quatro anos além do que foi assinado. Aqui, preciso ressaltar que, embora pessoalmente, discorde de certas práticas e costumes da Igreja Universal – algo, aliás, nunca escondido e respeitado em nosso relacionamento –, reconheço que eles foram sérios conosco, e somos gratos por isso.

Se uma grande gravadora propusesse hoje ao Logos um contrato vantajoso, qual seria sua resposta?

Olha, se uma gravadora vir o Logos como um grupo sério e maduro, que goza de respeito e aceitação por parte de várias denominações em todo país, não haverá impedimentos para uma aproximação. Temos princípios, mas nunca estamos fechados a contratos se a visão do contratante for de fato, ministerial, independentemente da competitividade artística do momento.

Como está a situação do ministério em termos de viabilidade financeira?

Bem, somos uma missão, e realmente sem fins lucrativos. Isso significa que sempre estamos com nossas contas em dia e nunca temos recursos antes de projetos. Funciona assim: temos projetos antes de recursos. Mas não estranho isso; acho que é coisa de Jesus, mesmo... Aprendemos com ele a ver pães e peixes serem multiplicados. Então, quando saímos, fazemo-lo como trabalhadores que o representam, e não como artistas e empresários.

Como é o seu processo de composição?

Eu componho após pensar: pensar na minha própria vida, na vida das pessoas, nas necessidades; e sempre trago essas coisas diante da Palavra de Deus, que me diz o que fazer, ou como ir adiante. Evidentemente que os talentos natos vindos do Senhor afloram e a excelência de quem quer adorar não permite a futilidade. Sei que, se eu for superficial e não verdadeiro, os resultados do que estou compondo serão também assim.

É difÍcil conciliar essa busca por autenticidade com a necessidade de vender CDs?

Veja, o comércio não é pecaminoso, como também o dinheiro não é. O que faço com ele é o que me diferencia. Não componho para ganhar dinheiro, mas sei que vender os trabalhos é o modo de fazê-los chegar a quem preciso atingir. Sabemos que o trabalhador é digno de seu salário. Não é pecado ser bem remunerado. As pessoas pagam entradas para assistir jogos de futebol, peças de teatro e filmes no cinema. Nada mais justo do que remunerar o artista segundo a arrecadação que ele mesmo produz. Mas fazer missões é outra coisa!

Na sua opinião, é lícito ao músico cristão tocar profissionalmente fora da igreja? Isso não seria desvirtuar o talento dado por Deus?

Vamos por partes. Primeiro, é preciso compreender que a música é um talento, e não um dom espiritual. Como talento, ela não é santa em si mesma. Há coisas lindas compostas por artistas descrentes. Depois, é preciso pensar que a música é também uma profissão artística reconhecida em todo mundo; portanto, qualquer pessoa que tenha esse talento pode exercer essa profissão, sendo crente ou não. Há, entretanto duas grandes observações aqui. A primeira é que o músico crente, como qualquer outro profissional que conhece Jesus, tem que ter a sua vida santificada ao Senhor. Isso implica no seu testemunho comum de crente e na santificação de seu caráter de forma geral. Então, se ele cantava palavrões ou obscenidades quando não era crente, agora, com Cristo, terá de mudar essas coisas. A outra observação tem mais a ver com o chamado ministerial, e creio ser este o ponto mais importante. Se um músico, após a sua conversão, receber de Deus um chamado de dedicação total à obra e atendê-lo, então, também como qualquer outro profissional, estará à disposição do Senhor para servi-lo e por ele ser sustentado, não mais como um artista lá fora, mas como um servo no lugar onde estiver servindo.

É cada vez mais comum músicos populares no segmento secular dizerem-se convertidos ao Evangelho, logo engatando uma carreira art´stica entre os crentes. Qual o resultado disso?

Se forem verdadeiramente convertidos pelo Espírito Santo, e, como consequência disso, deixarem-se discipular como qualquer outro pecador rendido ao senhorio de Cristo, poderão ser usados pelo Senhor, a despeito do que foram ou fizeram. Se assim não for, será simplesmente uma troca de posicionamento profissional.

Por outro lado, gravadoras seculares andam de olho e até contratando nomes mais expressivos do gospel nacional. Como um músico evangélico deve se comportar diante de uma proposta como essa?

Para qualquer músico eu diria que, caso a proposta seja boa, agarre-a com todas as suas forças. Mas, se o músico em questão for um crente verdadeiro, ele deve saber aproveitar a oportunidade, mas nunca negociando seus reais valores.

Sem uma igreja ou ministério provendo sustento, e sem pagar “jabá”, o grupo Logos ainda toca em rádios?

Acho que sim. Deus é fiel, não é? Ele nos deixaria viver para pregar para paredes? Acho que não! Então, nossa música será ouvida até que ele queira, mesmo que já não estejamos mais aqui.

Autor da minha fé é uma das composições mais conhecidas de seu repertório. A letra fala sobre a segunda vinda de Cristo, tema meio esquecido ultimamente. Você acha que a música evangélica no Brasil perdeu seu papel profético?

Não posso generalizar o que acontece nos púlpitos, até porque, devido ao trabalho de viagens evangelísticas, estou mais tempo pregando do que ouvindo pregações. Mas, com certeza, reconheço que o assunto não figura entre os temas mais abordados.

Como você vê a formação musical nas igrejas e nos seminários?

Há várias igrejas que estão trabalhando isso. Conheço também algumas escolas voltadas nessa direção. No seminário onde estudei, embora não se tenha, especificamente, ensinado sobre os temas louvor e adoração, recebi as bases para ser um verdadeiro adorador. E é isso que, desde então, tenho procurando ser. Mas o que tenho constatado é que a dificuldade maior hoje não está em treinar musicalmente os alunos, capacitando-os e ensinando-lhes posturas de um ministro de louvor. O problema é quais são seus modelos. Certamente, o que esses alunos considerariam como referência seriam aqueles que estão na mídia, fazendo shows. Eles desejariam imitar seus gestos, seus jargões, seu tipo de música e até suas roupas. Assim, se tivéssemos que prepará-los de acordo com a modernidade do ministério, teríamos que ensinar-lhes matérias como presença de palco, expressão corporal, vestuário artístico e um vocabulário de palavras de ordem, além de estimulá-los a moldar suas músicas ao que está “rolando” hoje. Mas é disso que a Igreja está precisando ou é isso que a está afastando cada vez mais do genuíno papel da música evangélica?

Você já disse em várias ocasiões que é contra a cobrança de cachês por cantores evangélicos. Como o ministério Logos se sustenta financeiramente?

O Logos nunca cobrou cachê, e por princípio nunca o fará. Em todos esses anos de trabalho, sempre usamos o bom senso para termos as necessidades da missão supridas, sem colocar uma corda no pescoço de ninguém. Todos os pastores que nos conhecem, no Brasil ou fora dele, recebem o Logos com confiança. O que praticamos é uma taxa chamada de manutenção que qualquer igreja pode absorver. Ela cobre gastos com as viagens, que fazemos a bordo do nosso ônibus, com toda a equipe e equipamentos, aos lugares mais remotos do país.

O que você acha que deve acontecer com a música evangélica brasileira daqui para a frente?

Não quero responder com pensamentos previsíveis, mas com desejos de alma. Eu sonho com uma música diversificada em estilos e mensagens, que atenda as reais necessidades das igrejas. Sonho com bons músicos, crentes de verdade, que rendam seus talentos ao Senhor e testemunhem com suas vidas o caráter de verdadeiros adoradores. E, finalizando, sonho com uma Igreja que permaneça fiel diante dos modismos sufocantes da falsa contextualização.